Felizmente, o Homo sapiens só surgiu muitas dezenas de milhões de anos depois desses predadores assustadores. Se tivéssemos dividido o mesmo oceano, a convivência provavelmente teria terminado muito mal.
No século XVIII, marinheiros que juravam ter encontrado um Kraken talvez estivessem bêbados - ou, em alguns casos, apenas davam de cara, por acaso, com lulas gigantes que subiam à superfície. O monstro do folclore obviamente não existiu, mas a intuição por trás da história não era totalmente absurda: o mar já abrigou polvos capazes de engolir presas de tamanho considerável. Um estudo publicado em 23 de abril na revista Science, liderado pelo paleontólogo Shin Ikegami e colegas da Universidade de Hokkaido, acaba de recolocar esses animais no centro do debate.
Nanaimoteuthis no Cretáceo Superior: predadores dignos do Kraken
Afinal, que colossos eram esses? Tratava-se de duas espécies de octópodes gigantes, provavelmente próximas do topo da cadeia alimentar, que nadavam nos mares do Cretáceo Superior, entre 100 e 72 milhões de anos atrás. Seus nomes: Nanaimoteuthis jeletzkyi e Nanaimoteuthis haggarti - predadores que não deixariam nada a dever ao Kraken do folclore escandinavo.
Polvos gigantes com dimensões fora do padrão
Para a paleontologia, estudar octópodes extintos é um desafio enorme, porque quase todo o corpo deles é formado por tecidos moles. Assim, os cientistas acabam dependendo de raros componentes que escaparam ao desgaste do tempo. Na maioria das vezes, o que se preserva é o bico (sim, polvos têm bico), mais precisamente a mandíbula. Feita de quitina, um material rígido, essa estrutura permite que polvos e lulas cacem com eficiência, triturando as presas.
Foi com esse tipo de evidência que a equipe de Ikegami trabalhou, examinando 27 mandíbulas diferentes datadas do Cretáceo. Quinze já eram conhecidas e estavam guardadas em coleções de museus; outras doze eram inéditas e foram obtidas de blocos de rocha por meio de uma técnica chamada “escavação fóssil digital”.
Escavação fóssil digital e reconstrução 3D das mandíbulas
O procedimento é meticuloso: as amostras são desgastadas em camadas finíssimas, uma a uma, e cada etapa é fotografada. Depois, um algoritmo de IA analisa milhares de imagens para segmentá-las e separar a textura do fóssil da textura da rocha - inclusive quando ambas têm coloração semelhante. Ao isolar esses pixels, o programa “retira” virtualmente o bico do interior da rocha e entrega uma reconstrução em 3D (como mostrado no estudo).
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Tamanho estimado e comparação com lulas gigantes e Megalodon
Ao cruzar esses fósseis com mandíbulas de cerca de uma dúzia de espécies atuais de octópodes, os pesquisadores conseguiram extrapolar o tamanho provável desses animais extintos. N. haggarti, a maior das duas, teria alcançado entre 7 e 19 metros de comprimento - algo como a altura de um prédio de seis andares, se colocada na vertical. Até o “campeão” entre as lulas gigantes modernas (Architeuthis dux) pode chegar, no máximo, a 12 a 13 metros, embora a maioria dos indivíduos meça, na prática, entre 3 e 10 metros.
Com isso, N. haggarti poderia ter sido maior do que o Megalodon (que surgiu bem depois), o qual, segundo estimativas, teria atingido 13 a 18 metros. Os pesquisadores não conseguiram reconstituir o porte de *N. jeletzkyi, a segunda espécie, mas, como apontam os autores: “Esses polvos talvez representem os maiores invertebrados já descritos, rivalizando com os répteis marinhos gigantes de sua época*”.
Indícios de inteligência: desgaste assimétrico e lateralidade
Além da escala monumental, esses polvos provavelmente exibiam algum tipo de inteligência. Isso porque algumas das mandíbulas analisadas mostravam um desgaste mais forte de um lado do que do outro, como aconteceria com uma pessoa destra que usa mais a mão dominante. Nos cefalópodes atuais, esse tipo de assimetria costuma caminhar junto com uma organização cerebral complexa e capacidades cognitivas avançadas. Assim, além de estarem entre os invertebrados mais robustos do seu tempo, N. haggarti e N. jeletzkyi talvez também estivessem entre os mais inteligentes.
Embora ainda não se saiba exatamente do que era feita a dieta desses animais, é fácil imaginar que as criaturas que dividiam as mesmas águas devem ter fugido deles como o diabo foge da cruz.
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