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Da árvore ao TikTok: a canela e a nova vida de Nikolas

Jovem prepara receita, adicionando especiaria em pó em uma tigela, enquanto grava com celular em tripé na cozinha.

O vídeo no TikTok tem a combinação perfeita para explodir no algoritmo. As cenas são daquelas “satisfatórias”: uma faca bem afiada raspando a casca de uma árvore, que se desfaz com facilidade; em seguida, depois de recortar um retângulo certinho, a película se solta com delicadeza. Além de visualmente hipnótico, o conteúdo ensina algo - e pega muita gente de surpresa. O autor leva a lâmina marrom que tirou do tronco para uma tábua e, com cortes simples, divide em partes menores. Após um dia secando à sombra, a mágica acontece em segundos: aparecem os canudinhos de canela que todo mundo conhece.

Nikolas chegou a isso por tentativa e erro desde que encontrou a árvore no quintal. Hoje, já entendeu que precisa escolher um galho que não seja novo demais, mas também não seja velho demais. O vídeo “Como colher canela” soma quase dois milhões de visualizações, tem mais de 13 mil comentários e foi salvo por 80 mil pessoas na rede social. “É óbvio que a canela vem de uma árvore. De onde é que eu achava que vinha antes de ver esse vídeo?” é um dos comentários que traduzem o espanto de quem recebeu o conteúdo de Nikolas pelo algoritmo. O advogado brasileiro, de Mato Grosso do Sul, usa as redes para falar de “plantas e experiências com plantas” e já mostrou como o tronco se regenera depois da colheita, como usou a canela “caseira” na cozinha e como fez a identificação da árvore.

A canela passou a sair do atual Sri Lanka pela mão dos portugueses no século XVI, mas o interesse pela especiaria já existia na Europa

Assim como ocorre com os eucaliptos, quando chove a Cinnamomum libera um aroma fácil de reconhecer. O gênero tem mais de 250 espécies, e a canela do Ceilão (Cinnamomum verum) costuma ser vista como a “verdadeira” - ou “canela real”. De origem tropical, ela começou a sair do atual Sri Lanka por intermédio dos portugueses no século XVI; ainda assim, na Europa já havia interesse por uma especiaria marrom cuja origem era, para muitos, um mistério.

Ao que tudo indica, os comerciantes árabes esconderam deliberadamente a procedência da canela e, para proteger o negócio, alimentaram narrativas fantásticas. As histórias mais famosas giram em torno de uma criatura chamada Cinnamologus (também grafada como Cinomolgus ou Cynnamolgus) e existiriam pelo menos desde a época de Heródoto (século V a.C.). Na lenda, essa ave gigantesca buscava paus de canela em lugares remotos para construir ninhos em penhascos inalcançáveis, nas montanhas árabes. Manuscritos medievais trazem ilustrações desse “pássaro da canela”, e há também registros de relatos mais ou menos rocambolescos - alguns com dragões - que ajudavam a sustentar o monopólio e a elevar os preços.

Por ser tão valiosa, a canela chegou a funcionar como moeda de troca e também como reserva de riqueza. E, ao longo dos séculos, o tipo que foi parar nas mesas europeias dependeu menos do paladar e mais de força geopolítica, além de circunstâncias históricas e econômicas de quem participava das transações. Variedades como a canela de Saigon (famosa pelo aroma intenso), do Vietnã, ou a Korintje, da Indonésia, ganharam espaço global não necessariamente por serem “melhores”, mas porque épocas diferentes favoreceram redes comerciais e produtores diferentes. No consumo, essas variedades se organizam em duas grandes famílias. A do Ceilão, chamada de “verdadeira”, é mais clara, suave e doce, com textura fina, mais quebradiça e com várias camadas. Já a canela-cássia é mais escura, mais forte e mais picante - e tende a ser a mais comum em supermercados europeus. Sua casca é mais grossa e rígida.

Caldos, carnes e doces

Na culinária portuguesa, percebe-se um “uso e abuso de especiarias na alimentação”. A observação é de Marília dos Santos Lopes, no capítulo ‘Ao cheiro da canela...: as especiarias e a revolução culinária’, do livro História Global da Alimentação Portuguesa (2023). Para a historiadora, chama atenção a “assiduidade com que é usada” a canela em Portugal, e ela toma como referência o “Livro de Cozinha da Infanta D. Maria de Portugal (1521-1577)”.

“Não há quase nenhuma preparação alimentar que não leve canela, como podemos ver entre muitas receitas de carne, como a de galinha albardada” - uma galinha com fatias de pão, ambos passados em ovo, fritos na manteiga e, por fim, polvilhados com açúcar e canela. Entre outros pratos que, segundo a Infanta, também não abriam mão da especiaria estavam as morcelas, os manjares de leite (ou manjares brancos, com leite, açúcar, arroz e peito de galinha) e os chamados “ovos mexidos”, que, pela descrição, eram servidos com fatias douradas. “Pô-los-eis em cima do prato, e, por cima, deitar-lhes-eis açúcar e canela pisada. Então, mandá-los-eis à mesa.” Nessa cozinha de transição - na fronteira gastronômica entre a Idade Média e o Renascimento - aparecem com força as especiarias e o açúcar, ingredientes de luxo naquele período.

