Usar capacete ao pedalar, esquiar ou praticar equitação é mais do que recomendado. Numa queda, esse tipo de proteção pode literalmente salvar sua vida. A dúvida é: você sabe quais tecnologias tornam isso possível?
Em questão de segundos, um engenheiro prende um capacete de motocicleta em uma cabeça artificial. O conjunto sobe devagar por um braço metálico e para, imóvel, a vários metros de altura. Em seguida, o capacete despenca. O impacto é brutal. Um estalo seco ecoa por toda a sala. A queda durou só uma fração de segundo.
Foi nesse ambiente - na sede da Mips, na região metropolitana de Estocolmo (Suécia) - que pude ver de perto os bastidores da empresa. Apesar de pouco conhecida do grande público, a Mips está presente em mais de 1.000 referências diferentes de capacetes, em parceria com 150 marcas.
Uma empresa desconhecida
Para muita gente, “Mips” é apenas aquele pequeno adesivo amarelo colado em capacetes de bicicleta, ski, equitação ou mesmo de moto.
Criada em 1996 a partir dos trabalhos do neurocirurgião Hans von Holst e do pesquisador Peter Halldin, a companhia sueca não fabrica capacetes. Em vez disso, desenvolve uma tecnologia voltada a reduzir riscos associados a impactos rotacionais e a integra aos produtos de parceiros.
A própria Mips se descreve como uma “marca-ingrediente”: como um componente que valoriza o produto final sem ser, necessariamente, a “estrela” visível. Essa estratégia industrial ajuda a explicar como a empresa se consolidou no segmento, com faturamento em 2025 de mais de 400 milhões de euros.
Cada detalhe conta
É no laboratório que o discurso da Mips parece ganhar mais sentido. Cada ensaio segue um protocolo rigoroso. O capacete é colocado sobre uma cabeça de plástico e, depois, os engenheiros ajustam uma série de variáveis: altura da queda, ângulo de impacto, velocidade, superfície de contato e até o ponto exato em que o capacete vai bater.
Em alguns casos, poucos graus de diferença já bastam para mudar completamente o resultado. Esse foi, provavelmente, o aspecto mais surpreendente da demonstração. Eu esperava ver apenas uma sequência de testes de impacto. Na prática, o clima lembra muito mais uma experiência científica do que uma apresentação comercial.
Todas as quedas são registradas em vídeo. Quadro a quadro, a equipe revisa o momento do choque. Em outra tela, repleta de gráficos, aparecem dados sobre as solicitações impostas ao cérebro.
Depois que as medições são coletadas, o destino do capacete é sempre o mesmo: a lixeira. Um teste significa um capacete inutilizado. Logo na entrada do laboratório, um contador mostra quase 100.000 ensaios realizados desde a criação dessas instalações - um lembrete discreto da dimensão do trabalho feito fora dos holofotes.
Por que um impacto nunca é só uma “queda simples”
Antes de chegarem ao mercado, os capacetes com tecnologia Mips passam por testes. Eles atendem, claro, às normas europeias, mas a empresa afirma trabalhar com critérios mais rígidos. Marcus Seyffarth, responsável de desenvolvimento na Mips, explica:
"As normas europeias se baseiam em choques lineares. A nossa especificidade na Mips são justamente os impactos transversais, com um ângulo de queda."
Esse detalhe muda tudo. No mundo real, praticamente nenhuma queda acontece perfeitamente na vertical. Seja de bicicleta, esquiando ou a cavalo, o capacete quase sempre toca o chão com algum ângulo. Esse movimento gera uma rotação súbita da cabeça, que por sua vez faz o cérebro se deslocar dentro da caixa craniana.
Uma comparação ajuda a visualizar. Imagine uma bola de tênis dentro de uma caixa. Em um choque, não importa apenas a pancada inicial, mas também como a bola vai bater nas diferentes paredes. Com o cérebro, a lógica é semelhante.
Por isso, o objetivo da Mips não é simplesmente absorver a energia do choque, e sim “externalizar” parte dessa rotação por meio de uma camada móvel muito fina, posicionada entre a cabeça e o capacete. Em milissegundos, essa interface permite um pequeno movimento relativo do capacete, reduzindo o risco para o cérebro.
Uma ciência digital
Na sede em Estocolmo, também encontramos Madelen Fahlstedt, especialista em biomecânica na Mips. O trabalho dela é modelar numericamente o comportamento do cérebro durante impactos usando o Método dos Elementos Finitos (Finite Element Method).
Na prática, essas simulações ajudam a visualizar áreas com potencial de deformação do cérebro, analisar tensões mecânicas e antecipar efeitos de diferentes cenários de acidente.
"Graças às simulações numéricas, podemos saber quais zonas do cérebro são mais impactadas e trabalhar para melhorar nosso material."
Esses modelos digitais então complementam os dados obtidos nos testes de impacto, contribuindo para refinar, pouco a pouco, o desenvolvimento dos capacetes futuros.
Atenção: Mips não é uma garantia absoluta
Um artigo científico de 2019 relata uma redução de cerca de 20 % das tensões máximas ao usar um capacete com Mips.
Mais recentemente, uma campanha de testes conduzida pela Universidade de Leeds, com mais de 200 capacetes de bicicleta, indicou que os 9 modelos mais bem classificados tinham, todos eles, um sistema Mips. Ainda assim, os pesquisadores fazem questão de relativizar esses resultados.
Afinal, a presença dessa tecnologia não transforma, por si só, um capacete em um produto excelente. O desempenho também depende do nível do projeto, dos materiais e da geometria. Em outras palavras, o capacete é um conjunto - e a Mips é apenas um dos seus ingredientes.
Um detalhe quase invisível
Durante a visita, algo me chamou atenção. Depois de certos impactos, o capacete parece quase intacto. Algumas marcas, às vezes uma leve deformação, mas nada que sugira a violência do choque que eu havia ouvido segundos antes.
Para os engenheiros, porém, isso nem chega a ser uma discussão: o capacete é descartado imediatamente.
A cena reforça uma regra que muita gente esquece: um capacete que sofreu um impacto forte deve ser substituído, mesmo quando os danos parecem pequenos a olho nu. Ao fim da visita, o pequeno adesivo amarelo já não tinha o mesmo significado.
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