Pular para o conteúdo

Toyota iQ: o supercompacto nerd que surpreende

Carro branco compacto em movimento, com motorista, em ambiente urbano com fundo desfocado.

Da era industrial ao desejo por tecnologia

Volte mentalmente aos anos 80: o que era “descolado” na cidade misturava Nike Air Force Ones, faixas na cabeça e os tocadores portáteis de fita “boombox”, cuja “portabilidade” dependia basicamente de você ter dinheiro para alguém ir atrás carregando aquilo - quase como se precisasse de uma empilhadeira pequena. Telefone também era de um único tipo: tijolo. E, se você quisesse um com câmara, a solução era prender uma Nikon em cima com fita adesiva reforçada. A tecnologia não era bonita, nem amigável, nem algo para se desejar; era só industrial. E só dava acesso a quem tinha tempo para apanhar dos defeitos.

Avance algumas décadas e dá para sentir a virada completa. Hoje a expectativa é de múltiplas funções, interfaces assustadoramente intuitivas (“sai da minha cabeça, Ive, sai”) e um visual de fazer querer comprar. Os produtos precisam funcionar em vários níveis - e funcionar bem - a ponto de, para diferenciar um do outro, a gente se agarrar a margens de falha tão pequenas (“só oito megapíxeis? Que coisa de ontem, querido”) que corremos o risco de virar reféns da mania de implicar com detalhe. Nesse cenário em que se exige tudo, será que um carro assumidamente supernerd como o Toyota iQ consegue mesmo entregar o que promete?

Primeiras impressões do Toyota iQ nas ruas de Milão

Ao vivo, o iQ engana: ele é bem mais largo do que parece. Tem a largura de um VW Golf e menos de três metros de comprimento, o que faz a silhueta ficar meio quadradota. As rodas também ficam empurradas para os cantos, criando o que a Toyota chama de “postura super”. No mundo real, enfiado ao lado de Puntos e Focus e largado no meio da confusão do trânsito milanês, ele parece um pequeno invasor tecnológico. Não é uma proporção comum num carro tão curto - os Smarts são um bom bocado mais estreitos.

Resultado: em Milão ele atrai olhares em quantidade. Italianos prestam atenção a carros pequenos porque os encaram como solução, e não como sinal prático de estatuto, então o iQ virava assunto. Mesmo assim, fica a dúvida: ou a Toyota pagou literalmente centenas de “passantes”, ou esse pequeno cunha recebe mesmo um grande sinal de positivo dos milaneses que entendem de estilo. Não é pastiche, não vive de reinterpretação estilística de um ícone dos anos 60 e não tenta ser retrô. Ainda assim, é um carro com presença. Escureça os vidros para perceber de verdade o vidro traseiro com aquele desenho invertido, em forma de swoosh, no pilar traseiro, e tudo simplesmente funciona.

Cabine: espaço inesperado, truques de embalagem e 9 airbags

Por dentro, ele dá um nó na cabeça. A distância entre os ombros do condutor e do passageiro é maior do que na maioria dos hatches “normais”; por outro lado, você vira o corpo e percebe que dá para tocar o vidro traseiro a partir dos bancos dianteiros. O banco do passageiro ganha um “corredor” claro de espaço extra para as pernas, em parte porque o conjunto do ar-condicionado/aquecimento foi miniaturizado e agora fica no painel assimétrico inclinado para o lado do condutor - em muitos carros, isso ocupa o espaço para os pés do passageiro. E há uma bolsa presa com velcro do lado do passageiro que a Toyota chama de “porta-luvas”. A Toyota parece ter esquecido a definição de “caixa”.

O iQ também traz nove airbags enfiados em vários cantos; um deles é uma estreia no sector, um tipo de cortina traseira - ideia boa, embora provavelmente não ajude muito se você levar um “exame retal” a 113 km/h por um DAF desgovernado.

Ainda assim, toda essa engenhosidade de arrumação permite que o passageiro deslize o banco para a frente o suficiente para colocar uma pessoa de 1,83 m atrás de outra de 1,83 m. Não por muito tempo, é verdade, mas o bastante para se deslocar dentro de uma capital. Já o outro lugar atrás - o de trás do condutor - é mesmo só para crianças, mas todo mundo tem pelo menos um amigo baixinho. Só não vale, ao mostrar essa esperteza tipo Tardis para os seus colegas, deixar que mexam em tudo: os plásticos do interior são péssimos. Muito péssimos.

Ao volante: câmbio, ruído, conforto e aptidão para estrada

Para espremer espaço de carro grande num espaço de carro pequeno existe uma lista de soluções, e algumas são bem óbvias - como bancos finos, mas com bom suporte, que libertam espaço para os joelhos. Outras são menos evidentes, como o diferencial montado ao lado do motor na dianteira, ou o sistema de direcção “esperto”; ambos ajudam a organizar melhor o conjunto e a reduzir balanços da carroçaria.

Apesar disso, a inteligência por trás do pacote não fica gritando quando você conduz. O iQ roda realmente bem, ajudado por um câmbio manual útil de cinco marchas (há uma opção automática que serve muito bem se você for um urbanista convicto). Ele não é um Mini na capacidade de desviar e mudar de direção num piscar de olhos, mas chega muito perto de ser divertido de jogar de um lado para o outro e encara autoestrada com autoridade. O ruído é bem contido; a suspensão é firme, mas afinada.

Personalidade, comparação com Mini e Smart e o “efeito iPod”

O melhor do iQ é que ele tem - e lembre-se de que estou a dizer isso sobre um Toyota - uma personalidade enorme. Vindo de uma marca cuja gama costuma ser correta, porém tão emocionante quanto sangrar até morrer numa banheira morna, dá vontade de acreditar que eles finalmente acertaram. É um pouco da ousadia de um Mini combinado com a modernidade e a racionalidade de um Smart - só que melhor do que os dois.

Mais importante: ele chega no momento certo, está bem resolvido e foi concebido com brilho. Perto dele, o resto parece comprometido, datado e sem graça. E ele é caro de um jeito tranquilizador. Já está a lembrar do iPod?


Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário