Passei 3 meses com o Galaxy Z Fold7, o mais novo smartphone dobrável da Samsung. Para muita gente que acompanha o tema, ele representa o que há de mais avançado nessa categoria. Ainda assim, nem ele conseguiu me fazer gostar de verdade desse formato tão específico.
Seis anos atrás, eu conhecia o Galaxy Fold, o primeiro dobrável realmente voltado ao grande público. No MWC de Barcelona, a Samsung apresentava aquilo que muitos viam como o futuro do smartphone. A ideia parecia simples e irresistível: um telefone que, ao ser aberto, vira um tablet. Um sonho para geeks e para quem vive buscando produtividade. Como era de esperar, os críticos destacaram as limitações do hardware: fragilidade, vinco muito aparente, câmera aquém do esperado, autonomia modesta - e tudo isso por um preço nas alturas.
É verdade que o Galaxy Fold tinha muito de vitrine tecnológica. De lá para cá, a Samsung refinou bastante a fórmula. Com o Galaxy Z Fold7, ela consegue eliminar a maior parte dos problemas associados ao formato. Fechado, o Z Fold7 ficou tão fino quanto um smartphone convencional; o vinco quase não aparece; a câmera evoluiu; e a autonomia também avançou.
A maioria esmagadora de testadores e observadores crava que o Galaxy Z Fold7 é o melhor smartphone dobrável da história. Não é uma opinião que eu compartilhe: meu favorito continua sendo o excepcional Honor Magic V5 (mais resistente no uso, câmera melhor, mais fino e com um formato mais confortável na mão). Mas, já que colegas e especialistas foram nessa direção, decidi usar o Galaxy Z Fold7 como meu aparelho principal por 3 meses.
O motivo é simples: até aqui, eu nunca consegui passar de um mês usando um dobrável. Depois desse período, o formato, as limitações técnicas e a falta de uma funcionalidade realmente indispensável sempre me empurraram de volta para um modelo tradicional. Só que, como o Z Fold7 parecia muito perto da perfeição, eu resolvi tentar de novo - desta vez por 3 meses.
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O smartphone dobrável é caro demais?
Antes de entrar na minha experiência pessoal, vale entender por que os smartphones dobráveis seguem impopulares. Em 2025, mesmo após 6 anos de existência, esse formato ainda luta para encontrar o seu público. Segundo a IDC, os embarques globais de dobráveis passaram de 1 milhão de unidades em 2019 para 25 milhões em 2024. Em números absolutos, o salto é enorme - mas ele esconde um cenário bem menos animador. Em comparação aos 1,24 bilhão de smartphones vendidos no mundo no ano passado, essas vendas representam apenas 2% do mercado. Na Europa, a fatia cai para 1% quando falamos dos modelos em formato “livro”, de acordo com a Counterpoint Research.
Para as fabricantes, há um sinal ainda mais incômodo: depois de cinco anos crescendo acima de 40% ao ano, o segmento perdeu fôlego. A DSCC chegou a projetar uma queda de 4% nos pedidos de painéis dobráveis em 2025, com a demanda estacionando em torno de 22 milhões de unidades. E isso mesmo com a chegada do primeiro iPhone dobrável no fim do ano (ao menos se os rumores estiverem corretos). Seis anos depois do lançamento com grande alarde, o smartphone dobrável segue sendo, portanto, um nicho - sustentado por um público mais iniciado.
Entre as reclamações mais comuns dos consumidores, o preço continua sendo o principal obstáculo à compra. E faz sentido: as marcas prometeram reduzir valores ao longo de cinco anos para popularizar o segmento. O que aconteceu foi o oposto. Seis anos após o primeiro Galaxy Fold, o Z Fold7 custa ainda mais do que o antecessor. Seria razoável esperar opções mais acessíveis, com tecnologias menos ambiciosas. Mas, de novo, os players preferiram evitar riscos em um contexto em que o mercado de telefonia, no geral, desacelerou em volume de vendas desde o fim da Covid.
Por outro lado, o mercado segue crescendo em valor. Na prática, as pessoas trocam de smartphone com menos frequência, mas aceitam gastar mais quando trocam. Na França, segundo a GfK, o orçamento médio foi de 370 euros em 2017 para 487 euros em 2023. Para 2025, o instituto projeta uma leve queda, para algo em torno de 450 euros.
