Mesmo com 2022 ainda no começo, a Volvo já acumulava anúncios relevantes: depois de apresentar sua visão para o futuro do infoentretenimento e de confirmar a chegada de novos recursos do Google e do YouTube ao sistema Android atual, a marca aproveitou o CES 2022, em Las Vegas (EUA), para revelar o novo sistema de condução autônoma chamado Ride Pilot.
A partir de meados de 2022, o sistema começará a ser testado nas estradas da Califórnia. Assim que estiver homologado, será oferecido ao público por meio de assinatura no próximo SUV 100% elétrico da Volvo - modelo que ainda será revelado ao longo deste ano.
Volvo Ride Pilot: tecnologia e base do sistema
Esse sistema nasce do “casamento” de competências entre a Volvo, a Zenseact (subsidiária da Volvo Cars) e a Luminar, responsáveis pelo desenvolvimento do software de condução autônoma. O conjunto de sensores inclui um LiDAR (fornecido pela Luminar), cinco radares, oito câmeras e dezesseis sensores ultrassônicos.
Somado a isso, a evolução contínua do software via atualização remota (Over The Air) foi pensada para garantir redundância total e viabilizar a condução autônoma em locais e cenários específicos - como rodovias, por exemplo.
Para entender melhor como o Ride Pilot deve operar e de que maneira será introduzido no mercado, conversamos com Martin Kristensson, responsável por mobilidade e condução autônoma da Volvo Cars.
Supervisionado vs não supervisionado
Razão Automóvel (RA): Relativamente ao Ride Pilot, e para esclarecer, estamos a falar do nível 3 no sistema de condução autónoma?
Martin Kristensson (MK): Tentamos não falar sobre esses níveis porque eu acho isso mais confuso do que útil. E, em vez disso, falamos de ‘supervisionado vs não supervisionado’ e este é um sistema não supervisionado. Isto significa que enquanto condutor, não serás responsável pela tarefa de conduzir, não precisas de manter as mãos no volante e não precisas de manter os olhos na estrada. Podes até tomar o pequeno-almoço no carro, ver um filme ou ler um livro e o carro realmente conduz sozinho.
RA: Os testes piloto na Califórnia vão ser não supervisionados desde o início?
MK: Obviamente, começaremos com os pilotos de teste dentro do carro durante a fase de validação. Mas os clientes estarão sem supervisão.
Responsabilidade legal e retomada de controle
RA: E no caso de acontecer um acidente no modo Ride Pilot, por exemplo. A Volvo vai sempre assumir a responsabilidade legal disso?
MK: Sim. Nós vamos assumir a responsabilidade legal nessa situação.
RA: Faço esta pergunta porque este é um dos grandes desafios que a condução autónoma enfrenta no futuro. A legislação e os contornos legais são o maior obstáculo rumo a uma condução totalmente autónoma.
MK: Eu concordo. Nós vamos assumir a responsabilidade, mas pode haver sempre outra lei qualquer. Quer dizer, se bateres com este carro e fugires há sempre alguém que te pode processar. Essas coisas podem sempre acontecer. Mas nós vamos assumir essa responsabilidade.
RA: Mas em todas as situações o condutor pode sempre assumir o controlo, certo? As intenções do condutor sobrepõem-se sempre ao sistema?
MK: Bem, quando o carro estiver a conduzir sozinho ele vai estar realmente no controlo. E se quiseres assumir o comando, então também estarás a assumir a responsabilidade. Mas sim, será possível, por exemplo, carregar no travão e parar o carro dessa forma.
Clima, escolha da Califórnia e limitações operacionais
RA: Quando anunciaram os testes na Califórnia, mencionaram que o clima foi um dos motivos que levou a essa escolha. De que forma é que a chuva e o nevoeiro podem afetar um sistema como este?
MK: O clima é uma grande parte disso, mas não é tudo. Há também a questão da legislação e aqui (Califórnia) temos percursos longos para o trabalho e de volta a casa e os típicos percursos nas autoestradas da Califórnia.
No que toca ao nevoeiro e à chuva, há várias partes nessa questão. Uma é que a visibilidade das câmeras e do LiDAR pode ficar pior. A outra é que podem ficar gotas de água na lente da câmera. Mas há mais. Ter uma superfície escorregadia na estrada afeta os tempos de travagem e outras coisas. E tirar estes fatores da equação vai permitir-nos lançar (o sistema) mais cedo.
