O corpo humano é mais resistente do que parece. Ele consegue operar em uma faixa ampla de temperaturas, ajustando-se, compensando e suando para atravessar situações que, para os nossos antepassados, pareceriam insuportáveis.
Ainda assim, existe um teto físico - e, com certa regularidade, estamos nos aproximando dele. Esse teto é expresso por uma medida chamada temperatura de bulbo úmido.
Trata-se de um indicador que junta calor e umidade para mostrar algo que o termômetro, sozinho, não revela: se o seu corpo consegue, de fato, se resfriar.
O limite da sobrevivência humana
O suor só ajuda quando consegue evaporar, e a evaporação depende de o ar ainda “comportar” mais umidade.
Quando a temperatura de bulbo úmido chega a 35°C, essa margem desaparece - mesmo à sombra, bebendo água ou, na prática, sem fazer nada.
Nessas condições, o corpo não consegue dissipar calor com rapidez suficiente para se manter vivo, e a exposição prolongada passa a ser fatal.
O calor extremo já mata, segundo estimativas, 500.000 pessoas por ano além do que seria esperado em taxas normais de mortalidade.
O patamar de 35°C de bulbo úmido é a borda externa da sobrevivência humana, mas os prejuízos começam muito antes de alcançá-lo.
Para pessoas idosas, trabalhadores ao ar livre ou quem convive com algum problema de saúde, os efeitos perigosos aparecem em temperaturas bem mais baixas.
Lugares que já estão em situação perigosa
Jacobabad, no sul do Paquistão, está entre as cidades mais quentes do planeta. Desde 2010, ela já ultrapassou diversas vezes o limiar de 35°C de temperatura de bulbo úmido.
E não deve continuar sozinha por muito tempo. Pesquisas indicam que, se o aquecimento continuar, áreas do Sul da Ásia e do Oriente Médio podem atingir esse limite com frequência até 2070.
A Universidade das Nações Unidas classificou o calor extremo como um dos seis “pontos de inflexão de risco” globais dos quais o mundo está se aproximando.
Esses pontos de inflexão são limiares a partir dos quais as consequências ficam graves, se espalham amplamente e se tornam muito difíceis de reverter.
Além disso, o calor pesa mais sobre quem tem menos condições de enfrentá-lo: pessoas sem ar-condicionado, sem eletricidade confiável, sem água limpa e sem a possibilidade de simplesmente permanecer em ambientes internos.
A ligação entre vulnerabilidade ao calor e pobreza não é coincidência - é estrutural. E isso faz com que os lugares e as populações mais perto do limite de sobrevivência sejam, ao mesmo tempo, os que dispõem de menos recursos para se proteger.
Dá para nos adaptar?
Quando o tema é adaptação ao calor extremo, a discussão costuma se concentrar em uma pergunta específica: as pessoas acabarão tendo de ir embora?
A ideia é que certas regiões possam se tornar perigosas demais para viver, levando populações a se deslocarem.
Só que a maioria não consegue simplesmente se mudar. Trabalho, família, dinheiro, deficiência, situação legal - tudo isso prende as pessoas ao lugar.
A adaptação precisa servir para quem fica. Isso significa tornar mais habitáveis os locais onde essas pessoas vivem.
E grande parte desse esforço começa no planejamento urbano. As cidades não esquentam de forma uniforme.
Bairros mais ricos, com árvores, sombra e construções bem isoladas, podem ser muito mais frescos do que áreas pobres próximas, onde o concreto absorve calor o dia inteiro e devolve essa energia durante a noite.
Dados locais detalhados - sobre onde o calor é mais intenso e quem está mais exposto - podem direcionar investimentos para onde eles realmente fazem diferença.
Estratégias de resfriamento ativas e passivas
Em geral, as estratégias de resfriamento se dividem entre soluções ativas e passivas. O resfriamento ativo - ventiladores e ar-condicionado - funciona, mas tem limites.
O ar-condicionado custa caro, não é acessível para muita gente e, durante ondas de calor, o uso simultâneo por toda a população pode sobrecarregar a rede elétrica.
Quando alimentado por combustíveis fósseis, ele também reforça o aquecimento que tornou seu uso necessário.
Já o resfriamento passivo evita esses problemas. Telhados refletivos e superfícies claras absorvem menos calor.
Árvores e parques reduzem a temperatura do ar ao redor. Áreas verdes, espelhos d’água ou passagens sombreadas não exigem energia contínua e tendem a beneficiar bairros inteiros, em vez de apenas as casas de quem pode pagar.
Algumas cidades estão indo além e redesenhando espaços a partir do conceito de “cidade-esponja”, que integra áreas verdes para absorver água da chuva, diminuir enchentes e, ao mesmo tempo, oferecer sombra e resfriamento.
O calor está mudando o funcionamento das sociedades
Para além da infraestrutura, o calor extremo começa a alterar rotinas de maneiras profundas. Trabalhos ao ar livre podem precisar migrar totalmente para o começo da manhã - em alguns países do Golfo Pérsico, já existe proibição de trabalho externo entre meio-dia e 15h no verão.
E o impacto chega a áreas que muita gente não imagina de imediato. A Copa do Mundo da FIFA de 2022 foi transferida do verão para o inverno no Catar justamente por preocupações com o calor.
O torneio deste ano, distribuído entre Estados Unidos, Canadá e México, deve trazer riscos importantes - com cerca de um quarto das partidas provavelmente ocorrendo em condições que ameaçam tanto jogadores quanto torcedores.
As respostas comunitárias também contam, de formas que é fácil subestimar.
Iniciativas que incentivem vizinhos a se checarem durante ondas de calor, ampliação do acesso à saúde em emergências de calor e sistemas de alerta precoce que realmente alcancem os mais vulneráveis podem salvar vidas.
Nada disso muda o problema de fundo
A adaptação existe, vale a pena e pode reduzir bastante os danos. Telhados refletivos, áreas verdes e mudanças nos horários de trabalho vão salvar vidas.
Mas essas medidas não conseguem tornar seguro um planeta quatro ou cinco graus mais quente para bilhões de pessoas que vivem nas regiões mais expostas.
O limite do bulbo úmido não é algo restrito ao futuro, em um lugar que a maioria nunca verá. Ele já foi atingido - repetidas vezes - em cidades onde as pessoas moram e trabalham.
O caminho mais direto para evitar que isso aconteça de forma mais ampla, mais frequente e em mais lugares é o mesmo de sempre: interromper o aquecimento, cortando emissões e eliminando gradualmente os combustíveis fósseis.
Todo o resto é administrar as consequências de não fazer isso rápido o suficiente.
O relatório da ONU pode ser encontrado aqui.
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