Garcia de Orta também aborda a canela em Colóquios dos Simples e Drogas da Índia, publicado em Goa em 1563, ao lado de produtos como gengibre, cânfora, ópio e pimenta, e das propriedades medicinais dessas especiarias exploradas pela medicina asiática. Ainda assim, o médico parece pender mais para o prazer do paladar do que para a teoria: “Nenhuma especiaria se poderá comer com gosto, senam [sic] a canela”.

Poderosa, mas não tanto

O cheiro e o sabor quentes, amadeirados e levemente picantes têm como base um composto ativo chamado cinamaldeído. Além do papel aromático, ele apresenta propriedades antissépticas - e é justamente isso que leva Nikolas a usar canela para ajudar na cicatrização de cortes feitos em outras plantas do jardim. “Foi muito curioso, porque há muitos anos que uso pó de canela para cicatrizar podas de plantas, e ajudar no enraizamento, mas ver o que a própria árvore é capaz de fazer em pouquíssimo tempo foi muito surpreendente”, diz em um vídeo. Para conter a proliferação de bactérias e fungos, “ela forma como se fosse uma espuma, um tecido cicatricial, rígido, protetor, criado para isolar completamente a área ferida”.

Por causa dessas características, a canela foi prescrita como antisséptico e também para tratar problemas respiratórios, distúrbios digestivos e dor de dente - da Antiguidade Clássica à Idade Média. Esse passado “ancestral” ajuda a explicar a base de muitas crenças em torno dos benefícios da canela (como acontece com tantos chamados “superalimentos”). “É comum fazer-se, nas redes sociais, extrapolações sobre a amplitude dos potenciais benefícios da canela”, afirma Sara Beatriz Monteiro, diretora e editora do “Viral Check”. O jornal de checagem de fatos em saúde frequentemente verifica e desmonta mitos ligados à alimentação, nutrição e segurança alimentar. “As principais alegações falsas, imprecisas ou exageradas que circulam online sobre a canela e que temos verificado estão relacionadas com o seu suposto efeito ‘emagrecedor’ ou o seu possível papel no controlo da glicemia”, explica a jornalista.

Basta uma busca rápida para encontrar, por exemplo, cápsulas de canela acompanhadas de descrições extensas sobre “propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias que auxiliam na prevenção de doenças cardiovasculares, ajudam no controle da diabetes, proporcionam o emagrecimento, estimulam o organismo e melhoram a saúde mental”. E as falsidades que mais se espalham na internet parecem ser justamente as que têm algum fundo de verdade: “Pelo que temos verificado nos nossos textos sobre o tema, a canela parece ter proprie­dades com potencial benéfico para a saúde, mas grande parte das alegações que circulam online são exageradas ou imprecisas, e em alguns casos, até falsas”, diz Sara Beatriz Monteiro.

A nova vida da canela

Com potencial real, mas longe de ter relevância clínica, a canela parece manter seu lugar à mesa mais por laços afetivos e culturais - e pelo status de ingrediente “conforto”. Misturando tradição e novidade, ela aparece agora em bebidas quentes, embaladas pela popularização europeia do chai, uma bebida tradicional indiana feita com chá-preto, leite e especiarias. O latte de chai (originalmente chai masala) faz parte do cardápio fixo da Starbucks, e no Reddit circulam “truques” para turbinar a bebida: uma dose extra de café, por exemplo, transforma tudo em um “chai sujo”.

Vinda de outro canto do mundo, a canela também se encaixa na estética da “vida suave” nas redes, simbolizada pelos rolinhos de canela. Foi nesse formato que Nikolas aproveitou parte da colheita do quintal. Com leite morno, açúcar e fermento, ovos, manteiga derretida (que não pode estar fervendo) e farinha, chega-se a uma bola de massa que precisa descansar por uma hora.

Depois de secar os paus de canela, Nikolas recorreu a um moedor de café para obter o pó, que é misturado com açúcar e manteiga derretida. Essa pasta vai por cima da massa já aberta, que então é enrolada e cortada em fatias. Em seguida, é necessário mais uma hora de descanso, já na assadeira em que as fatias irão ao forno.

Esse bolo - que exige tempo, fermentação e literalmente “mãos na massa” - acompanha o café no Norte da Europa (Suécia e Finlândia têm um dia especial para ele) e hoje está em toda parte nas redes sociais, dentro do universo visual da “internet aconchegante”, a face “reconfortante” da internet. A massa macia, úmida e levemente elástica vira o encerramento perfeito para um vídeo de receitas com canela: um ingrediente tão familiar que parece dar para sentir o cheiro pelo celular.

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