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A história do polvo azul Microeledone galapagensis nas Ilhas Galápagos

Polvo azul em aquário de vidro sobre mesa com computador e anotações de estudo ao fundo.

As profundezas do oceano continuam a guardar inúmeros segredos - até mesmo em áreas estudadas há décadas por cientistas, como as Ilhas Galápagos. Ainda hoje, equipas de pesquisa encontram animais que ninguém tinha observado antes. Algumas descobertas são divulgadas rapidamente; outras levam anos para serem confirmadas com rigor.

Um exemplo disso é um minúsculo polvo de azul intenso que demorou mais de uma década para receber um nome formal. Ele foi avistado pela primeira vez durante uma expedição de mar profundo em 2015, nas proximidades da Ilha Darwin, nas Galápagos.

Naquele momento, ninguém suspeitou que se tratava de uma espécie totalmente inédita. Mais tarde, a descoberta deixou de ser apenas a curiosidade de um animal estranho.

Ela também expôs como a investigação em grandes profundidades é complexa e reforçou o quanto do oceano segue por explorar.

Descobrindo Microeledone galapagensis

A reação inicial do grupo de investigação foi de espanto.

A bordo do E/V Nautilus, cientistas operavam um veículo operado remotamente quando as câmaras registaram um pequeno polvo azul repousando no fundo do mar perto das Ilhas Galápagos.

A equipa recolheu o animal de imediato e levou-o à superfície para uma análise mais atenta. Ficou claro que ele parecia fora do comum, mas não era possível afirmar se era uma espécie rara já conhecida ou algo completamente novo.

Essa dúvida é frequente em estudos de mar profundo: encontrar criaturas incomuns é uma coisa; demonstrar cientificamente que uma espécie é nova exige muito mais do que um avistamento marcante.

Salvaguardando uma nova espécie

Depois da expedição, o polvo foi encaminhado para a Estação de Pesquisa Charles Darwin. Lá, passou a integrar um conjunto de outros exemplares preservados de mar profundo obtidos durante a viagem.

Manter um espécime protegido, em geral, é a parte mais simples. A identificação correta costuma ser o verdadeiro desafio.

Especialistas em polvos de grandes profundidades são poucos, e nem sempre é rápido ligar o exemplar certo ao cientista certo - muitas vezes isso leva anos.

Enquanto peritos analisavam inúmeros outros animais marinhos recolhidos na expedição, o pequeno polvo azul aguardava. Mesmo assim, havia algo nele que chamava atenção.

À procura de especialistas

Salome Buglass, então investigadora na Fundação Charles Darwin, não conseguia tirar o pequeno polvo da cabeça.

“Quando estávamos a organizar dezenas de espécimes recolhidos durante a expedição, este minúsculo polvo azul fascinou-nos”, afirmou.

“Havia algo de invulgar nele, por isso fizemos um esforço extra para encontrar a pessoa certa para nos ajudar a identificar o que era.”

Essa pessoa era a investigadora de polvos Janet Voight, do Field Museum, em Chicago.

“Descobertas como esta lembram-nos o quanto do oceano profundo nas Galápagos permanece inexplorado. Cada nova espécie ajuda-nos a compreender melhor estes ecossistemas ocultos e por que motivo protegê-los é importante”, disse Buglass.

Especialista suspeita de uma nova espécie

Antes mesmo de o espécime chegar a Chicago, fotografias do polvo já tinham chegado à caixa de entrada de Voight - e a resposta foi imediata.

“De imediato, eu soube que era algo realmente especial. Eu nunca tinha visto nada parecido”, disse.

Voight dedica-se há quatro décadas ao estudo da evolução e da anatomia dos polvos. Pela experiência, percebeu que aquele pequeno animal azul não correspondia a nada descrito nos registos científicos.

Ainda assim, reconhecer que algo é diferente não é o mesmo que descrever oficialmente uma nova espécie. A taxonomia - a ciência de classificar organismos - exige uma análise anatómica extremamente minuciosa.

É preciso verificar estruturas escondidas no interior do corpo, incluindo o bico, as partes da boca e os dentes. Em condições normais, isso implica dissecar o animal.

Apenas um único exemplar

O dilema era simples e assustador: os cientistas tinham apenas um único espécime de Microeledone galapagensis.

