O efeito foi quase instantâneo. Pouco depois de começar o conflito entre EUA, Israel e Irã - e, principalmente, com o fechamento do Estreito de Ormuz - os preços dos combustíveis passaram a incorporar a alta das cotações internacionais do petróleo.
A guerra começou em um sábado, 28 de fevereiro, e, cerca de uma semana e meia depois, o preço médio do gasóleo simples em Portugal saltava de 1,635 €/l para 1,817 €/l. A gasolina simples também ficou mais cara, mas em menor magnitude: de 1,705 €/l para 1,776 €/l. As razões por trás da subida vertiginosa do gasóleo em relação à gasolina também foram explicadas na época - leia ou releia o artigo: https://www.razaoautomovel.com/noticias/analise-gasoleo-sobe-tres-vezes-mais-que-gasolina-entenda-razoes/.
A escalada não parou por aí. Em abril, o gasóleo chegou a um preço médio máximo de 2,145 euros por litro, enquanto a gasolina atingiu 2,024 euros por litro em maio. Desde o começo de junho, com a redução das tensões e a reabertura do Estreito, a trajetória passou a ser de queda - mas os valores ainda seguem acima dos registrados antes do conflito.

© Engin Akyurt / Unsplash - O preço do gasóleo permaneceu acima do da gasolina até meados de maio.
Nesta segunda-feira, 6 de julho, o preço médio do gasóleo estava em 1,782 €/l e o da gasolina em 1,888 €/l, ambos em alta em relação à semana anterior. São níveis que continuam bem superiores aos do período pré-conflito, apesar de o Brent (referência na Europa) já ter recuado para uma faixa equivalente à de antes da guerra.
Antes do conflito, o Brent era negociado por volta de 72 dólares. Com a evolução do confronto, chegou a ultrapassar 110 dólares entre abril e maio. Desde a semana passada, após a assinatura do memorando de entendimento entre EUA e Irã, o Brent voltou a ser negociado abaixo de 70 dólares.
Se o petróleo já voltou aos patamares anteriores, por que os combustíveis seguem significativamente mais caros e ainda subiram nesta semana?
Múltiplas razões
A explicação não é tão simples quanto parece e vai além do preço do barril. Embora a queda rápida do Brent - mais acelerada do que muitos analistas previam - esteja ligada, em parte, à “inundação” do mercado com cerca de 90 milhões de barris que teriam ficado acumulados em petroleiros impedidos de atravessar o Estreito de Ormuz, segundo analistas da Kpler e da Vortexa.
Diferenças entre barril, crude e Brent
O barril é a unidade de medida internacional usada pela indústria do petróleo; crude é o nome genérico do petróleo bruto, como ele é extraído diretamente do subsolo. Brent é um tipo específico de crude de alta qualidade, produzido no Mar do Norte (entre Noruega e Reino Unido), cujo preço funciona como referência. Nem todo o petróleo usado em Portugal é Brent - trata-se de um valor de referência.
Momento em que o barril foi comprado. Mesmo com o Brent já de volta aos níveis pré-conflito, o petróleo que chega hoje às refinarias foi adquirido há semanas ou meses. Por isso, há um descompasso natural entre a evolução das cotações e o que aparece no preço final.
Ainda assim, é comum que, quando o Brent sobe, o valor pago na bomba pareça reagir quase imediatamente - algo que não costuma ocorrer com a mesma velocidade quando o Brent cai. A diferença é relativamente simples: quando o Brent aumenta, compradores tendem a se proteger de custos futuros, como aponta este estudo da EPRINC (Energy Policy Research Foundation).
Cadeia de abastecimento. O fluxo de petroleiros passando pelo Oriente Médio segue abaixo do nível observado antes da guerra. Isso força muitos operadores a usar rotas mais longas ou a administrar seus stocks com mais cautela. Soma-se a isso o tempo necessário para levar o crude às refinarias, convertê-lo em gasolina e gasóleo e, depois, distribuir o produto aos postos.