RA: Durante o anúncio do Ride Pilot, os responsáveis da Volvo afirmaram que este sistema só chegaria à produção quando estivesse pronto a ser usado em determinadas áreas ou situações. Que áreas e situações são essas?
MK: Então, o que vamos fazer é colocar o hardware, o Luminar, o LiDAR e todos os sensores e o sistema de computação. Vamos colocar isso de série no próximo SUV. Assim, todos os carros terão o hardware necessário para a condução autónoma. E então depois vamos ativar essa função (Ride Pilot) através de alguns dias de subscrição (gratuita, para teste).
E isso pode ser logo quando recebes o carro ou pode ser já depois de seis meses com ele na estrada. E depois disso podem subscrever esta função.
Assinatura, período de teste e expansão
RA: Acredita que este sistema de subscrições vai ser mais comum no futuro?
MK: Absolutamente, em particular para este tipo de função em que realmente precisas de experimentar para perceber porque é tão incrível. E falamos do Ride Pilot mas também podemos falar de outras funções, como o estacionamento automático ou a câmera 360, por exemplo. Já não consigo mexer o carro sem ela. Mas claro, é difícil saber isso sem experimentar.
Por isso teremos o hardware no carro e vamos oferecer este serviço de subscrição para teste antes de ter de comprar. Vai ser possível experimentar durante alguns meses de forma gratuita. E então depois vamos cobrar por isso.
Acho que vai ser um modelo de negócio muito bom para a Volvo, mas também para o consumidor, que vai poder experimentar mais.
RA: Quantos meses de teste acredita que vão ser precisos para que o sistema seja aprovado nos Estados Unidos?
MK: Eu realmente não posso responder a isso ainda. Quer dizer, vamos fazê-lo o mais rápido possível e o que faremos é lançar na Califórnia ou em autoestradas específicas, primeiro em ambientes limitados e, em seguida, expandir rapidamente para mais autoestradas, mais estados norte-americanos e depois para a Europa, China…
RA: A estreia deste sistema vai acontecer no próximo SUV 100% elétrico da Volvo. Mas ele também virá a ser usado em outros modelos da marca e da Polestar?
MK: Sim, definitivamente estará em mais modelos Volvo no futuro. Não posso falar sobre a Polestar. Mas é a mesma plataforma de hardware. Portanto, (a integração) seria muito simples.
RA: Acredita que as pessoas estão mais interessadas na condução autónoma por causa do aumento na segurança ou acha que estão mais preocupadas com o facto de poderem passar a ter mais tempo livre para fazerem outras coisas?
MK: Acho que as pessoas estão interessadas por causa da segurança, mas o que realmente vai ser determinante e manter as pessoas «presas» é o tempo livre.
A maioria de nós, profissionais, se há algo de que sentimos falta é de tempo, certo? Então, se pudéssemos ter meia hora ou mais por dia, quando é que isso valeria? Acho que os nossos clientes vão adorar.
RA: Acha que com a condução autónoma e com os novos sistemas de infoentretenimento o carro se vai tornar numa espécie de segunda sala de estar? Acha que as pessoas vão usar esse tempo livre adicional para ver filmes e séries de TV?
MK: Eu também já fiz essa reflexão. Quer dizer, o melhor sistema áudio a que eu tenho acesso está no meu carro, na verdade. Eu acho que estamos certos, vamos ver cada vez mais pessoas estacionadas apenas a relaxar nos seus carros.
Estamos claramente a ver que as pessoas vão passar mais tempo nos seus automóveis, mas não a conduzir. Pode ser em percursos durante a condução autónoma ou parados enquanto carregam o seu elétrico.
E foi por isso que anunciámos aqui no CES 2022 que vamos passar a oferecer YouTube nos carros, por exemplo. E eu realmente acho que queremos e precisamos de expandir essa oferta digital.
RA: Mas o derradeiro objetivo da Volvo com a condução autónoma é eliminar os acidentes, certo? É esse o objetivo principal?
MK: Sim, absolutamente. A segurança faz parte do nosso ADN.
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