Estilo mais afiado e um chassi exemplar, mas com falhas técnicas que incomodam. Entre uma recarga difícil de prever e um preço que passa de 46 000 €, a nova Peugeot 308 elétrica consegue se impor diante de rivais mais baratos?
60, 61, 62… e acabou. 62 é a potência máxima, em quilowatts, que este carregador Ionity entregou na área da Réserve. Do outro lado do cabo estava a nova Peugeot 308 elétrica. Na prática, a compacta de Sochaux deveria aceitar até 100 kW em corrente contínua (DC). Só que ficamos, infelizmente, 40 kW abaixo do que a marca sugere. E a bateria estava longe de cheia (32 % ao chegar).
Daria para culpar o tempo, nada amistoso em meados de janeiro (chuva com temperatura abaixo de 5°C). Também seria possível dizer que a estação resolveu “acordar de mau humor” no começo do ano… Mas não dá para passar pano. 100 kW já é pouco, e a ausência de pré-condicionamento da bateria - algo difícil de aceitar em 2026 - piora a situação com toda a certeza.
Entre promessas e realidade : o mistério dos 100 kW da 308 elétrica
Oficialmente, a Peugeot fala em 32 minutos para ir de 20 a 80 %. É um número que pede paciência - ainda mais porque o cálculo é mesmo de 20 a 80 %, e não de 10 a 80 % como muita gente divulga. Nesse segundo cenário, a espera com certeza seria maior. Ainda bem que você não ficará condenado a pairar nos 60 kW o tempo todo, porque aí seria constrangedor.
Com a bateria já quente, uma segunda parada (também na Ionity) nos levou a… 109 kW, acima do que a 308 teoricamente deveria receber. Melhor errar para cima do que para baixo, claro. Mas isso mostra que o carro pode se comportar de forma bem imprevisível em carregadores rápidos - o que não tranquiliza. E a potência cai cedo, descendo para menos de 60 kW com 40 % de carga.
Um restylage audacioso: o Leão mostra novas garras
Ao menos no visual a Peugeot não escorregou. A ousadia aparece num redesenho de meio-ciclo que mexeu com a dianteira. Saem os “dentes”: a compacta passa a ter um rosto em dois níveis, com a parte superior dedicada às luzes diurnas em estilo “guirlanda” e a área inferior reservada ao farol principal. E, pela primeira vez, o escudo da marca fica retroiluminado.
A paleta ganha novas tonalidades, como o muito atraente Bleu Lagoa do nosso carro de teste. Já as rodas também mudam: todos os desenhos são inéditos, com diâmetros entre 16 e 18 polegadas. Atrás, a evolução é mais discreta, com a adoção mais ampla de lanternas de LED inclinadas e um emblema “308” redesenhado. Pronto: mudança feita.
250 km na autoestrada com a Peugeot 308: o teste real da bateria
A parte técnica também evolui - e ainda bem, porque a sochalienne nunca foi referência aqui. A bateria de íons de lítio cresce de 51 para 55,4 kWh úteis, o que ajuda na autonomia: 450 km contra 412 km antes. Em algumas situações, isso realmente dá uma folga, mas não resolve tudo.
Mesmo com consumo sob controle (20 kWh/100 km a 130 km/h em tempo frio), as paradas na autoestrada continuam frequentes: na prática, a pausa chega a cada 250 km, ou até menos se você se mantiver na faixa de 10-80 %. Em outras palavras, a nova bateria permite viajar com mais tranquilidade, mas não apaga a necessidade de parar para recarregar. E não confie cegamente no alcance indicado no painel: em alta velocidade, ele fica bem otimista.
i-Cockpit: um interior premium estragado por um software datado
Como ponto positivo, o painel da Peugeot 308 segue tão original quanto bem acabado. O desenho continua moderno, e os materiais mantêm o bom gosto do lançamento. São lembranças agradáveis, acompanhadas por uma ergonomia correta - ainda que o toque na tela siga usado demais. O display de 10 polegadas acaba sendo obrigatório para quase tudo.
