Após a apresentação do balanço do mercado automóvel português da ACAP - Associação Automóvel de Portugal - referente a 2025, a entidade apontou uma série de alertas sobre a direção do setor no país.
Recordes de vendas e críticas da ACAP em 2025
Mesmo com resultados históricos - 225 039 automóveis comercializados, o que representa um avanço de 7,3% em relação ao ano anterior - a associação deixa claro que não está satisfeita. Para Sérgio Ribeiro, presidente da ACAP, continua existindo um “descompasso contínuo (desencontro)” entre as metas definidas por decisores políticos e o que, de fato, é colocado em prática.
Na visão da ACAP, enquanto Bruxelas e Lisboa promovem a eletrificação da frota, os mecanismos fiscais e a capacidade logística disponíveis acabam, na prática, funcionando como obstáculos para essa transição.
“Continuamos rodeados de impostos por todo o lado”, lamenta o responsável, acrescentando que Portugal se mantém como o “caixote do lixo da Europa”.
Importação de usados e envelhecimento da frota
A crítica recai principalmente sobre a escalada na importação de veículos usados - em sua maioria a gasolina e diesel - que seguem entrando no país em grande volume. Em 2025, foi estabelecido um novo recorde: mais de 120 mil usados importados, reforçando uma frota mais envelhecida e com maior impacto poluente.
“A falta de ação do Governo preocupa-nos muitíssimo. A indústria automóvel tem feito a sua parte, ao contrário do Governo português”, sublinha.
Descumprimento do Governo
Outro tema considerado especialmente sensível no balanço é o suposto descumprimento de compromissos assumidos pelo Executivo. Sérgio Ribeiro menciona o caso da Tributação Autónoma, cuja redução de 20% até 2028 teria sido prometida, mas não apareceu refletida no mais recente Orçamento do Estado.
No setor, cresce a impressão de que as empresas - que são as principais responsáveis pela renovação da frota e pela aposta na eletrificação - estão sendo tratadas como a “galinha dos ovos de ouro”, sem o alívio fiscal prometido que ajudaria a ampliar o investimento em veículos mais eficientes. Para a ACAP, a falta de previsibilidade política é, hoje, o maior freio ao desenvolvimento do mercado, já que a indústria demonstrou capacidade de oferecer modelos tecnologicamente avançados e ambientalmente mais sustentáveis.
Mais do que a rede de carregamento - na qual Portugal conta com cerca de 1,1 postos por mil habitantes, diante de uma média europeia de 2,0 - o ponto que mais inquieta a associação é a incerteza regulatória. O presidente da ACAP classifica o atual pacote legislativo europeu como “hiperconfuso” e alerta que a falta de clareza sobre as medidas concretas está alimentando instabilidade no mercado.
“As medidas em concreto continuam a não ser devidamente clarificadas. É muito mais do que os valores residuais, esta incerteza para nós é algo que é muitíssimo mais preocupante”, concluiu.
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