Platelmintos são famosos em aulas e laboratórios de biologia por uma habilidade quase inacreditável: se você decepá-los, eles conseguem refazer a cabeça. Agora, cientistas identificaram que um defeito curioso no desenvolvimento pode levar esses animais a formarem cabeças nas duas extremidades - e a história fica ainda mais estranha.
Regeneração e controle do que vira cabeça ou cauda
A capacidade regenerativa de algumas espécies de platelmintos parece desafiar a lógica. Ao partir o animal ao meio, o resultado pode ser dois indivíduos completos, porque cada fragmento reconstrói uma cabeça, uma cauda e tudo o que estiver faltando. Em miniatura, eles lembram as Hidras da mitologia.
Trabalhos anteriores já tinham mostrado que uma corrente elétrica é capaz de influenciar se o tecido em regeneração, em determinado ponto, vai se organizar como cabeça ou como cauda. Com esse tipo de controle, pesquisadores conseguiram produzir platelmintos com duas cabeças - ou com duas caudas.
Ou com sabe-se lá quantas cabeças essa pobre monstruosidade acabou ficando.
Duas cabeças que surgem naturalmente em Stenostomum brevipharyngium
Desta vez, os cientistas observaram que a condição de duas cabeças também pode aparecer espontaneamente. E, quando esses animais foram cortados em pedaços, pareceu que o eixo do corpo deles se torcia.
A descoberta foi feita pelos zoólogos Katarzyna Tratkiewicz e Ludwik Gąsiorowski, da Universidade de Varsóvia, ao estudarem Stenostomum brevipharyngium, um platelminto que se reproduz de forma assexuada ao formar um clone a partir do próprio corpo.
Em geral, esse processo começa com o brotamento de uma nova cabeça na região central do organismo “pai”, seguido pelo restante do corpo do novo indivíduo em formação. Porém, em alguns casos, em vez de surgir uma cauda na extremidade, os pesquisadores notaram que aparecia outra cabeça.
Quando o eixo corporal “vira” e mesmo assim funciona
O achado mais marcante veio quando os pesquisadores seccionaram os mutantes com duas cabeças: em cada pedaço, ambas as cabeças conseguiram regenerar uma cauda do outro lado, com órgãos reprodutivos plenamente funcionais. Isso significa que, em parte dos descendentes, cabeça e cauda acabaram, na prática, trocando de lugar em relação ao eixo corporal original.
"Efetivamente, tal regeneração permite a reversão estável da polaridade do eixo corporal sem prejuízo da sobrevivência ou das capacidades reprodutivas do animal", escrevem os autores no artigo.
Como consequência, uma parcela considerável das células na região intermediária desse platelminto “invertido” passou a ter uma orientação de eixo diferente da observada nas células das extremidades.
Seria de esperar que isso causasse uma enorme confusão no sistema nervoso - para não falar no resto. Ainda assim, de algum modo, essas criaturas conseguem operar desse jeito. Talvez ajude o fato de que elas se alimentam e eliminam resíduos pela mesma abertura do sistema digestório.
Análises adicionais mostraram que o platelminto com orientação invertida se reproduziu normalmente, o que indica que o erro de duas cabeças não era uma mutação hereditária.
Os pesquisadores suspeitam que a capacidade desses animais de renovar continuamente seus tecidos - com células adultas que mantêm características de células-tronco e conseguem se dividir para originar qualquer tipo de célula do corpo (pluripotentes) - seja o que permite sobreviver a uma mudança tão radical na orientação corporal.
"O fato de os vermes terem conseguido retomar a fisiologia normal, apesar da reversão desses sistemas de órgãos vitais em relação às suas cabeças, aponta para uma extrema flexibilidade fisiológica do seu plano corporal", explicam Tratkiewicz e Gąsiorowski.
"Essa flexibilidade pode estar relacionada tanto à relativa simplicidade de seus órgãos quanto à capacidade de remodelar dinamicamente os tecidos, graças à presença de células-tronco pluripotentes."
A pesquisa foi publicada na revista Anais da Royal Society B: Ciências Biológicas.
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