Quando a Argentina tirou de cena seus A-4AR Fightinghawk, um detalhe curioso ganhou peso estratégico: a Marinha do Brasil passou a ser a última força militar do planeta ainda operando o Douglas A-4 Skyhawk em serviço ativo. É um feito simbólico e histórico, mas que também escancara um desafio que fica mais difícil de contornar a cada ano dentro da Aviação Naval brasileira.
Os caça-bombardeiros AF-1 Skyhawk (A-4KU) do 1⁰ Esquadrão de Aeronaves de Interceptação e Ataque (EsqdVF-1) Falcão se aproximam, de forma gradual, do limite da vida útil. Mesmo com o relevante programa de modernização realizado nos últimos anos, a frota convive com restrições crescentes de disponibilidade e entraves logísticos para manter as aeronaves em operação - sobretudo pela idade avançada da plataforma e pela sustentação cada vez mais complexa da cadeia de suprimentos.
Um dos gargalos mais sensíveis hoje na Aviação Naval brasileira está ligado à disponibilidade dos motores turbojato Pratt & Whitney J52, um projeto da era da Guerra Fria cuja logística global encolheu progressivamente nas últimas décadas. Conseguir componentes de reposição, peças críticas e suporte especializado virou um desafio cada vez mais intrincado, exigindo alto esforço logístico, técnico e financeiro para manter a pequena frota remanescente voando e preservar, ao menos, a capacidade do VF-1 de sustentar a doutrina de aviação de caça embarcada da Marinha do Brasil.
Ainda assim, mesmo com limitações cada vez mais evidentes, os AF-1 seguem cumprindo um papel muito relevante dentro da Força Naval. Mais do que operar uma aeronave veterana, a Marinha procura manter vivo o conhecimento operacional, o treinamento de pilotos, a doutrina de emprego, a integração aeronaval e a capacidade de formar novas gerações de aviadores navais.
Esse ponto é de enorme peso estratégico. Pois, doutrina aeronaval não se reconstrói rapidamente após ser perdida.
Operar caças embarcados exige décadas de amadurecimento: desenvolvimento operacional, formação de pilotos, integração entre meios navais e aéreos, construção de uma cultura específica e manutenção contínua de capacidades altamente complexas. Se esse ciclo for interrompido por longos períodos, recuperar plenamente esse patrimônio tende a ser demorado, caro e operacionalmente difícil.
O problema é que a Marinha do Brasil ainda não tem, ao menos no horizonte, uma definição clara sobre qual caminho seguirá para substituir os AF-1 - ou mesmo como preservar, de forma mais ampla, a aviação de caça naval brasileira.
Com a desativação do NAe São Paulo, a Força Naval passou a operar sem uma plataforma convencional para a asa fixa embarcada, enquanto diferentes análises e estudos seguem em debate sobre alternativas para uma retomada parcial ou gradual dessa capacidade.
E é justamente nesse contexto que algumas opções começam a aparecer como particularmente relevantes.
Uma delas é o TAI Hürjet, da Turkish Aerospace Industries. A aeronave já voa na versão de treinamento avançado e foi escolhida pela Espanha para substituir os veteranos F-5M do Ejército del Aire y del Espacio, superando outras propostas europeias no processo seletivo.
Ao mesmo tempo, a indústria turca avança no desenvolvimento de uma versão navalizada da plataforma, pensada para futuras operações embarcadas tanto na Marinha Turca quanto na Armada Espanhola.
Esse detalhe torna o Hürjet especialmente atraente em uma análise de longo prazo para a Marinha do Brasil, por manter atributos diretamente ligados à aviação naval de caça. Além do desempenho supersônico, da arquitetura moderna, da capacidade multimissão e de ampla integração digital, o Hürjet poderia representar uma solução relativamente atual para preservar a doutrina aeronaval brasileira, apoiar o treinamento avançado de pilotos de caça e manter capacidades hoje concentradas no VF-1 Falcão.
Outra plataforma que aparece com frequência em análises internacionais é o Leonardo M-346, desenvolvido pela Leonardo. Embora não tenha sido pensado, desde o início, como uma aeronave naval embarcada, o M-346 reúne características muito interessantes para sustentar doutrina de aviação de caça, treinamento avançado, ataque leve e a formação operacional de pilotos militares.
