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Salmões atlânticos expostos à cocaína e à benzoylecgonina em águas europeias

Peixes nadando em água clara sobre pedras com frascos e comprimidos promovendo poluição aquática.

Como se os salmões já não tivessem ameaças suficientes pela frente - sobrepesca, desreguladores endócrinos, aquecimento dos oceanos… Agora, eles também passaram a conviver com vestígios de cocaína no próprio habitat.

Depois do escândalo do mercúrio no atum, dá para dizer que 2026 não está exatamente a favor dos peixes. Pesquisadores da Universidade Griffith, na Austrália, e da Universidade Sueca de Ciências, relatam que salmões atlânticos (Salmo salar) em águas europeias estão expostos à cocaína e ao seu principal metabólito, em doses mensuráveis. A questão é: de onde isso vem?

Como a cocaína e a benzoylecgonina chegam aos rios e lagos

Segundo a ONU, o número de consumidores de cocaína continua crescendo: “estima-se que 25 milhões de pessoas usarão essa droga em 2023, contra 17 milhões em 2013”, informa a agência no Relatório Mundial sobre Drogas 2025. Após o consumo, a substância é processada no fígado e transformada em benzoylecgonina, o principal metabólito.

Em seguida, essa molécula é eliminada pela urina e entra nas redes de esgoto. O problema é que a maioria das estações de tratamento não foi projetada para reter esses micropoluentes.

Na prática, esses compostos acabam chegando a rios e lagos como traços cuja concentração varia conforme a urbanização e a capacidade local de tratamento. Diante disso, os dois grupos de pesquisa buscaram entender quais efeitos essa exposição tem sobre populações de salmões selvagens em condições naturais. Publicado em 20 de abril na revista Current Biology, o estudo identificou alterações comportamentais nos peixes expostos, consideradas preocupantes pelos autores.

Salmões sob influência

Para avaliar o impacto da exposição, os pesquisadores equiparam 105 salmões jovens com transmissores acústicos e um implante. O sistema foi programado para liberar lentamente, dependendo do grupo, cocaína, benzoylecgonina ou nada - neste último caso, o grupo controle.

As doses foram definidas a partir de concentrações medidas em cursos d’água urbanos contaminados onde os salmões viviam, para garantir que os efeitos observados refletissem o que ocorre no mundo real. Depois de instrumentados, os 105 indivíduos foram soltos no lago Vättern, na Suécia, e acompanhados por dois meses por meio das balizas acústicas.

Ao final do período, foi possível traçar um panorama do deslocamento dos peixes. Os salmões expostos à benzoylecgonina percorreram, em média, uma distância semanal 1,9 vez maior do que os salmões saudáveis e, depois de dois meses, estavam a cerca de 32 quilômetros do ponto de soltura - frente a 20 quilômetros entre os indivíduos não expostos.

Benzoylecgonina: um efeito mais persistente do que a própria cocaína

Entre os expostos à cocaína, a tendência também apareceu, porém com intensidade menor - o que surpreende do ponto de vista ecotoxicológico. Isso sugere que a benzoylecgonina provoca um impacto biológico mais duradouro e mais marcado do que a molécula original.

Em humanos, esse metabólito não passa de um subproduto da metabolização e não tem efeito psicotrópico, mas, nos peixes, parece interferir de forma mais agressiva com receptores neurológicos. “Nossas descobertas levantam novas questões sobre a capacidade de metabólitos serem, às vezes, tão perturbadores - ou até mais - do que a substância de origem para a fauna aquática”, disse Michael Bertram, coautor do estudo, ao 404media.

Para os autores, essa hiperatividade configura um perigo ecológico real: ao nadarem quase duas vezes mais, esses salmões consomem reservas de energia importantes para o crescimento e para a futura migração, além de se exporem com mais frequência a predadores. “O próximo passo é identificar os mecanismos pelos quais a cocaína e seu metabólito perturbam o comportamento e os deslocamentos dos peixes, testar se esse efeito se generaliza para outras espécies e usar um acompanhamento mais preciso para ver se essas mudanças afetam o risco de predação, a migração, a reprodução ou a sobrevivência”, acrescenta Bertram.

Existe risco para o ser humano?

Se o experimento com cerca de uma centena de indivíduos confirma o impacto de doses compatíveis com as encontradas no ambiente, é razoável supor que muitos outros salmões selvagens, especialmente os que vivem próximos a grandes cidades, já estejam passando por isso. Ainda assim, segundo os autores, eles não representam risco para consumo, porque os níveis de exposição ficam muito abaixo de qualquer limite toxicológico para humanos.

É um alívio bem limitado quando se lembra que o salmão atlântico já é classificado como espécie vulnerável, pressionada pelo aquecimento global e pela destruição de habitats. Em cascata, as mudanças de comportamento descritas pelos pesquisadores podem atingir outros animais que dependem do salmão para sobreviver.

Até a publicação deste trabalho, a benzoylecgonina não era vista como um desregulador ecológico em grande escala. Quantos outros compostos ainda estarão esperando nas águas que sequer foram analisadas? Potencialmente milhares, porque essa é uma marca do que se costuma chamar de poluentes emergentes: eles escapam dos controles sanitários tradicionais, em parte, porque ainda não sabemos exatamente o que procurar.

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