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O Sarcófago de Blenheim: o vaso de tulipas do Palácio de Blenheim era romano

Dois homens trabalham em um vaso antigo com esculturas clássicas em jardim histórico ensolarado.

Passear por uma loja de jardinagem costuma revelar objetos decorativos que remetem ao mundo clássico.

Estátuas de concreto inspiradas na Vênus de Milo, vasos de terracota que imitam ânforas gregas e canteiros de ervas com acabamento em estilo de baixo-relevo de 2.000 anos atrás: tudo isso é escolha comum para quem busca um paisagismo de gosto mais refinado.

Um “clássico” de jardim que não era fantasia

Em um jardim específico, porém, a ideia de ter algo realmente antigo acabou deixando de ser apenas uma referência estética.

Nos terrenos do Palácio de Blenheim, na Inglaterra - construído no século XVIII -, uma tina com frente de mármore, usada como vaso para tulipas, revelou ser muito mais antiga do que qualquer olhar rápido sugeria.

Em 2017, conservadores e funcionários do palácio divulgaram que aquela fachada de mármore era, na verdade, parte de um autêntico sarcófago romano antigo, datado de cerca do século III d.C.

O painel esculpido em mármore passou quase dois séculos cumprindo funções prosaicas no jardim, primeiro como elemento de fonte e depois como floreira. Ainda assim, apesar do uso cotidiano, ele já integrou um caixão de pedra elaborado, feito para um romano rico no auge do Império.

Restauração do Sarcófago de Blenheim e a retirada do jardim

Hoje, a peça foi restaurada com cuidado e passou a ser exibida em ambiente interno.

"A peça está, na verdade, em condição notável, considerando que resistiu a ambientes aparentemente agressivos, em especial o de um reservatório de fonte", afirmou o conservador Nicholas Banfield, da Cliveden Conservation, responsável por coordenar a restauração.

"Depois de uma inspeção inicial no local, conseguimos desparafusá-la da cisterna de chumbo à qual estava presa e levá-la às nossas oficinas para limpeza completa, reparo e estabilização."

A história parece o típico caso de um objeto raro e pouco conhecido que, por fim, recebe o reconhecimento merecido - mas, no caso deste artefato, a situação é bem mais esquisita.

Um objeto conhecido, descrito e mesmo assim ignorado

O Sarcófago de Blenheim, como passou a ser chamado, não era nem desconhecido nem obscuro.

A classicista Zahra Newby, da Universidade de Warwick, no Reino Unido, abordou o artefato em um capítulo de livro sobre retratos em sarcófagos romanos.

O baixo-relevo mostra Dionísio embriagado em celebração com Hércules e Ariadne, ladeado por cabeças de leão.

"Um exemplo em Blenheim mostra o Dionísio embriagado em pé no centro do sarcófago…", escreveu ela.

Na realidade, menções ao sarcófago se estendem por séculos.

A cena foi desenhada pelo artista italiano Battista Franco Veneziano antes de 1530; esse esboço hoje está no Museu Städel, na Alemanha.

O Museu Metropolitano de Arte, nos Estados Unidos, também guarda um desenho do sarcófago do século XVI, atribuído a um artista desconhecido.

Em 1882, a peça foi registrada no livro Mármores Antigos na Grã-Bretanha, de Adolf Michaelis.

Em 2010, um visitante anônimo publicou uma foto do objeto nos jardins de Blenheim no TripAdvisor com a legenda: "um canteiro de flores que parece um sarcófago romano do tipo lenos". Um sarcófago lenos é aquele com formato de banheira.

Tudo indica que ele esteve “escondido à vista de todos” - mas, segundo reportagens de 2017, o Palácio de Blenheim não conhecia sua procedência até que um especialista em antiguidades, em visita por outros motivos em 2016, sugeriu que a equipe investigasse.

O painel de mármore - a única parte sobrevivente do sarcófago - havia sido fixado a uma tina para virar elemento ornamental do jardim. Depois de removido, media cerca de 2 metros de comprimento e pesava quase 400 quilogramas (aprox. 0,88 tonelada).

Especialistas teriam estimado seu valor em £300,000 (US$400,000 nas taxas de câmbio da época em que o texto foi escrito).

Por que ninguém percebeu por tanto tempo?

Como algo assim passou despercebido por tanto tempo, mesmo com tantos visitantes circulando com frequência por ali?

É provável que muita gente tenha tomado a peça por uma reprodução - como tantas que aparecem em jardins e propriedades.

Mas, para muitos, segundo o historiador e arqueólogo da Antiguidade Christopher Dickenson, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, a suposição deve ter sido outra: a de que a equipe de Blenheim já sabia muito bem o que tinha em mãos.

"A verdade só pode ser que todo mundo que o viu e o reconheceu simplesmente presumiu que as pessoas em Blenheim tinham plena consciência do que era", escreveu Dickenson. "Essa certamente foi a minha suposição."

Agora, quem visita Blenheim pode ver o artefato em um contexto mais apropriado e entendê-lo pelo que realmente é: um vestígio de antigas tradições funerárias que atravessou séculos - não um recipiente para tulipas.

"Agora que está em um clima interno consistente, longe das intempéries, esperamos que permaneça em boas condições e sobreviva por muitos séculos ainda", disse Kate Ballenger, gerente da casa do Palácio de Blenheim.

E uma grande incógnita segue sem resposta.

Sabe-se apenas que o objeto foi parar nas mãos do 5º Duque de Marlborough, então proprietário do palácio, em algum momento do século XIX.

Como - e quando - ele o adquiriu talvez jamais seja descoberto.


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