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O futuro pós-AF-1 Skyhawk na Marinha do Brasil: Hürjet, M-346 e porta-drones

Piloto militar em uniforme ao lado de jatos na pista, com formação de aviões no céu ao pôr do sol.

Com a saída de cena definitiva dos A-4AR Fightinghawk argentinos, da Fuerza Aérea Argentina, a Marinha do Brasil passou a carregar um posto curioso: tornou-se a última força militar do planeta a manter o Douglas A-4 Skyhawk em serviço ativo. É um marco histórico - e, ao mesmo tempo, um lembrete de que a Aviação Naval brasileira precisa decidir qual será o próximo passo.

No 1⁰ Esquadrão de Aeronaves de Interceptação e Ataque (EsqdVF-1) Falcão, os AF-1 Skyhawk (A-4KU) se aproximam, ano após ano, do limite natural de vida útil. Mesmo com o relevante programa de modernização realizado nos últimos anos, a frota convive com restrições cada vez maiores de disponibilidade e com um cenário logístico mais difícil para manter as aeronaves em voo, tanto pela idade da plataforma quanto pela crescente complexidade em sustentar a cadeia de suprimentos.

Um dos gargalos mais sensíveis para a Aviação Naval brasileira está ligado à disponibilidade dos motores turbojato Pratt & Whitney J52 - um projeto da Guerra Fria cuja estrutura logística mundial foi se estreitando ao longo das últimas décadas. Encontrar componentes de reposição, itens críticos e suporte especializado virou um problema mais frequente, demandando alto esforço logístico, técnico e financeiro para manter a pequena frota remanescente operacional e garantir, ao menos, que o VF-1 consiga sustentar a doutrina da aviação de caça embarcada da Marinha do Brasil.

Ainda assim, mesmo com limitações crescentes, os AF-1 seguem cumprindo uma função central na Força Naval. Não se trata apenas de operar uma aeronave veterana: a Marinha procura manter conhecimento operacional, treinamento de pilotos, doutrina de emprego, integração aeronaval e a capacidade de formar novas gerações de aviadores navais.

Esse ponto é estrategicamente decisivo. Porque doutrina aeronaval não se recompõe rapidamente quando é perdida.

Operar caça embarcado exige décadas de amadurecimento: formação de pilotos, integração entre meios navais e aéreos, construção de uma cultura operacional própria e manutenção contínua de capacidades altamente complexas. Se esse ciclo é interrompido por muito tempo, recuperar plenamente o que foi perdido tende a ser demorado, caro e operacionalmente difícil.

O desafio é que a Marinha do Brasil ainda não tem, pelo menos no horizonte, uma definição concreta sobre qual caminho seguirá para substituir os AF-1 - ou, de forma mais ampla, como pretende preservar a aviação de caça naval brasileira.

Depois da desativação do NAe São Paulo, a Força Naval passou a operar sem uma plataforma convencional para o emprego de asa fixa embarcada, enquanto diferentes análises e estudos seguem em debate sobre alternativas para uma retomada parcial ou gradual dessa capacidade.

É nesse contexto que algumas opções começam a aparecer como particularmente interessantes.

Uma delas é o TAI Hürjet, desenvolvido pela Turkish Aerospace Industries. A aeronave já voa na versão de treinamento avançado e foi escolhida pela Espanha para substituir os veteranos F-5M do Ejército del Aire y del Espacio, superando outras soluções europeias no processo.

Em paralelo, a indústria turca também avança em uma variante navalizada da plataforma, pensada para futuras operações embarcadas tanto na Marinha Turca quanto na Armada Espanhola.

Isso torna o Hürjet especialmente relevante para uma eventual avaliação de longo prazo da Marinha do Brasil, justamente por manter atributos diretamente associados à aviação naval de caça. Além do desempenho supersônico, arquitetura moderna, capacidade multimissão e ampla integração digital, o Hürjet poderia representar uma alternativa relativamente atual para preservar a doutrina aeronaval brasileira, apoiar o treinamento avançado de pilotos de caça e manter capacidades hoje concentradas no VF-1 Falcão.

Outra plataforma que aparece com frequência em análises internacionais é o Leonardo M-346, da Leonardo. Embora não tenha nascido como aeronave embarcada, o M-346 reúne características bastante úteis para sustentar doutrina de aviação de caça, treinamento avançado, ataque leve e a formação operacional de pilotos militares.

