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A história do Ford Fiesta: completa, de 1976 a 2023

Carro hatchback azul Ford Fiesta 2023 exibido em showroom com piso refletivo.

O início

Crises costumam virar gatilho para boas ideias - e o Ford Fiesta nasceu exatamente nesse contexto. Apresentado em 1976, foi a resposta da Ford à crise do petróleo de 1973, num projeto conhecido internamente como Bobcat, iniciado pouco antes, em 1972, por pedido direto de Henry Ford II, então o grande chefe da marca.

Ele não foi o pioneiro entre os utilitários “tudo à frente” - esse espaço já era ocupado por Fiat 127, Renault 5 e Volkswagen Polo (que surgiu como Audi 50) -, mas teve um marco importante: foi o primeiro Ford a juntar tração dianteira com motor transversal dianteiro, configuração que, no essencial, segue sendo a mesma até hoje.

A origem do nome já foi contada - vale ler ou reler como o Fiesta ganhou o seu nome -, mas ainda há muito para explorar sobre o primeiro Fiesta.

As linhas base do Fiesta original foram assinadas pelo produtivo designer Tom Tjaarda e, embora não fosse um carro “revolucionário” no visual, chamava atenção pela simplicidade e pelo ar “fresco”, com proporções bem resolvidas e elementos bem integrados no conjunto.

Esse conservadorismo também apareceu na parte mecânica: os motores vinham do conhecido e veterano Kent, quatro cilindros em linha, aqui adaptado para posição transversal, o que justificou o uso do nome Valencia (referência a Valência, na Espanha, onde o Fiesta começou a ser produzido).

Chegou ao mercado com motores 1,0 l e 1,1 l, mas com o tempo a gama foi se alargando, incluindo as versões mais luxuosas Ghia e a desejada opção esportiva XR2.

O XR2 se destacava por detalhes como faróis duplos, rodas de liga leve, spoiler traseiro e os “obrigatórios” adesivos. Ainda assim, foi o Kent 1,6 l que colocou o modelo no mapa. Com 83 cv, empurrava os modestos 850 kg do Fiesta XR2 aos 100 km/h em 9,3 s e até 170 km/h de velocidade máxima.

No caminho - e antes de chegar à segunda geração, em 1983 - o pequeno Fiesta atravessou o Atlântico e foi vendido nos EUA como resposta a mais uma crise do petróleo, no fim dos anos 70. Por lá ficou de 1978 a 1980, mas não seria a última vez que apareceria em “terras do Tio Sam”.

Evolução da espécie

Um verdadeiro sucesso comercial, em 1983 o Ford Fiesta já encarava um número bem maior de rivais e concorrentes mais modernos e competentes - a Peugeot já tinha lançado o 205 e a Fiat estreava o Uno naquele mesmo ano.

Mas, na hora de apresentar uma nova geração, a Ford não recomeçou do zero como muitos rivais: optou por um restyling muito mais profundo do que o normal no Fiesta original.

A forma geral da carroceria quase não mudou, porém as extremidades foram redesenhadas, trazendo um ar mais atual e com maior foco aerodinâmico - muito influenciado pelo futurista (e até chocante) Sierra, lançado um ano antes, com linhas trabalhadas no túnel de vento -, e o interior representava um salto considerável.

Um capô mais alto permitiu ao Fiesta Mk2 adotar os motores CVH da Ford e ganhar o seu primeiro Diesel. Para completar, a segunda geração trouxe a primeira caixa manual de cinco marchas e até uma automática CVT (transmissão continuamente variável).

O Fiesta XR2 seguia em cena e continuava a alimentar sonhos. Passou a usar o 1.6 CVH do Escort XR3, fazendo a potência subir para 98 cv, e a caixa ganhou uma marcha a mais, ficando com cinco no total.

O Fiesta «chega» às famílias

A primeira grande “virada” do Ford Fiesta veio em 1989, com a terceira geração. Dessa vez, nada de restylings: a base era nova, o que permitiu crescer em todas as dimensões e, sobretudo, abrir espaço para a crucial variante de cinco portas, que praticamente todos os concorrentes já ofereciam.

Apesar de novo, os motores da geração anterior foram mantidos (embora atualizados), enquanto novos desenvolvimentos já estavam a caminho. Em 1992, o Ford Fiesta recebeu o seu primeiro motor multiválvulas, o Zeta de 16 válvulas (1,6 l e 1,8 l), que ficaria mais conhecido por outro nome: Zetec.