Esse número precisa ser lido com cautela, porque os preços dos smartphones também subiram muito. Em 2017, o iPhone mais caro era o iPhone X, lançado para celebrar os 10 anos desse produto icônico. A versão mais cara custava 1 329 euros. Em 2025, o iPhone mais caro é o iPhone 17 Pro Max (na versão de 2 TB), vendido por 2 479 euros - quase 500 euros a mais do que o Galaxy Z Fold7 no lançamento. E ele deve perder o posto em breve para o primeiro iPhone dobrável, cujo preço de entrada ficaria (segundo rumores) perto de 2 800 euros! A escalada de preços, especialmente nos modelos premium, é impressionante.
Com etiqueta de 2 000 euros, o Galaxy Z Fold7 é, por enquanto, o smartphone dobrável mais caro do mercado. Ao pagar esse tipo de valor, é natural exigir o melhor - e por bastante tempo. Os smartphones tradicionais já provaram que conseguem entregar esse nível de exigência. Os dobráveis, por sua vez, depois do efeito uau, ainda têm dificuldade para se encaixar de verdade no dia a dia. Mas por quê?
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Uau, ele dobra! E depois?
Não dá para negar: os engenheiros da Samsung entregaram um dos dobráveis mais maduros do mercado. Eles conseguiram suavizar os principais pontos de atrito desse formato (não todos - volto nisso mais adiante) para deixá-lo mais confortável no uso diário. Com 215 gramas na balança, ele é mais leve do que um Galaxy S25 Ultra (218 g) ou um iPhone 17 Pro Max (227 g). A dobradiça foi reforçada, o que traz dois benefícios: o vinco fica menos perceptível (visualmente e ao toque) e o aparelho aparenta ser mais resistente.
As telas interna e externa estão melhores do que nunca, graças ao domínio da Samsung Display. Isso muda a experiência multimídia (vídeo, jogos), que ganha outra escala. Eu realmente curti assistir a uma série, ler um e-book, acompanhar um artigo (no Presse-citron, claro) ou jogar na tela interna. E ter um “mini-tablet” que cabe no bolso também ajuda a trabalhar com um conforto difícil de alcançar em um smartphone comum.
Mesmo assim, raramente me senti tão frustrado quanto no uso diário do Galaxy Z Fold7. O primeiro motivo é que a tela externa, muito vertical, ainda não entrega uma experiência de telefone realmente agradável. O Z Fold7 continua sendo um tablet que se dobra - e não um smartphone que se abre. Para tarefas rápidas, eu me vi limitado: escrever mensagens vira um festival de erros de digitação (e eu nem tenho dedos grandes), rolar redes sociais é menos confortável e, de forma geral, navegar pela interface fica apertado. A ergonomia do Z Fold7, quando ele está no “modo smartphone”, ainda precisa de ajustes.
Além disso, a Samsung fez escolhas curiosas quando o assunto é produtividade. Eu sinceramente não entendo o que levou a marca a não tornar o aparelho compatível com uma caneta. Um acessório assim na tela interna teria ajudado muito em tarefas como edição de fotos e anotações, entre outras.
Também me incomoda que, depois de tantos anos, o segmento ainda não tenha encontrado recursos que mudem o jogo. A killer feature dos smartphones dobráveis continua sem aparecer. E um grande telefone depende, acima de tudo, de software. Sem usos realmente diferenciados, o Z Fold7 acaba sendo “apenas” um smartphone que pode ficar maior para melhorar o conforto visual. E só.
Essa falta de diferenciais esbarra em outra realidade (bem dura): tecnicamente, o Galaxy Z Fold7 não acompanha os melhores smartphones do mercado. Em foto? Não vai além do que um topo de linha de dois anos atrás. Em bateria? Mal passa de um dia - desde que você não use demais a tela interna. Em desempenho? É ótimo, mas o aparelho esquenta muito rápido. Em carregamento? É lento.
Somando todos esses atritos, a experiência às vezes fica trabalhosa. Ao investir 2000 euros, é legítimo esperar o nec plus ultra. E, apesar das qualidades, esse não é o caso do Galaxy Z Fold7. O preço também traz uma preocupação extra com durabilidade: eu teria muita dificuldade em aceitar que um simples grão de areia na mecânica da dobradiça tornasse meu telefone inutilizável.
