Isso aí ainda não está pronto, né?
Ainda não. Mas a Hyundai sabe o peso que o i20N carrega. 2020 não foi exatamente um ano fácil para ninguém, então por que não matar a curiosidade com uma prévia desse hot hatch quase finalizado nas estradinhas ao redor de Nürburg e com algumas voltas no circuito GP de Nürburgring? É o tipo de “remédio” que a gente estava precisando.
Então esse é o irmão menor do i30N?
Acertou em cheio. Enquanto o i30N hatch e o Fastback, maiores e mais “família”, encaram gente como Golf GTI, Cupra Leon, Focus ST e Megane RS, o i20N vem como uma opção menor, mais apimentada, no formato de supermini.
E esse nicho anda meio silencioso ultimamente. Tem o sensacional Fiesta ST, o Polo GTI que não empolga… e praticamente só. Nada de Cupra Ibiza, Fabia vRS, Corsa VXR ou Clio RS no radar agora. Parece o momento perfeito para um estreante atacar…
As especificações estão no ponto?
Não é um carro feito para “ganhar no papel”, mas os números parecem bem calibrados. Sob o capô, há um 1,6 litro turbo – quatro cilindros, e não um três-cilindros esticado como o do Fiesta ST, nem algo mais exótico como o Toyota GR Yaris. Entrega 201bhp e 203lb ft. Faz sentido, não?
A força vai para as rodas dianteiras, com um diferencial de deslizamento limitado de verdade. E só existe uma opção de câmbio: manual de seis marchas. A Hyundai está guardando o novo DCT de oito marchas com borboletas para o i30N e para outros modelos N maiores e mais altos que virão…
Delícia. E agora?
Até aqui, tudo bem direto ao ponto. O mesmo vale para a suspensão: os amortecedores têm um acerto fixo de fábrica, sem ajuste para quem preferiria abrir mão de um pouco de desconforto. Há um diferencial mecânico na dianteira, mas nada de mexer na taxa de bloqueio via tela multimídia. É confiar no pessoal da N. Pelo i30N e pelo Veloster N vendido aos nossos amigos americanos, eles sabem o que fazem.
Mas não se engane achando que o i20N é o “patinho feio” da família N. Como o i30N ganhou fama por modos e configurações, a divisão N levou parte dessa lógica para o novo caçula da linha.
Boa. Me fala dos brinquedos.
Tem launch control de série. Você provavelmente nunca vai usar, mas é bom saber que está lá, né? O motor também dá uma “aceleradinha” automática nas reduções, graças ao botão de rev-match no volante. Aí entram os modos. Ou, como a Hyundai chama, o “N Grin Control System”. Credo.
De qualquer forma, você aprende rápido a ignorar Normal e Eco, e a prestar atenção no Sport, que melhora a resposta do motor, libera um pouco mais de barulho, pesa a direção e relaxa o controle de estabilidade. Só que isso é apenas o começo.
O modo “N” eleva tudo ao máximo. E claro que existe o “N Custom” – o passe livre para misturar ajustes e salvar suas combinações preferidas. É onde os i20N vão passar 95% da vida.
Parece um pacote bem recheado.
E ainda não acabou. Você tem luzes de troca de marcha, o motor da direção elétrica recebeu um acerto exclusivo para resistir ao torque-steer, há freios dianteiros enormes de 320 mm e uma suspensão bem mais parruda do que a de um i20 comum. Até a carroceria foi enrijecida, para a suspensão poder ser afinada do jeito certo. Fazer tudo isso num hot hatch não é barato. Tomara que ainda seja um carro com preço razoável.
Vai, só mais um fato de bar.
Quer saber o quão sério a Hyundai ficou com esse carro? Os pedais do i20N foram calibrados para permitir frear com o pé esquerdo, como piloto. Muitos hot hatches entendem que você entrou em pânico e esqueceu qual pé usa para quê se o sistema detecta você “pisando no freio” enquanto mira o ápice. Aqui, não. Para um Hyundai i20 vitaminado – pace car oficial do Campeonato Mundial de Indoor Lawn Bowls de 2020 – isso é bem sério.
Então, primeiras impressões?
Dá para falar pouco do visual e do interior, porque estavam camuflados, mas o banco segura bem e tem abas laterais firmes, embora não desça muito se, como eu, você gosta de sentar bem baixo, quase no assoalho. No estilo do i30N, há um volante bem grosso, pedaleiras de metal e uma manopla com topo arredondado. O básico bem feito.
O painel digital é nítido, e você ganha mostradores e cores totalmente diferentes conforme sobe pelos modos. Tem “clima de ocasião” suficiente para parecer um carrinho especial.
Aperte o botão de partida. O motor soa mais grave do que um quatro-cilindros comum de supermini, mas ainda falta um pouco de agressividade crua, aquele “parp” e o ronco mais raivoso. Os engenheiros dizem que isso está na lista, só que os filtros de emissões do escapamento deixam a tarefa mais difícil a cada dia.
O engate e os freios não decepcionam. Os pesos dos comandos passam uma sensação decidida e bem casada. Um Fiesta ST tem uma ação de câmbio mais lisa e mecânica, mas o Hyundai chega perto.
Pé embaixo, sobra tração. Talvez as estradas secundárias alemãs lisinhas – que, se bobear, são até mais suaves do que a pista de GP ali perto – ajudem a dianteira, mas quase não há aquela sensação de o volante querer arrancar das mãos e pular pela janela. Você não precisa de mais do que 201bhp quando praticamente nenhum deles está sendo desperdiçado.
Que velocidade estamos falando?
Ainda não há números oficiais, mas é claro que deve fazer 0–62mph em seis e alguma coisa. Ou seja: rápido o suficiente.
O que anima é como ele se sente um produto N, mesmo que você chegasse vendado. A firmeza dos comandos, a impressão de um entre-eixos “quadradinho” sob você, justo e aderente, mas também disposto a reagir ao aliviar o acelerador ou ao entrar freando. Isso é DNA N, e sobreviveu mesmo depois de “encolher” o projeto.
Nesse primeiro contato curto, eu não diria que ele tem a agilidade viciante, mas meio artificial, do Fiesta. O Ford, líder da classe, parece que quer andar em três rodas. O acerto dele é todo sobre uma frente muito pontuda e uma traseira hiper móvel, pronta para “abanar o rabo” em qualquer rotatória. O i20N joga de forma mais reta. Isso pode torná-lo mais inteligente e menos cansativo numa viagem longa, na rotina do dia a dia, mas menos engraçado num tiro curto e oportunista.
Então ele tem o nível certo de maturidade?
Cedo demais para cravar, mas há uma ironia: o i30N maior é um dos hot hatches menos maduros e mais inquietos da categoria – e é justamente isso que o deixa tão carismático.
Vamos precisar de mais tempo ao volante para entender quantas camadas existem nessa personalidade multi-modos do i20N, mas a ficha técnica promete bastante. Dá para trazer um logo, Hyundai? 2020 foi meio arrastado. A gente merece essa.
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