Mesmo assim, eram as versões esportivas que roubavam a cena. O XR2i trazia o “i” para denunciar o uso de injeção e ganhou companhia com o RS Turbo, lançado em 1990.

O motor seguia sendo o 1.6 CVH de oito válvulas, mas o turbo elevou a potência para 133 cv - e as críticas a esse rápido pocket rocket não foram exatamente gentis, com muitos apontando falhas no motor e no comportamento, longe das referências Peugeot 205 GTI e Renault 5 GT Turbo.

O “reinado” como Fiesta mais esportivo terminaria em 1992, substituído pelo XR2i 16v ou RS1800 (dependendo do mercado), que trazia o bem mais moderno Zeta 1.8 16v aspirado, com 130 cv.

Os últimos RS1800 receberam uma carroceria mais rígida e direção assistida - reduzindo as voltas de batente a batente de quatro para três -, resgatando em parte o desempenho do Fiesta mais esportivo e preparando o terreno para o que viria depois.

Bem mais do que um restyling

Lançada em 1996, a quarta geração do Ford Fiesta seguiu a “fórmula” usada na segunda, como uma evolução profunda do antecessor - embora, no fim, acabasse sendo uma revolução.

A carroceria foi reforçada, ganhou rigidez, e o estilo marcou um corte radical com o modelo anterior - apesar de manter a mesma seção lateral -, mas seria nesta geração que o nome “Fiesta” ficaria definitivamente associado a referência dinâmica da categoria.

Graças à intervenção de Richard Parry-Jones, engenheiro da Ford - que em 1998 acabaria assumindo o cargo de vice-presidente de desenvolvimento de produto -, o Fiesta passou a ter “boas maneiras” exemplares, tanto na condução quanto no comportamento.

O trabalho de Parry-Jones já tinha chamado atenção no Ford Mondeo de 1993, mas no Fiesta o impacto foi ainda mais notável, dado o ponto de partida - o lançamento do Focus em 1998 foi, talvez, a “joia da coroa” dos Ford desenvolvidos sob sua batuta.

O comportamento dinâmico do Fiesta foi elogiado de todas as formas e ganhou o complemento perfeito com a chegada do Zetec 16v 1,25 l, desenvolvido em parceria com a Yamaha - também existiriam versões 1,4 l e 1,6 l. Além disso, o Fiesta Mk4 oferecia ainda um 1,3 l Endura e o cada vez mais “obrigatório” Diesel, aqui com 1,8 l.

É até curioso que toda essa reputação dinâmica não tenha dado origem a um Fiesta esportivo - talvez para não competir com o Ford Puma lançado em 1997, que usava a mesma base.

Em 1999, um restyling aproximou (na medida do possível) o visual do Fiesta da então nova filosofia da Ford, o New Edge Design. Embora fosse apenas um restyling típico do Mk4, a Ford o anunciou como a quinta geração - o que alimentou, desde então, a confusão sobre quantas gerações existiram, com uns dizendo sete e outros oito.

O Ford Fiesta entra no século XXI

Novo século. E, com a virada para os anos 2000, o Ford Fiesta não demorou a receber uma (de fato) nova geração: a sexta, segundo a Ford. Lançado em 2002, estreava plataforma nova e voltava a crescer em todas as direções.

A mudança em relação ao antecessor era enorme, com um desenho mais conservador, assinado por Chris Bird, mas ainda com ligações à estética geométrica e rigorosa do New Edge Design - mais próximo do que os alemães (com exceção da BMW) vinham mostrando na época.

Inicialmente, só havia carroceria de cinco portas, mas não tardou a chegar a versão de três portas, com silhueta mais dinâmica. Foi justamente ela que teve a “honra” de recolocar as variantes esportivas no mapa.

Pela primeira vez o Fiesta recebeu a sigla ST e, sob o capô, trazia um 2,0 l aspirado de 150 cv. Apesar dos elogios, um certo Renault Clio R.S. dominava a categoria com um 2,0 l bem mais potente e um chassi impressionante, deixando na “sombra” outros pocket rockets como o Fiesta ST.

No restante, a quinta… ou sexta geração herdava do antecessor suas motorizações, incluindo o famoso 1.25 16v. Mas também houve novidades, como os novos Diesel 1.4 TDCI e 1.6 TDCI, fruto da joint venture com a PSA.