A força do hábito
Deixando um pouco de lado os aspectos técnicos e de preço, existe uma explicação ainda mais profunda para a dificuldade dos dobráveis conquistarem o grande público: a força do hábito. Há quinze anos, bilhões de pessoas incorporaram o padrão “retângulo de vidro com tela sensível ao toque” aos seus gestos diários. Tirar o telefone do bolso, destravar com o polegar, digitar uma mensagem, guardar o aparelho: são microações repetidas dezenas de vezes por dia, até se tornarem automáticas.
Em 2009, pesquisadores da University College London fizeram um experimento para medir quanto tempo leva para consolidar um novo hábito. Durante doze semanas, 96 participantes tentaram adotar um comportamento diário (beber um copo d’água ao acordar, correr quinze minutos após o jantar, comer uma fruta em cada refeição).
Os resultados, publicados no European Journal of Social Psychology, derrubaram o mito de “21 dias para mudar um hábito”. Na prática, o tempo necessário varia muito de pessoa para pessoa: de 18 dias para ações mais simples a 254 dias para as mais complexas, com média de 66 dias. Alguns participantes, inclusive, ainda não tinham automatizado o novo comportamento ao final dos três meses. Meus 90 dias de teste, portanto, poderiam ter sido suficientes para mudar meus hábitos. O problema é que os atritos do dia a dia com o Z Fold7 provavelmente esgotaram minha paciência antes que isso acontecesse.
Olhando pela lente da neurociência, dá para entender melhor: esses hábitos são administrados por estruturas cerebrais profundas (como o estriado e o núcleo caudado), que operam em modo de piloto automático. Isso é excelente para economizar recursos cognitivos, mas tem um preço: o sistema resiste a mudanças. Um hábito bem consolidado pode persistir mesmo quando estamos motivados a abandoná-lo. É uma das razões pelas quais tantas boas resoluções fracassam, por que dietas são tão difíceis - e por que eu simplesmente não consigo adotar o formato dobrável, apesar do meu interesse por essa tecnologia.
No marketing, esse tipo de produto costuma ser chamado de “inovações resistentes”. Em um estudo de referência, os pesquisadores Ram e Sheth usam essa expressão para descrever inovações que exigem que consumidores mudem de forma significativa seus comportamentos, crenças ou rotinas. Segundo eles, a principal fonte de resistência não é o preço - nem necessariamente a qualidade -, mas o nível de descontinuidade que a inovação impõe ao cotidiano. Quanto maior a mudança exigida, mais lenta e difícil tende a ser a adoção.
A própria história da tecnologia de consumo confirma essa leitura. A lava-louças, inventada no fim do século XIX, só virou comum nas casas a partir dos anos 1970. O forno de micro-ondas, vendido desde 1947, ficou estagnado por trinta anos antes de se tornar um item corriqueiro. Os caixas eletrônicos, introduzidos no fim dos anos 1960 nos Estados Unidos e no Reino Unido, levaram quase duas décadas para se consolidar.
O smartphone dobrável parece seguir exatamente esse roteiro. Seis anos após o primeiro Galaxy Fold, o segmento ainda é dominado por tecnófilos com alto poder aquisitivo, dispostos a pagar 2 000 euros para experimentar o “futuro” da telefonia móvel. Já o grande público observa à distância, talvez esperando que uma funcionalidade realmente revolucionária finalmente justifique mexer nos seus hábitos.
Para convencer milhões de usuários a alterar gestos repetidos dezenas de vezes por dia há quinze anos, seria necessário oferecer um benefício proporcional ao esforço exigido. No estágio atual, o smartphone dobrável não entrega isso. Uma tela maior para ver vídeos ou trabalhar com dois apps ao mesmo tempo? É agradável, sim - mas não é indispensável.
O futuro iPhone dobrável será o modelo que, enfim, vai popularizar esse formato? Para a Apple, a pressão é enorme. Porque, se nem a marca que revolucionou o mercado de telefonia conseguir fazer a gente gostar do smartphone dobrável, então quem vai conseguir?
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