Para piorar, a tela parece ter perdido rapidez. As animações, com “transições de PowerPoint” entre menus, ficam indecisas e pouco fluidas, sobretudo ao ligar o carro. Uma pena, porque o visual dos gráficos ainda está atual. Destaque especial para a resolução das câmaras 360°.
A rainha da estrada: o prazer de dirigir continua intacto
Na estrada, porém, é difícil tirar a 308 do sério. O equilíbrio entre conforto e comportamento dinâmico volta a ser excelente, com a dose certa de maciez e firmeza. A rolagem em curvas é bem controlada, e a dianteira gruda no asfalto como um gato agarrado ao novelo. No fim, dá até vontade de ter mais do que 156 ch para brincar.
O volante pequeno ainda reforça a sensação de agilidade, embora a direção não seja a mais rápida do segmento. Ao mesmo tempo, os amortecedores fazem bem o trabalho, ainda que as respostas fiquem um pouco secas em baixa velocidade. O isolamento acústico ajuda, com vidros dianteiros laminados a partir da versão GT. Na cidade, o carro é fácil de manobrar, mas não há modo One Pedal.
Habitabilidade : por que você vai evitar o banco traseiro
Atrás, nada muda: a 308 continua abaixo da média da categoria. A largura na altura dos cotovelos é contida, e o espaço para as pernas é realmente apertado. O assento também não fica alto o suficiente, o que reduz o apoio das coxas. Pessoas comuns, desaconselhadas; jogadores de basquete, proibidos.
Quem der azar e pegar o lugar do meio ainda enfrenta um túnel que rouba espaço para os pés, além de um encosto bem duro. Em compensação, há entradas USB e um espaço para a cabeça aceitável. O porta-malas, por sua vez, segue entre os bons do segmento, levando até 361 l nesta versão elétrica (412 l na híbrida e 312 l na híbrida plug-in).
46 350 € ou o preço de uma Tesla: a 308 elétrica é cara demais?
Por 42 600 €, daria para comprar ótimos presentes… ou uma 308 elétrica. Mas isso faz dela um bom “presente”? Sem suspense: mesmo a versão de entrada já começa alto demais pelo que entrega. Todas as concorrentes diretas (Volkswagen ID.3, Cupra Born, Renault Mégane, MG4…) custam menos e oferecem mais versatilidade.
No nosso caso, a GT eleva a conta para 46 350 €. Nessa faixa, é fácil achar modelos de categoria superior, como a Tesla Model 3 por 44 900 €, com… 750 km de autonomia e um planeador bem acertado. Porque sim: a francesa também não traz qualquer planeador integrado ao GPS. Em resumo, a não ser que você seja apaixonado pelo Leão e um defensor convicto do made in France, defender a escolha da 308 elétrica é complicado. Em híbrida, talvez.
Nossa opinião sobre a nova Peugeot 308 elétrica
A Peugeot 308 elétrica torna as viagens longas desnecessariamente mais difíceis, e o tempo perdido em carregadores leva à pergunta inevitável: qual é o sentido desta versão, que é a mais cara da gama? Dá para gostar da suavidade da tração elétrica, mas sobra pouco além disso.
O desempenho não impressiona, o banco traseiro é apertado e a interface sofre com lentidões que lembram as da recarga. Para ver o lado bom: comportamento dinâmico, conforto e qualidade de acabamento são pontos fortes… que também existem nas versões híbridas, mais baratas. Você já sabe para qual configuração tender antes de assinar.
Peugeot e-308 GT
46 350 €
Veredito
6.5/10
6.5
Do que gostamos
- O equilíbrio entre conforto e comportamento dinâmico
- A qualidade de acabamento sólida
- Consumo controlado
Do que gostamos menos
- Recarga rápida ainda mal resolvida
- Infotenimento que precisa de ajuste fino
- Habitabilidade traseira limitada
- Desempenho fraco
- Preço alto demais
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário