Para conter vírus, quase sempre recorremos à química. Ainda assim, pesquisadores na Austrália investigaram um caminho diferente: um material inspirado em microestruturas de alguns insetos, capaz de inativar vírus apenas pela morfologia da própria superfície.
Por que buscar alternativas aos desinfetantes químicos
Para reduzir a disseminação viral por superfícies tocadas diariamente - que, em certas situações, funcionam como importantes vetores de transmissão - é comum tratar esses materiais com substâncias químicas sintéticas. Entre as mais usadas estão água sanitária, água oxigenada, compostos de amônio quaternário (muito presentes em ambientes públicos), álcool e isopropanol. Embora a eficácia desses produtos seja amplamente comprovada, ela tem um custo: alguns persistem e se degradam no ambiente, podem apresentar toxicidade para a saúde e, em outros casos, o efeito dura pouco, deixando as superfícies expostas a novas contaminações.
Diante desse cenário, desde os anos 2000 cresceu o interesse por materiais antivirais ou “auto-desinfetantes”. Essa linha de pesquisa ganhou força durante a crise sanitária da COVID-19 por oferecer uma forma de interromper a cadeia de transmissão, promovendo a destruição mecânica dos agentes patogênicos. Um avanço recente nesse tema é um filme acrílico bioinspirado desenvolvido por cientistas da universidade RMIT (Melbourne) que consegue eliminar vírus com o simples contato. O trabalho foi descrito em um artigo publicado em 13 de fevereiro de 2026 na revista Advanced Science.
Copiar a natureza para destruir os vírus: um plástico inspirado em insetos que neutraliza os vírus
O objetivo inicial do grupo era criar uma superfície lisa o bastante para dificultar a adesão de patógenos. Porém, os testes indicaram o contrário do esperado: bactérias conseguem se fixar com eficiência mesmo em superfícies estruturadas em escala nanométrica - isto é, com relevos milhares de vezes menores do que os de uma superfície comum. A hipótese de partida, portanto, não se confirmou; seria necessário repensar o material. A solução apareceu quando a equipe passou a observar estruturas naturais.
Ao examinar asas de libélulas e de cigarras, os pesquisadores encontraram o modelo: esses apêndices, cobertos por nanorrelevos invisíveis a olho nu, funcionam como defesas antibacterianas passivas altamente eficazes. Quando uma bactéria (ou um vírus) toca essas superfícies, a membrana fica esticada entre as pontas. Com a força de adesão, ela acaba se rompendo, de modo parecido com um balão que é pressionado contra uma escova de cabelo.
Como o filme acrílico com nanopilares reproduz esse mecanismo
A partir dessa observação, o princípio foi adaptado para um material flexível: uma película acrílica fina recoberta por milhares de nanopilares (ver imagem abaixo). Com espaçamento de cerca de 60 nanômetros entre si, essas estruturas “agarram” a membrana das bactérias, imitando o mecanismo de defesa observado em libélulas e cigarras.
Testes do filme acrílico bioinspirado contra o vírus HPIV-3
A equipe também decidiu avaliar o desempenho contra um vírus, cuja parede - chamada de envelope lipídico - é mais fina. Por isso, não era óbvio que o filme teria o mesmo poder destrutivo: mais fino não significa necessariamente mais frágil. Além de delgado, o envelope viral tende a ser mais maleável e deformável, o que poderia, em teoria, absorver a pressão dos nanopilares sem se romper.
Mesmo assim, os testes com o vírus parainfluenza humano tipo 3 (HPIV-3) foram positivos. Trata-se de uma cepa bastante comum, associada a diferentes infecções respiratórias, como pneumonias e bronquiolites. Em menos de uma hora de contato com o filme acrílico, até 94 % das partículas virais foram inativadas de forma irreversível. É um resultado especialmente expressivo quando comparado ao desempenho de desinfetantes químicos.
Uma concepção voltada para o mercado
Outro aspecto favorável é que, ao contrário de muitos materiais antivirais criados apenas para demonstração em laboratório, este já foi pensado desde o início para fabricação em escala industrial. Esse ponto é decisivo para imaginar um uso mais amplo em superfícies com alto potencial de contaminação, como embalagens de alimentos, equipamentos médicos, transporte público e mobiliário de escritório.
Ainda assim, há uma limitação importante - comum a materiais nanostruturados: a degradação estrutural ao longo do tempo. Essa fragilidade exigiria trocas frequentes onde a película fosse aplicada, levantando inevitavelmente dúvidas sobre custo-benefício e viabilidade em condições reais de uso.
A equipe não vê isso como um impedimento e pretende continuar o desenvolvimento para aprimorá-lo. Elena Ivanova, coautora do estudo, disse ao Australian Manufacturing: “Achamos que [este material] é um candidato sério para uso cotidiano e estamos prontos para colaborar com empresas a fim de aperfeiçoá-lo para uma produção em grande escala”. Antes disso, ainda há etapas pendentes: o grupo quer testá-lo contra vírus mais resistentes e também em superfícies curvas, que podem alterar a eficácia dos nanopilares.
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