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Como o percevejo-assassino Pahabengkakia piliceps utiliza a resina vegetal para enganar as abelhas sem ferrão

Inseto preto com asas e antena longa segurando gota amarela próximo a um buraco em tronco com abelhas ao redor.

Às vezes, a “arma” mais eficiente de um predador não é veneno nem força - é cheiro. No caso de um percevejo-assassino, um material comum no ambiente vira isca, camuflagem e estratégia, num lembrete de que a inteligência na natureza não é exclusividade dos vertebrados.

Um inseto que coleta e ainda “trabalha” resina vegetal para capturar presas reforça a ideia de que provavelmente estamos subestimando o quanto os invertebrados conseguem ser espertos e adaptáveis.

O percevejo-assassino (Pahabengkakia piliceps), encontrado na Tailândia e na China, lambuza as pernas com resina de planta - mas não pelo motivo mais óbvio. O odor dessa seiva atrai a presa para o ponto ideal do ataque, aumentando bastante as chances de sucesso na caça.

“Demonstramos empiricamente como um predador invertebrado se adapta à defesa de colônia de insetos sociais por meio de um comportamento de uso de ferramenta”, escreve uma equipe de pesquisadores, liderada pelos entomólogos Zhaoyang Chen e Li Tian, da China Agricultural University, em um novo artigo.

“Nossas descobertas oferecem um novo modelo para estudar as funções adaptativas e os mecanismos subjacentes dos comportamentos de uso de ferramentas em animais.”

Nos últimos anos, tem ficado claro que o uso de ferramentas por animais não humanos provavelmente é mais comum do que se imaginava - e não fica restrito aos vertebrados.

Insetos como abelhas e formigas usam “ferramentas” para facilitar tarefas do dia a dia; e um estudo de 2023 sobre percevejos-assassinos na Austrália mostrou que esses invertebrados destemidos usam resina para ficar pegajosos, o que ajuda a capturar presas com mais eficiência.

Já o P. piliceps é outra espécie, em outra região do mundo, e com um estilo de vida bem mais especializado do que o dos percevejos-assassinos do Oeste da Austrália. Ele depende de uma presa bem específica: seis espécies de abelhas sem ferrão. Ele constrói seu próprio ninho perto das colmeias dessas abelhas e fica rondando a entrada para atacá-las.

Como essas abelhas têm ferrões degenerados, precisam improvisar na defesa. Elas recobrem a entrada da colmeia com gotinhas de resina; quando intrusos tentam entrar e ficam presos na resina, as abelhas guardas saem rápido para atacar e neutralizar a ameaça.

Então é assim que o P. piliceps age. Ele mergulha as pernas na resina deixada pelas operárias, aplicando uma camada uniforme nas pernas dianteiras e do meio. Em seguida, fica parado perto da entrada e captura a abelha guarda que corre para ver o que está acontecendo. Depois, o percevejo-assassino recua com a presa para um local seguro ali por perto.

A coisa fica ainda mais curiosa. Mesmo com resina espalhada por toda a entrada da colmeia, a abelha guarda vai direto (sem trocadilhos) no percevejo-assassino à espreita. Parecia haver mais alguma coisa em jogo.

Para entender isso, os pesquisadores fizeram experimentos de campo avaliando a “pegajosidade” da resina e qual era seu papel. Eles passaram resina das abelhas nas pernas traseiras e na parte de trás do corpo de alguns percevejos-assassinos e observaram o resultado.

Mesmo os percevejos com resina aplicada no “bumbum” e nas pernas traseiras - e não nas pernas usadas para agarrar - tiveram mais sucesso na caça do que os que não tinham resina alguma. Isso indicou que a pegajosidade explica só parte da predação bem-sucedida, ao contrário dos parentes australianos.

Aí os pesquisadores testaram outra hipótese. Eles suspeitaram que, quando a resina seca, libera compostos voláteis em menor taxa, e que ao espalhá-la nas pernas os percevejos aumentariam a liberação desses voláteis.

Chen e colegas colocaram resina em um ambiente ventilado e mediram a taxa de emissão antes e depois de ela ser espalhada. Como esperado, a taxa de emissão de voláteis aumentou após o “esfrega-esfrega”.

Isso sugere que, ao manipular a resina, os percevejos sinalizam às abelhas que há um problema e que elas precisam vir conferir. Só que, ao chegar, elas descobrem um problema maior.

Para os pesquisadores, isso configura uso de ferramenta.

“Para ser classificado como uso de ferramenta, um comportamento deve satisfazer três critérios:”, escrevem no artigo, “1) exercer controle sobre um objeto externo manipulável ligado de perto a um objetivo específico; 2) alterar as propriedades físicas do usuário ou de outro organismo por meio de uma interação mecânica dinâmica; ou 3) mediar o fluxo de informação entre o usuário e o ambiente ou outros organismos no ambiente.”

A aplicação da resina - um objeto externo - muda as propriedades físicas do corpo do percevejo-assassino para atingir um objetivo específico. Isso se encaixa nos critérios propostos. O interessante é que a forma de uso dessa “ferramenta” difere da maneira como os percevejos-assassinos australianos usam uma ferramenta muito parecida. A especialização de P. piliceps em abelhas pode influenciar isso, mas serão necessárias mais investigações.

“Embora o papel da especialização alimentar na evolução do uso de resina exija futuros estudos comparativos multi-espécies dentro de uma estrutura filogenética”, escrevem os pesquisadores, “este sistema de percevejo-assassino especializado em abelhas sem ferrão oferece um modelo valioso para investigar evolução adaptativa e comportamentos de uso de ferramentas, com menos restrições éticas do que estudos baseados em vertebrados.”

A pesquisa foi publicada na PNAS.

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