Muito antes de alguém se apaixonar, já começa a ser construída a base de como essa pessoa vai agir dentro de um relacionamento. Grande parte dessa aprendizagem acontece em casa, nos anos em que a criança descobre, na prática, o que é sentir segurança e cuidado.
Uma pesquisa recente da Universidade da Geórgia indica que essa fase inicial pode repercutir muito além da infância. O estudo concluiu que eventos traumáticos vividos quando criança podem influenciar, décadas depois, a forma como alguém trata o(a) parceiro(a) amoroso(a).
Essa ligação nem sempre é evidente. Em geral, ela aparece de maneira silenciosa, por meio do humor e de hábitos cotidianos - caminhos que muitos casais raramente associam às próprias experiências infantis.
Trauma na infância afeta relacionamentos
As chamadas experiências adversas na infância abrangem situações bem diferentes entre si. Entram nessa lista abuso, negligência, divórcio e a morte de um dos pais.
Segundo o estudo, vivências desse tipo aumentam a probabilidade de depressão e ansiedade na vida adulta.
Para os pesquisadores, esse peso emocional costuma transbordar para a vida a dois, deixando os relacionamentos mais frágeis e menos satisfatórios.
Pequenos hábitos constroem relacionamentos mais fortes
“Investir em um relacionamento com ações do dia a dia é como colocar dinheiro em uma conta bancária”, disse Analisa Arroyo, autora principal do estudo.
“Essas pequenas coisas que fazemos diariamente constroem confiança, conexão e apoio ao longo do tempo. Quando não acumulamos essas reservas, é como não ter dinheiro suficiente quando o carro quebra. Você fica sem saída.”
“Se não estamos investindo no nosso relacionamento e, então, enfrentamos stress, conflito ou outros desafios, podemos não ter o que precisamos para atravessar aquele momento.”
Ainda assim, há um ponto de esperança: habilidades melhores de comunicação, desenvolvidas em conjunto pelo casal, podem reduzir parte do impacto.
Respostas de 200 casais
A equipa analisou respostas de mais de 200 casais adultos que participavam do programa ELEVATE da UGA. Trata-se de um programa gratuito de educação para relacionamentos, conduzido pelo Serviço de Extensão Cooperativa da Universidade da Geórgia.
Os dois integrantes de cada casal responderam perguntas sobre momentos difíceis vividos na infância, até os 18 anos. Também indicaram quantas experiências traumáticas tinham atravessado.
Avaliar os dois parceiros em cada relação foi essencial. Isso permitiu aos pesquisadores observar como a história de um deles “atravessava” o casal e também afetava a outra pessoa.
A infância molda os relacionamentos
Quem relatou um número maior de incidentes adversos carregou mais consequências para a vida adulta.
Situações como ter um pai ou uma mãe que gritava ou empurrava com frequência, ou períodos em que faltou comida, surgiram anos depois na forma de solidão, depressão e ansiedade.
Esse prejuízo tende a acumular-se aos poucos. Raramente ele se anuncia de modo explícito - e isso ajuda a explicar por que pode passar despercebido.
“A adversidade na infância cria um tipo de desgaste que muitas vezes não é notado no dia a dia. Com o tempo, esse stress crónico pode afetar não apenas o nosso próprio bem-estar, mas também a saúde dos nossos relacionamentos”, disse Arroyo.
Habilidades diárias do casal ficam prejudicadas
Essas mesmas pessoas também mostraram mais dificuldade com o trabalho comum de ser parceiro(a). Conversas corriqueiras pareciam mais difíceis. Demonstrar afeto e lidar com conflitos também.
“Quando os casais enfrentam problemas no relacionamento, é fácil focar apenas no que está a acontecer no momento, como a forma como comunicam, lidam com desacordos ou interagem entre si”, disse Evin Richardson, coautor do estudo.
“Mas a nossa pesquisa sugere que, para muitas pessoas, esses desafios podem ter raízes mais profundas. Entender essas ligações pode ajudar casais e profissionais a tratar as questões subjacentes, e não apenas os sintomas, que afetam o bem-estar do relacionamento.”
Pequenos hábitos diários são os que mais contam
Quando comportamentos saudáveis enfraquecem, a qualidade do relacionamento costuma cair junto. Casais que não conseguiam comunicar-se bem, ou que não se sentiam apoiados, relataram ser menos felizes no conjunto.
A solução não depende de gestos grandiosos. O que faz diferença são instantes pequenos e repetidos, que se acumulam com o tempo.
“Não são apenas as grandes conversas, os grandes conflitos ou os momentos de coração aberto que importam. São as interações realmente pequenas do dia a dia que nos preparam para esses momentos maiores e mais difíceis, quando eles surgem”, disse Arroyo.
“Nós percebemos o nosso parceiro quando ele entra pela porta ou fala? Nós respondemos ou estamos a ignorá-lo?”
O género muda como o trauma se espalha
Os efeitos não chegaram do mesmo modo para todas as pessoas. Mulheres que relataram mais experiências adversas tiveram maior probabilidade de desenvolver dificuldades de saúde mental, que depois se refletiram no relacionamento.
Para essas mulheres, a pressão aparecia em dose dupla. Elas relataram menor satisfação com a relação, e os seus parceiros também.
Com os homens, o percurso foi diferente. Quando eles associaram depressão ou ansiedade ao trauma na infância, isso alterou apenas a visão que eles próprios tinham do relacionamento - e não a do(a) parceiro(a).
Entender a infância ajuda os relacionamentos
“Não podemos mudar as nossas experiências na infância”, disse Arroyo.
“Mas podemos compreender como elas continuam a influenciar-nos. Essa consciência dá aos casais a oportunidade de apoiar-se e construir, juntos, padrões de relacionamento mais saudáveis.”
É desse tipo de consciência que a mudança costuma partir: ela desloca o foco da culpa no momento para as causas mais profundas por trás do que acontece.
Habilidades saudáveis podem ser aprendidas
Segundo os pesquisadores, os casais podem treinar esses comportamentos do quotidiano por meio de terapia de casal ou de programas de educação para relacionamentos. Isso tende a elevar a qualidade da relação como um todo.
O ganho é mútuo: um relacionamento sólido pode ajudar cada parceiro(a) a lidar melhor e a cicatrizar feridas antigas.
“Os casais podem, sem dúvida, fortalecer os seus relacionamentos ao aprender e praticar habilidades saudáveis de relacionamento, especialmente quando ambos estão comprometidos com o crescimento”, disse Richardson.
Pessoas que passaram por trauma grave ou stress prolongado podem beneficiar-se de aconselhamento psicológico ou terapia. Isso pode ajudá-las a entender como o passado afeta os seus relacionamentos e a aprender formas mais saudáveis de se conectar com outras pessoas.
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