Quando aquele vestido ou camisa de que você gosta muito sai da lavagem menor do que entrou, a frustração é grande - ainda mais quando você seguiu as instruções à risca. O problema é que alguns tecidos parecem encolher com mais facilidade do que outros. Mas qual é o motivo?
Entender a ciência por trás das fibras têxteis ajuda tanto a reduzir o risco de encolhimento quanto, em alguns casos, a “salvar” uma peça depois de um acidente na lavanderia.
Tudo começa nas fibras
Para compreender por que as roupas encolhem, vale olhar primeiro para a forma como os têxteis são produzidos.
Fibras têxteis comuns, como algodão e linho, têm origem vegetal. Na natureza, elas não são perfeitamente regulares: são onduladas e irregulares. Se você observar em escala ainda menor, encontrará milhões de moléculas de celulose em cadeias longas, que tendem a existir enroladas ou em formatos tortuosos.
Na fabricação do tecido, essas fibras passam por etapas mecânicas em que são puxadas, alongadas e torcidas, com o objetivo de endireitar e alinhar as cadeias de celulose. Assim surgem fios mais lisos e compridos.
Em nível químico, existem ligações entre essas cadeias chamadas ligações de hidrogénio. Elas dão mais resistência à fibra e ao fio, além de aumentar a coesão do conjunto.
Depois, os fios são tecidos (em trama) ou tricotados (em malha) para formar o tecido - e esse processo “prende” a tensão que mantém as fibras lado a lado.
Só que essas fibras têm uma boa “memória”. Sempre que entram em contacto com calor, humidade ou ação mecânica (como a agitação dentro da máquina de lavar), elas tendem a relaxar e a voltar ao estado original, mais ondulado.
Essa memória das fibras explica por que alguns tecidos amassam com facilidade e por que certas peças podem até encolher depois da lavagem.
Como a lavagem faz o tecido encolher?
Para entender o encolhimento, é preciso descer outra vez ao nível molecular. Durante a lavagem, a água quente aumenta a energia das fibras - em outras palavras, elas vibram mais rapidamente, o que perturba as ligações de hidrogénio que as mantêm organizadas.
A própria construção do tecido também influencia. Malhas mais soltas têm mais espaços e laçadas, o que facilita a contração e torna o encolhimento mais provável. Já tecidos bem fechados e firmemente tramados tendem a resistir melhor, porque os fios ficam mais “travados”, com menos margem para se deslocar.
Além disso, a celulose é hidrofílica, ou seja, atrai água. As moléculas de água entram nas fibras, provocando inchaço e aumentando a flexibilidade e a mobilidade do material. A isso se soma o movimento de tombamento e torção dentro da máquina.
No conjunto, esses fatores fazem as fibras relaxarem e recuarem para um estado natural menos esticado e mais enrugado. O resultado visível é a peça encolhida.
Não é só a água quente - eis o motivo
Esse efeito não acontece apenas com água quente, como muita gente percebe em roupas de viscose, por exemplo.
Mesmo em água fria, a água ainda consegue penetrar nas fibras e fazê-las inchar, e a agitação mecânica do ciclo também contribui. A diferença é que, com água fria, o efeito costuma ser menos intenso - mas ainda assim pode ocorrer.
Para reduzir o risco de encolhimento, pode ajudar lavar com água fria, escolher a menor velocidade de centrifugação e/ou usar o ciclo mais suave disponível, especialmente em algodão e viscose. As etiquetas nem sempre deixam claro o impacto da centrifugação e da agitação; quando houver dúvida, a opção “delicado” costuma ser a mais segura.
E a lã?
Fibras diferentes encolhem de maneiras diferentes; não existe um único mecanismo que explique tudo.
Enquanto tecidos à base de celulose encolhem como descrito acima, a lã é uma fibra de origem animal composta por proteínas de queratina. A sua superfície é revestida por pequenas escamas sobrepostas, chamadas células da cutícula.
Durante a lavagem, essas cutículas podem se abrir e se prender a fibras próximas, provocando o emaranhamento das fibras, conhecido como “feltragem”. Com isso, a peça fica mais densa e aparenta menor - isto é, encolhe.
Por que os sintéticos encolhem menos?
Fibras sintéticas como poliéster ou nylon são produzidas a partir de polímeros derivados do petróleo e são projetadas para oferecer estabilidade e durabilidade.
Esses polímeros costumam ter mais regiões cristalinas, altamente organizadas, que funcionam como um “esqueleto” interno e reduzem a tendência de a fibra se deformar e ficar ondulada.
Alguns pesquisadores trabalham com polímeros de memória de forma, capazes de mudar de formato - ou voltar a um formato anterior - em resposta, por exemplo, à temperatura ou à água.
Isso não é a mesma coisa que os tecidos elásticos (como os usados em roupas desportivas), feitos com fibras muito elásticas que “voltam” ao estado original depois de serem esticadas.
Como desencolher uma peça de roupa?
Se uma peça de que você gosta encolheu na lavagem, dá para tentar recuperá-la com um procedimento simples.
Deixe o item de molho, com cuidado, em água morna misturada com condicionador de cabelo ou champô para bebé (aproximadamente uma colher de sopa por litro). Depois, estique o tecido delicadamente até voltar ao formato e seque na horizontal ou sob uma leve tensão - por exemplo, prendendo a peça num varal de chão com prendedores.
Isso funciona porque condicionadores contêm substâncias chamadas tensoativos catiônicos. Elas lubrificam temporariamente as fibras, deixando-as mais maleáveis e permitindo puxar o tecido aos poucos para recolocá-lo no lugar.
O método não reverte completamente um encolhimento extremo, mas pode devolver parte do tamanho perdido e tornar a roupa usável novamente.
Nisa Salim, Diretora, Laboratório Nacional Swinburne-CSIRO de Testes para Fabricação Aditiva de Compósitos, Universidade de Tecnologia de Swinburne
Este artigo foi republicado do site A Conversa sob uma licença CC. Leia o artigo original.
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