Em 2005, receberia uma renovação, e em 2008 o Ford Fiesta ganharia mais uma nova geração.

O Fiesta dos ralis

Até a chegada da sétima geração, o papel de “cavalo de guerra” da Ford nos ralis tinha ficado com os irmãos maiores Escort e Focus, mas agora seria a vez do Fiesta assumir esse bastão - para não mais o largar até hoje.

Um encaixe perfeito para o novo estilo, batizado de Kinetic Design, muito mais expressivo e dinâmico. E não foi só o design que mudou: se a plataforma era uma evolução da anterior - que também serviu de base a modelos tão diferentes como Ford B-Max, EcoSport, KA e Transit Courier -, foi nesta geração que o Fiesta estreou uma nova família de motores, os EcoBoost.

Um grande motor não se mede aos palmos - e isso descreve bem o pequeno três cilindros EcoBoost, com apenas 1,0 l e turbo. Uma joia da engenharia, colecionou prêmios atrás de prêmios, incluindo três International Engine of the Year consecutivos, e seis (também consecutivos) na categoria abaixo de 1,0 l.

Foi também nesta geração - mais precisamente em 2013 - que o Fiesta se firmou como uma das referências entre os hot hatch. Diferente do antecessor, o novo Fiesta ST não foi condenado ao anonimato.

Com motor EcoBoost de quatro cilindros 1,6 l, entregava 182 cv, número alinhado aos principais rivais - e chegaria a 200 cv no exclusivo ST200 -, mas foi o chassi que realmente o colocou no topo.

Esta geração também marcou o retorno do Fiesta aos EUA, com o utilitário voltando a ser vendido por lá em 2011, numa fase em que o mercado norte-americano parecia mais receptivo aos compactos - parecia, mas foi sol de pouca dura…

O último da espécie

Chegamos ao capítulo final de uma história iniciada lá em 1976. A verdade é que, quando o novo Ford Fiesta (oitava geração) foi revelado em 2017, nada indicava que seria o último.

Como já havia acontecido antes, o Fiesta atual, tecnicamente, não passa de uma evolução substancial do antecessor. Continua apoiado na plataforma Global B da Ford e, mesmo no visual, as ligações ao modelo anterior são mais do que evidentes.

O 1.0 EcoBoost ganhou ainda mais peso na gama - e foi eletrificado, com a chegada de versões mild-hybrid -, e o cobiçado Fiesta ST chegou aos 200 cv, mas com um novo motor que gerou conversa. Em vez de quatro cilindros, passou a ser um três cilindros de 1,5 l.

Também nesta geração as versões mais luxuosas mudaram de nome. Antes chamadas Ghia, passaram a ser Vignale, mantendo o mesmo princípio: oferecer mais equipamentos e um ambiente mais refinado e requintado ao pequeno Fiesta.

Outra novidade foi o Fiesta Active, a leitura crossover - ou de “calças arregaçadas” - do utilitário, criada para responder ao nosso apetite aparentemente sem fim por SUV e crossovers.

“Armado” com proteções plásticas, barras no teto e agora com 18 mm de distância ao solo, é o Fiesta mais aventureiro de todos e, considerando a frequência com que temos cruzado com o Active na estrada, parece ter sido uma aposta acertada da Ford…

…mas nem isso salvou o Fiesta.

Apesar de ter recebido recentemente um facelift, o “eterno” Fiesta afinal não era eterno. A Ford anunciou o fim da produção do seu utilitário para junho de 2023, encerrando uma trajetória de praticamente meio século e com mais de 22 milhões de unidades produzidas.

O Fiesta, que tradicionalmente era o carro mais vendido da Ford na Europa, cedeu espaço, mais recentemente, ao Puma (o SUV, não o coupé), um modelo mais desejável e… mais rentável. Aos poucos, o Fiesta foi perdendo um território que era seu - e agora fica sem lugar.

“Culpem” os SUV, a eletrificação galopante ou as margens baixas dos modelos menores. A fábrica de Colônia, na Alemanha, onde o Fiesta é produzido hoje, foi escolhida para fabricar dois novos crossovers 100% elétricos, posicionados um segmento acima do Fiesta, ou seja, no segmento do Focus - é a nova realidade…

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