Leitura relacionada
- Gasóleo a gasolina voltam a subir. Estes são os preços - “A semana arranca com novos aumentos no preço dos combustíveis. Consulte os preços médios do gasóleo e da gasolina.” (Mariana Teles) - https://www.razaoautomovel.com/noticias/preco-combustiveis-semana-28-2026/
Reposição dos stocks. A ENSE (Entidade Nacional para o Setor Energético) afirma que há menos combustível refinado disponível no mercado do que o necessário. Assim, o preço do produto final pode subir mesmo com a matéria-prima mais barata.
Postos não compram petróleo, e sim gasolina e gasóleo já refinados. Este continua sendo o ponto de maior pressão. A ENSE também confirmou que uma parcela relevante das refinarias europeias ainda está processando petróleo comprado quando as cotações estavam bem mais altas, o que posterga a queda de preços para o consumidor.
Mesmo com a baixa do petróleo, as cotações internacionais dos combustíveis refinados continuam cerca de 15 a 20 cêntimos por litro acima dos níveis anteriores, refletindo custos adicionais de produção, transporte e logística. Enquanto esses valores não voltarem ao patamar prévio, é difícil ver uma redução expressiva nos postos.
USADOS
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Taxa de câmbio. Como o petróleo é negociado internacionalmente em dólares, o custo de importação para empresas europeias depende não apenas da cotação do Brent, mas também da relação dólar/euro. Mesmo que a moeda europeia venha se recuperando e ganhando valor nos últimos meses - o que, em tese, reduz o custo do barril quando convertido para euros -, o mercado opera com base em contratos futuros fechados com semanas ou meses de antecedência.
Além disso, oscilações diárias pequenas e a volatilidade de curto prazo no câmbio acabam influenciando os preços, impedindo que a valorização mais ampla do euro se traduza de forma imediata (ou integral) em alívio para quem abastece.
Dependência europeia do Oriente Médio. Ainda que a Europa importe petróleo de diversas regiões, uma parte relevante do crude e dos produtos refinados (em especial o gasóleo) segue vindo daquela área. Sempre que há perturbações em rotas marítimas centrais - como ocorreu durante o conflito -, o impacto se espalha por toda a logística.
O desconto do ISP
Em Portugal, uma parcela relevante do preço pago pelo consumidor corresponde ao ISP (Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos), ao IVA e a outros encargos - praticamente metade do valor total desembolsado vai para impostos -, que variam muito pouco independentemente do que acontece com o preço do petróleo.
Diante da disparada causada pelo conflito, o Governo voltou a recorrer ao desconto extraordinário no ISP (Imposto sobre Produtos Petrolíferos e Energéticos), em vigor desde o início de março. A lógica é a de um amortecedor: quando os preços caem, o desconto no ISP também diminui, limitando a queda percebida pelo consumidor; quando os preços sobem, o desconto é reforçado, ajudando a suavizar o aumento nas bombas.
Leitura relacionada
- Governo vai acabar com desconto no ISP e combustíveis podem subir - “Governo admite acabar com desconto no ISP quando os mercados estabilizarem, abrindo caminho a uma eventual subida dos combustíveis.” (Mariana Teles) - https://www.razaoautomovel.com/noticias/preco-dos-combustiveis-desconto-isp-medio-oriente-apoios-2026/
Essa redução extraordinária do ISP se soma à que existe desde 2022, criada para atenuar o impacto da alta dos combustíveis após a invasão da Ucrânia pela Rússia. O mecanismo corta parcialmente o imposto aplicado à gasolina e ao gasóleo e vem sendo ajustado progressivamente, acompanhando o movimento dos preços.
Quando vai voltar ao normal?
Segundo analistas, o preço dos combustíveis só deve recuar quando a relação entre fluxo e cotação se normalizar - algo que, na visão deles, pode levar dois a três meses. Além disso, como o mercado nacional é liberalizado, o preço dos combustíveis segue sendo definido pelas gasolineiras.
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Autoria
Mariana Teles - O universo das “quatro rodas” entrou na sua vida por intermédio da Razão Automóvel. É a sua primeira volta no jornalismo e promete não parar.
LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/marianagteles/
Tags: Brent, Preço dos Combustíveis
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