Antes de colocar no papel qualquer coisa sobre o fantástico, incomparável e inigualável Citroën AX GTI, preciso deixar uma coisa clara: esta não vai ser uma análise isenta. Acho que isso já estava bem óbvio, né?
E não é por falta de vontade de ser neutro - é porque este modelo significa muito para mim: foi o meu primeiro carro. E, como todo mundo sabe, o primeiro carro fica guardado no coração. É nele que muita gente faz um pouco de tudo pela primeira vez… e, às vezes, até um pouco além da conta. Mas este texto é sobre o Citroën AX, não sobre as minhas lembranças. Embora, se vocês quiserem, eu também consiga ir por esse caminho.
Dinâmica e temperamento do Citroën AX GTI/GT
Voltando ao Citroën AX: fosse em versão GTI ou GT, os dois tinham o seu charme. O carrinho ganhou fama de ser rápido (muito rápido…), mas também de ter uma traseira exigente. Os menos cuidadosos chamavam isso de “falsidade”. Um “defeito” que, na prática, era só uma virtude mal interpretada.
O Citroën AX GTI - e principalmente o GT - girava sobre o eixo traseiro como poucos. No fundo, era aquela tendência deliciosa de fazer a traseira escorregar quando você entrava na curva exagerando na carga da frente, entregando momentos bem quentes para quem tivesse coragem de provocar. Um temperamento que só encontra paralelo em alguns esportivos de tração dianteira bem mais recentes.
A traseira trabalhava junto com a dianteira para desenhar, num instante quase poético, a curva ideal - temperada com cheiro de pneu queimado, forças G e diversão como item obrigatório do cardápio. E, diga-se de passagem, era um prato que vinha sempre muito bem servido.
Em estrada de serra, dava para sentir com nitidez que o Citroën AX GT/GTI estava no habitat dele. Só que, como é óbvio, nem sempre tudo sai como a gente planeja. De fato, no limite dos limites as coisas ficavam complicadas.
Apesar de compartilhar, no essencial, a mesma base dinâmica do Peugeot 106 GTI (que só seria lançado vários anos depois), o Citroën AX GTI tinha uma distância entre-eixos menor do que a desse “irmão” ocasional. O que era uma vantagem em trechos mais travados e cheios de curvas, virava desvantagem em curvas rápidas, com menos apoio.
Aí, sim, dava para notar que a estabilidade “atrevida” do pequeno francês cedia espaço para um comportamento nervoso demais. Mas, como eu disse antes, quanto mais enrolada fosse a estrada, mais o francês parecia gostar.
Bem equipado e confiável
Para os padrões da época, o pacote de equipamentos era bem completo. Na versão GTI Exclusive, por exemplo, já dava para contar com respeitáveis bancos de couro, com parte das portas revestida, além dos belíssimos assentos que vinham nesse modelo.
Esse toque de luxo, porém, dividia espaço com escolhas bem mais voltadas à economia do que à sofisticação. Um exemplo: a tampa do porta-malas, em vez de ser de chapa, era simplesmente uma peça de fibra “presa” ao vidro traseiro. Até hoje eu prefiro me convencer de que aquilo era só uma forma de reduzir peso e, assim, melhorar o carro - e não uma decisão para cortar custos. No fundo, eu sei que não era bem assim…
A verdade é que a qualidade de construção não era o ponto forte do Citroën AX. Ainda assim, isso não chegava a comprometer, e não se falava em grandes problemas de confiabilidade no francês. Muito pelo contrário… era carro para toda obra.
Peso-pena
Essa durabilidade vinha muito da simplicidade de todo o conjunto - e isso aparecia diretamente na balança: apenas 795 kg no GTI, e impressionantes 715 kg no GT. Uma diferença tão grande que fazia o GT, mesmo menos potente, acompanhar o GTI na arrancada de 0 a 100 km/h.
Motor e desempenho do Citroën AX GTI/GT
O Citroën AX GTI trazia um excelente quatro-cilindros em linha de 1360 cm3 com 100 cv a 6600 rpm (95 cv depois da adoção do catalisador). Já a opção mais “simples” da linha, o GT, usava uma versão mais “modesta” do mesmo motor, com carburadores duplos, entregando bons 85 cv - que depois cairiam para 75 cv com a chegada da injeção eletrônica.
Uma relação peso-potência perfeita para os mais apressadinhos, que empurrava o pequeno francês até bem perto dos 200 km/h.
Controle de tração, controle de estabilidade e afins eram, como vocês sabem, coisa de filme de ficção científica. Era uma de duas: ou a gente estava à altura do recado, ou então era melhor passar a pasta para outra pessoa. Em outras palavras… soltar o volante.
E assim era o pequeno AX GTI/GT: compacto, divertido e leal companheiro de estradas sinuosas - e de outros tipos de excessos.
Era uma escola de direção como poucas, com uma ligação real entre homem e máquina, em que todas as peças do quebra-cabeça pareciam trabalhar em uníssono (às vezes…). O motor era sentido ali na frente, talvez pela insonorização ruim do interior, ou talvez só para agradar quem tem ouvidos mais temperamentais.
De qualquer forma, nada se compara ao primeiro amor, não é verdade?
Sobre o “Glórias do Passado.”: é a seção da Razão Automóvel dedicada a modelos e versões que, de alguma forma, se destacaram. A gente gosta de relembrar as máquinas que um dia nos fizeram sonhar. Embarque com a gente nesta viagem no tempo aqui na Razão Automóvel.
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