O modelo italiano já serve em várias forças aéreas pelo mundo como plataforma avançada de Lead-In Fighter Training (LIFT), preparando pilotos para aeronaves de quarta e quinta geração. No cenário brasileiro, uma solução desse tipo poderia preservar uma parcela importante da cultura operacional, do treinamento avançado e da doutrina de emprego da aviação de caça naval, mesmo sem que se restabeleça de imediato uma capacidade plena de operações embarcadas de asa fixa.

Mas talvez o ponto mais interessante desse debate esteja na transformação acelerada pela qual a guerra naval vem passando.

Durante a LAAD Security & Milipol Brazil 2026, o Zona Militar acompanhou a assinatura do memorando de entendimento entre as Marinhas do Brasil e de Portugal para ampliar a cooperação em áreas estratégicas, incluindo intercâmbio de informações, experiências operacionais e análise conjunta de programas considerados de interesse comum.

Entre os assuntos discutidos esteve o conceito do futuro navio porta-drones português, um programa já em desenvolvimento e que vem despertando interesse crescente dentro da própria Marinha do Brasil.

O interesse brasileiro nesse tipo de plataforma não é casual.

O projeto português figura entre as primeiras iniciativas ocidentais voltadas a um navio concebido desde a origem para operar em larga escala sistemas não tripulados: drones embarcados, aeronaves remotamente pilotadas e meios autônomos navais e aéreos. É um conceito que conversa diretamente com as mudanças do ambiente operacional atual, no qual guerra em rede, vigilância persistente, sensores distribuídos e sistemas não tripulados assumem um papel cada vez mais central nas operações marítimas modernas.

Para a realidade brasileira, algo semelhante - adaptado às necessidades da Marinha do Brasil - pode representar uma alternativa operacional e financeiramente mais viável do que a retomada imediata de um grande porta-aviões convencional com catapultas.

Mais do que copiar o modelo português, há também a leitura de que uma futura plataforma híbrida poderia ser ainda mais vantajosa do ponto de vista estratégico.

Nesse arranjo, a Marinha do Brasil poderia, no futuro, buscar um navio capaz de operar ao mesmo tempo aeronaves de asa fixa tripuladas e não tripuladas, preservando a doutrina clássica da aviação naval de caça enquanto evolui de forma gradual para o emprego de sistemas remotamente pilotados embarcados.

Esse conceito acompanha de perto o que vem sendo observado nas principais marinhas do mundo.

A evolução de UCAVs navais, drones de combate embarcados e aeronaves remotamente pilotadas de alta performance tende a alterar profundamente como as operações aeronavais poderão ser conduzidas nas próximas décadas. Plataformas híbridas entregam mais flexibilidade, reduzem custos operacionais quando comparadas a grandes porta-aviões CATOBAR tradicionais e permitem uma transição doutrinária mais progressiva para o ambiente de combate naval do século XXI.

Nesse cenário, sistemas como o Bayraktar Kızılelma ganham relevância estratégica. Desenvolvido pela Baykar, o Kızılelma foi pensado para operar embarcado a partir de navios-aeródromo e plataformas anfíbias, reunindo alta autonomia, baixa assinatura radar, capacidade de combate ar-ar e ar-superfície, operação em rede e potencial de emprego em ambientes de alta contestação.

Uma futura combinação entre uma aeronave tripulada como o Hürjet navalizado e plataformas não tripuladas como o Kızılelma criaria um conceito bastante interessante para manter a aviação naval brasileira viva dentro de uma realidade orçamentária mais compatível com os desafios atuais da Marinha do Brasil.

Além de manter ativa a doutrina de aviação embarcada, o treinamento de pilotos navais e a integração aeronaval com a Esquadra, uma estrutura híbrida desse tipo permitiria que a Força Naval iniciasse, passo a passo, a transição para um ambiente de combate marítimo cada vez mais marcado por drones, guerra em rede, sensores distribuídos e sistemas remotamente pilotados.

Porque, no fim, o debate sobre o sucessor do Skyhawk vai muito além de trocar uma aeronave antiga por outra mais nova. Ele diz respeito à própria sobrevivência da aviação de caça naval brasileira nas próximas décadas - e à capacidade da Marinha do Brasil de se ajustar a uma realidade operacional que já começa a redefinir o futuro da guerra aeronaval no século XXI.

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