Pular para o conteúdo

Três mitos sobre carros que a ciência derruba

Carro esportivo vermelho metálico com design aerodinâmico e faróis modernos em estande de exposição.

Todo mundo carrega algumas ideias prontas - muitas delas repetidas tantas vezes que acabamos aceitando sem checar se fazem sentido. Quando o assunto é carro, então, essas crenças ficam ainda mais teimosas, porque mexem com o nosso orgulho ao volante. Motivo perfeito para desmontá-las.

Deixe o ego de lado por alguns minutos e reavalie estas certezas sobre automóveis que talvez você tratasse como verdades absolutas. Pode ser porque um representante de vendas engravatado garantiu isso quando você comprou seu primeiro veículo; porque seu avô reclamava no posto; ou porque você leu, lá em 2002, em cantos obscuros da internet como Forum-Auto ou Planète 205. O site americano Popular Science, com estudos como base, resolveu colocar três dessas crenças na berlinda.

SP98 é melhor mesmo, né?

Com as recentes disparadas (e a palavra é pouco) no preço dos combustíveis, talvez você já tenha quase chorado ao completar o tanque com SP98. E é possível que você abasteça assim porque sempre ouviu que “o SP95 vai acabar com a sua injeção”, que o SP98 rotulado como premiumlimparia o seu motor” ou que ele “entregava mais desempenho”.

Nada disso se sustenta. A menos que você dirija um esportivo ou um modelo de luxo cujo fabricante exija explicitamente combustível premium - ou que seu motor seja turbo e tenha sido calibrado para trabalhar com octanagem mais alta - colocar gasolina de categoria superior em um carro comum não traz nenhum ganho mensurável.

A octanagem indica o quanto o combustível resiste à autoignição sob compressão. Se o motor não foi projetado para aproveitar essa característica, ele simplesmente não vai tirar proveito dela - é tão direto quanto isso.

Em 2016, a American Automobile Association (AAA) mostrou isso em um estudo: não há qualquer melhora em potência, economia de combustível ou redução de emissões poluentes. A diferença concreta costuma aparecer só no seu bolso. No cenário atual, vale conferir a portinhola do tanque (ou o manual) para saber o que o seu carro realmente pede: menos octanagem, mais dinheiro sobrando no fim do mês.

Câmbio manual é mais económico

Sim, isso já foi verdade… só que no século passado. As antigas transmissões automáticas que equipavam certos modelos franceses (conversores de torque pouco eficientes ou câmbios robotizados com apetite por combustível) faziam mesmo sentido: ficar com o velho câmbio em “H” era uma forma de gastar menos.

Só que o jogo virou. Os câmbios de dupla embreagem (DCT), que já deixam a próxima marcha “pronta” enquanto a anterior ainda está engatada, e as transmissões continuamente variáveis (CVT), que dispensam marchas fixas para manter o motor sempre no regime ideal, mudaram o cenário.

Por volta de 2010, a disputa praticamente acabou: os módulos eletrónicos ficaram tão eficientes que DCTs, CVTs e também os automáticos tradicionais com conversor (como os conhecidos ZF de 8 marchas lançados em 2008) passaram a ser, de forma consistente, mais eficientes do que o pé esquerdo e a mão direita do condutor médio em termos de consumo.

O US Department of Energy afirma no seu site oficial dedicado à economia de combustível: “Os avanços nas transmissões automáticas melhoraram tanto a sua eficiência que a versão automática de um veículo muitas vezes apresenta consumo de combustível igual ou até melhor do que a sua versão com transmissão manual”.

Se há 20 anos os automáticos ainda eram minoria na França, cada vez mais fabricantes vêm tirando o manual de várias linhas. Se você ainda escolhe esse tipo de câmbio, normalmente é pelo prazer de conduzir (e é um ótimo motivo, diga-se) - mas certamente não para economizar.

Mudar para a direita cedo demais: o reflexo pavloviano que trava as autoestradas

Na autoestrada, basta um painel avisar que uma faixa vai fechar para, por instinto de manada, muita gente correr para a faixa da direita - às vezes 1 ou 2 quilómetros antes do ponto de fechamento. Enquanto isso, a faixa da esquerda, ainda totalmente utilizável, fica vazia por centenas de metros e a direita vira um gargalo. Esse comportamento repetido cria uma fila única enorme, quando duas filas dariam conta de escoar o trânsito até o fim - se ninguém tivesse cedido ao impulso de entrar na primeira sinalização.

O tema foi analisado pela Universidade de Nebraska já em 1999 e, depois, pelo Estado da Carolina do Norte em 2018. O problema diminui quando você permanece na faixa da esquerda até o final e entra calmamente na direita, alternando a vez com os demais condutores. As duas pesquisas chegaram ao mesmo resultado: desse jeito, as inserções ficam menos perigosas, o fluxo anda melhor, não se forma engarrafamento e as equipas que trabalham no ponto em que a faixa se encerra ficam menos expostas.

Agora você já sabe: a estrada (ou a autoestrada) costuma ser feita de boas intenções - às vezes mal informadas. Ter acreditado ou não nesses três mitos é secundário; o principal é colocar isso em prática quando tiver oportunidade.

Todos nós somos afetados por vieses, e cada caso acima ilustra um deles: viés de confirmação (SP98), viés de ancoragem (câmbio manual) e viés de conformidade (mudar de faixa cedo demais). E isso, de quebra, deveria tranquilizar você, porque não tem nada a ver com a sua experiência como condutor; é apenas o seu cérebro funcionando como costuma funcionar: economizando energia.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário