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Como a dieta dos tangarás veio antes da dança

Pássaros coloridos em um galho coberto de musgo, cercados por frutas vermelhas em floresta densa.

Poucos artistas do reino animal levam a própria performance tão a sério quanto os tangarás.

Essas pequenas aves tropicais vivem nas florestas da América Central e da América do Sul. Ali, os machos limpam pequenas “pistas” no chão da mata e passam boa parte da vida a ensaiar.

Eles estalam as asas como se fossem fogos, executam mortais para trás em alta velocidade e até se juntam a rivais em coreografias milimetricamente sincronizadas.

Cada gesto tem um objetivo único: conquistar a atenção de uma fêmea que observa.

Durante décadas, cientistas atribuíram essa exuberância à seleção sexual - a mesma força evolutiva por trás da cauda do pavão.

Um novo estudo, porém, sugere um ponto de partida mais antigo e inesperado, ligado ao que essas aves colocam no prato.

A dieta veio antes da dança

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade da Carolina Oriental (ECU), do Instituto de Ciência de Tóquio e do Instituto Max Planck de Inteligência Biológica.

Os especialistas sequenciaram os genomas de tangarás com sistema de acasalamento em arena e buscaram as marcas genéticas deixadas por uma seleção sexual intensa. Nos mesmos genomas, também apareceram sinais relacionados ao paladar e à digestão.

A seleção sexual varia enormemente em intensidade entre os animais, às vezes até entre parentes próximos, e ainda não entendemos completamente o porquê”, afirmou o Dr. Christopher Balakrishnan, responsável pela análise genómica.

A dieta não era o nosso foco no começo - estávamos interessados no lado mais chamativo: os músculos, a plumagem, as danças.”

Mesmo assim, os genes ligados ao consumo de frutos chamaram a atenção porque essas alterações pareciam surgir muito antes no processo evolutivo.

Elas puderam ser rastreadas bem no fundo da árvore genealógica do grupo, muito antes de as espécies desenvolverem as características de exibição hoje tão conhecidas.

Comer fruta não é simples

Os machos de tangará são tão atletas quanto artistas. Algumas espécies têm os músculos das asas com a contração mais rápida já registrada na natureza, e o coração de um macho em exibição pode saltar do repouso para perto do limite em questão de segundos.

Tamanho esforço exige energia, e uma parte considerável desse combustível vem de frutos.

Só que fruta pode ser um recurso complicado: muitas plantas produzem químicos tóxicos em frutos ainda verdes para impedir que animais os consumam cedo demais.

Ao mesmo tempo, várias aves perderam, há milhões de anos, a capacidade de sentir o gosto doce.

O sentido do doce reaparece

Alguns poucos grupos de aves voltaram a detectar a doçura por “acidentes” evolutivos independentes.

Trabalhos anteriores já tinham mostrado isso em beija-flores, aves canoras e pica-paus, que reconstruíram a deteção de açúcares a partir de um recetor originalmente ligado a sabores salgados/umami.

Testes de laboratório com células cultivadas confirmaram que os tangarás fazem parte desse conjunto. A versão do recetor nesses pássaros reage tanto a açúcares quanto a aminoácidos - uma mudança que já existia no ancestral comum de todos os tangarás.

Tangarás seguiram o próprio caminho

A Dra. Yasuka Toda liderou a etapa laboratorial dedicada aos recetores de paladar dessas aves.

Os tangarás re-evoluíram um sentido para o doce por conta própria - e fizeram isso do jeito deles, ao alterar uma parte diferente do recetor da que as aves canoras usam”, disse a Dra. Toda.

A evolução continuou a chegar à mesma resposta por caminhos distintos.”

Ela acrescentou que frutos tropicais doces estão disponíveis ao longo de todo o ano, o que fornece energia suficiente para que as fêmeas criem os filhotes sozinhas e para que os machos consigam sustentar as exibições.

Perder uma enzima valeu a pena

A segunda surpresa apareceu na digestão. Uma enzima chamada lactase - que em mamíferos quebra o açúcar do leite - perdeu grande parte da sua atividade nos tangarás.

Isso poderia parecer um problema para quem se alimenta de frutos, mas pode ser justamente o contrário. A lactase também fragmenta certos compostos vegetais presentes em frutos verdes, libertando produtos que bloqueiam a absorção de açúcar.

Com a enzima “reduzida”, os tangarás parecem deixar esses compostos atravessarem o intestino sem causar danos. Menos interferência significa mais energia extraída de cada refeição.

Quando vimos pela primeira vez o sinal na lactase, a nossa reação foi: por que lactase numa ave? Elas não bebem leite”, contou o Dr. Meng-Ching Ko, que liderou a análise sobre digestão nos tangarás.

Parece contraintuitivo, porque perder uma função não soa como um benefício, mas, para os tangarás, isso transforma o que parece uma limitação digestiva numa oportunidade.”

Essa queda de atividade remonta ao momento em que a linhagem passou a depender mais de frutos.

A ordem, afinal, faz sentido

A equipa posicionou essas mudanças num grande parentesco que inclui mais de 1,300 espécies de aves relacionadas. A partir dos ramos, surgiu uma sequência nítida.

As adaptações alimentares vieram primeiro, ainda em etapas profundas da história do grupo.

A redução da lactase apareceu cedo; depois, no ancestral dos tangarás, veio o paladar para o doce; e só muito mais tarde surgiram o sistema de acasalamento em arena e as danças elaboradas.

A dieta pode mudar tudo

Essa cronologia é importante porque inverte uma suposição comum: não foram as danças que empurraram a dieta; foi a dieta que preparou o terreno para as danças.

Algo tão simples quanto uma mudança na comida pode remodelar toda a biologia de um animal - e, no caso dos tangarás, dar origem a algumas das danças mais espetaculares da floresta”, disse o Dr. Meng-Ching Ko.

Gerações de pesquisadores se interessaram pelos tangarás, em estudos sobre músculo, hormonas e comportamento.

Este artigo indica que a raiz da sua “arte” pode estar em algo muito mais básico do que um mortal: uma refeição de fruta.


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