“Quando se descreve uma nova espécie de polvo, é preciso olhar para todas as partes, incluindo a boca, o bico e os dentes. E, para ver essas coisas, é preciso abrir o espécime. Nós só tínhamos um espécime, então eu não queria desmontá-lo”, explicou Voight.

Destruir o único exemplo conhecido de uma espécie envolve riscos enormes. Se algo der errado durante a dissecação, informações valiosas podem desaparecer para sempre.

Durante anos, a investigação de organismos raros obrigou cientistas a tomar decisões difíceis desse tipo. Mas uma tecnologia de imagem mais recente abriu uma alternativa.

Tomografias computadorizadas estudam Microeledone galapagensis

A resposta veio do laboratório de tomografia computadorizada do Field Museum, sob a gestão de Stephanie Smith.

Equipamentos de microtomografia computadorizada (micro-CT) produzem imagens tridimensionais altamente detalhadas ao reunir milhares de “fatias” de raios X.

Assim, torna-se possível examinar a anatomia interna sem danificar fisicamente o exemplar.

Exames revelam anatomia escondida

“Como a imagem por tomografia computadorizada é não destrutiva, ela é especialmente importante para espécimes-tipo como este”, acrescentou Stephanie Smith.

“E isso é ótimo para mim, porque as pessoas muitas vezes trazem-me estes espécimes incrivelmente raros e deslumbrantemente bonitos, que eu tenho o privilégio de abrir virtualmente. Não há nada como passar o dia a olhar para algo que nenhum outro ser humano jamais viu.”

Em tomografias, tecidos moles costumam ser problemáticos, porque órgãos podem ficar desfocados sem corantes químicos específicos. O problema é que esses químicos podem danificar exemplares delicados - sobretudo quando são raros.

Felizmente, este polvo acabou por colaborar de forma inesperada.

O exame revelou tudo

Alexander Ziegler, da Universidade de Bonn, liderou o trabalho de imagem do estudo.

Para surpresa da equipa, o polvo apresentou um nível notável de detalhe interno sem precisar de tratamento químico agressivo.

“O que realmente me impressionou foi que o exame do pequeno polvo revelou tanta informação sobre os seus sistemas de órgãos internos - normalmente, a imagem de partes moles usando micro-CT exige o uso de agentes de contraste à base de metais pesados, cujo uso não seria desejável com um espécime tão raro”, disse Ziegler.

“Isso tornou a modelagem 3D de órgãos relevantes realmente uma tarefa fácil”, acrescentou Ziegler. Os investigadores conseguiram ver com clareza o bico, órgãos e outras estruturas necessárias para a classificação. E o polvo manteve-se completamente intacto.

Com esse conjunto de evidências, confirmou-se que o animal representava uma espécie inteiramente nova.

Batizando Microeledone galapagensis

Microeledone galapagensis entrou oficialmente no registo científico através de um artigo publicado na revista Zootaxa.

A espécie passa a integrar a longa lista de animais únicos das Galápagos que não existem em nenhum outro lugar do planeta. Além disso, os investigadores reviram as gravações da expedição original de 2015 e identificaram pelo menos mais dois polvos com aparência semelhante à espécie recém-descrita.

Ninguém sabe quantos outros poderão existir nas águas profundas ao redor das ilhas. Para Voight, a publicação teve um significado especial.

“Estes são pequenos polvos que vivem no mar profundo, e quase ninguém na Terra alguma vez teve a oportunidade de vê-los”, disse.

“Eu sinto-me simplesmente com sorte por ter podido trabalhar com eles. Se pegasse em toda a terra do planeta e a juntasse, não cobriria o Oceano Pacífico. Os oceanos são tão grandes, e ainda há tanto para explorar.”

Mar profundo ainda inexplorado

A trajetória de Microeledone galapagensis mostra como a descoberta científica muitas vezes acontece a um ritmo lento. Passaram-se mais de dez anos entre o primeiro momento em que humanos viram o animal e o instante em que a ciência lhe atribuiu um nome oficial.

Esse intervalo longo retrata a realidade da exploração atual: avanços dependem de paciência, colaboração, tecnologia e verificação cuidadosa.

Acima de tudo, a história reforça o quanto a humanidade ainda sabe pouco sobre o oceano profundo. Mesmo num dos ecossistemas mais famosos do mundo, um pequeno polvo azul conseguiu permanecer à vista - e ainda assim invisível - durante anos.


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