A multiplicação de radares nos últimos tempos faz surgir uma dúvida inevitável: Portugal é um país de «aceleras» que precisa ser colocado na linha ou um lugar em que os limites de velocidade estão fora da realidade, tornando cada vez mais fácil cair em infração ao simplesmente circular?
Radares de velocidade em Portugal e a percepção na estrada
Os dados mais recentes da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) sobre sinistralidade não deixam muita margem para interpretação.
Em termos práticos, muitos motoristas portugueses seguem encontrando dificuldade para respeitar os limites. E, ainda que nem todo desrespeito resulte em colisão, uma parcela relevante dos acidentes com vítimas fatais ou feridos graves continua sendo associada ao excesso de velocidade.
De todo modo, nem é preciso abrir relatórios para notar que se anda rápido em Portugal - basta sair de casa e ir para a via. Ou, no mínimo, percebe-se uma certa desatenção recorrente em relação às velocidades máximas.
Faça o teste: circule em uma avenida, em uma autoestrada, em uma estrada nacional ou em qualquer via do país mantendo exatamente o limite indicado. Em pouco tempo, não é raro sentir a pressão de faróis colados no retrovisor, como se estivessem a «empurrar» quem está à frente.
O problema não são só os «aceleras»
Ainda assim, reduzir a discussão a isso é simplificar demais. Quando se tenta dirigir dentro das regras, fica claro que existem «aceleras», mas também aparecem, com frequência, limites que parecem desajustados.
Limites desajustados: Lisboa e estradas nacionais
Alguém considera razoável, na Segunda Circular, em Lisboa, depois de passar o Estádio da Luz e começar a subida em direção ao IC 19, que o limite mude quase de repente de 80 km/h para 50 km/h, em uma faixa com três vias e trânsito intenso - mesmo sabendo que se trata de um «ponto negro»?
E não para por aí. Em quantas estradas nacionais, pelo país inteiro, surgem limites de 50 km/h em retas longas com visibilidade perfeita, apenas porque a área é tratada como localidade - não só pela placa de entrada e de saída, mas também por haver algumas casas espalhadas, com acessos separados até algum portão?
Seria, de fato, menos seguro circular a 70 km/h, de forma razoável e também fiscalizada?
Não defendo acabar com controles de velocidade - até porque eles ajudam a conter excessos reais -, mas estabelecer limites extraordinariamente baixos não é, por si só, garantia de que esses excessos deixem de acontecer.
Como combater os excessos?
Na minha visão, existem diferentes caminhos para reduzir a velocidade acima do permitido. Um deles, naturalmente, é a fiscalização. Só que essa fiscalização precisa ser feita «às claras», com o efeito dissuasório que se pretende, e não por meio de veículos descaracterizados e escondidos com radar.
Se a intenção é «educar» os motoristas, o ideal é agir com didática. Nesse sentido, entendo que a forma como os radares da rede SINCRO vêm sendo instalados e, principalmente, sinalizados é um bom exemplo do que tem sido bem executado nessa área.
Fiscalização pedagógica e revisão de limites
Dito isso, não custaria nada reavaliar certos limites de velocidade, ajustando-os às condições reais das vias e também… ao bom senso.
Não adianta impor limites desalinhados com a dinâmica do tráfego, porque eles acabam sendo ultrapassados com facilidade - inclusive por percepção de segurança e autopreservação. Em algumas situações, dá a impressão de que respeitar o número na placa é mais arriscado do que trafegar um pouco acima dele.
Isso me leva, inclusive, a perguntar se a definição de determinados limites de velocidade tem apenas e só relação com segurança rodoviária.
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