O jato italiano já opera em várias forças aéreas pelo mundo como uma plataforma avançada de Lead-In Fighter Training (LIFT), preparando pilotos para aeronaves de quarta e quinta geração. No cenário brasileiro, uma solução desse tipo poderia preservar uma parte importante da cultura operacional, do treinamento avançado e da doutrina de emprego da aviação de caça naval, mesmo sem restabelecer de imediato uma capacidade plena de operações embarcadas de asa fixa.
Mas talvez o ponto mais instigante dessa discussão esteja na transformação profunda que a guerra naval atravessa hoje.
Durante a LAAD Security & Milipol Brazil 2026, o Zona Militar acompanhou a assinatura do memorando de entendimento entre as Marinhas do Brasil e de Portugal voltado à ampliação da cooperação em diferentes áreas estratégicas, incluindo intercâmbio de informações, experiências operacionais e análise conjunta de programas considerados de interesse mútuo.
Entre os temas abordados nas conversas esteve justamente o conceito do futuro navio porta-drones português, programa já em desenvolvimento e que vem despertando interesse crescente dentro da própria Marinha do Brasil.
O interesse brasileiro nesse tipo de plataforma não é casual.
O projeto português é uma das primeiras iniciativas ocidentais voltadas à construção de um navio desenhado, desde a origem, para operar em massa sistemas não tripulados - drones embarcados, aeronaves remotamente pilotadas e meios autônomos navais e aéreos. É um conceito alinhado às transformações do ambiente operacional contemporâneo, em que guerra em rede, vigilância persistente, sensores distribuídos e sistemas não tripulados assumem um papel cada vez mais central nas operações marítimas modernas.
Na realidade brasileira, uma solução similar - adaptada às necessidades da Marinha do Brasil - poderia ser uma alternativa operacional e financeiramente mais viável do que retomar imediatamente um grande porta-aviões convencional com catapultas.
Mais do que simplesmente copiar o conceito português, também existe a percepção de que uma futura plataforma híbrida poderia ser ainda mais interessante do ponto de vista estratégico.
Nesse arranjo, a Marinha do Brasil poderia, no futuro, buscar uma plataforma capaz de operar ao mesmo tempo aeronaves de asa fixa tripuladas e não tripuladas, mantendo a doutrina clássica da aviação naval de caça enquanto evolui, de forma gradual, para o emprego de sistemas remotamente pilotados embarcados.
Esse conceito segue diretamente a linha das mudanças vistas nas principais marinhas do mundo.
A evolução acelerada de UCAVs navais, drones de combate embarcados e aeronaves remotamente pilotadas de alta performance começa a alterar profundamente como as futuras operações aeronavais poderão ser conduzidas nas próximas décadas. Plataformas híbridas entregam maior flexibilidade operacional, custo de operação menor quando comparadas a grandes porta-aviões CATOBAR tradicionais e permitem uma transição doutrinária mais progressiva para o ambiente de combate naval do século XXI.
Dentro desse cenário, sistemas como o Bayraktar Kızılelma ganham grande relevância estratégica. Desenvolvido pela Baykar, o Kızılelma foi concebido justamente para operar embarcado a partir de navios-aeródromo e plataformas anfíbias, combinando alta autonomia, baixa assinatura radar, capacidade de combate ar-ar e ar-superfície, operação em rede e potencial de atuar em ambientes de alta contestação.
Uma eventual combinação, no futuro, entre uma aeronave tripulada como o Hürjet navalizado e plataformas não tripuladas como o Kızılelma criaria um conceito muito interessante para preservar a aviação naval brasileira dentro de uma realidade orçamentária mais compatível com os desafios atuais da Marinha do Brasil.
Além de manter viva a doutrina de aviação embarcada, o treinamento de pilotos navais e a integração aeronaval com a Esquadra, uma estrutura híbrida desse tipo permitiria à Força Naval iniciar, de forma gradual, a transição para o futuro ambiente de combate marítimo dominado por drones, guerra em rede, sensores distribuídos e sistemas remotamente pilotados.
Porque, no fim, a discussão sobre o sucessor do Skyhawk vai muito além de trocar uma aeronave veterana. Ela envolve a própria sobrevivência da aviação de caça naval brasileira nas próximas décadas e a capacidade da Marinha do Brasil de se adaptar a uma nova realidade operacional que já começa a redefinir, de maneira profunda, o futuro da guerra aeronaval no século XXI.
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