Em 2022, a NASA entrou para a história ao colidir de propósito uma nave espacial contra um asteroide, com o objetivo de verificar se seria possível modificar a órbita desse objeto em torno do seu companheiro maior.
Já se sabia que a missão Double Asteroid Redirection Test (DART) tinha sido um sucesso enorme: o período orbital do par de asteroides Didymos e Dimorphos diminuiu em impressionantes 33 minutos.
Medições mais recentes, porém, indicaram um resultado ainda mais amplo: o choque também alterou a trajetória orbital completa do sistema Didymos–Dimorphos enquanto ele se desloca pelo espaço.
Com isso, foi a primeira vez que a humanidade conseguiu alterar diretamente a órbita de um objeto natural ao redor do Sol.
"Este trabalho acrescenta à lista de tecnologias inéditas demonstradas pela missão DART a capacidade de desviar um sistema binário de asteroides em sua órbita heliocêntrica", escreve uma equipa liderada pelo engenheiro aeroespacial Rahil Makadia, da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign.
Por que a missão DART da NASA foi feita
A missão DART foi realizada tendo em vista a segurança planetária. Há muitos corpos rochosos grandes no Sistema Solar e, embora não exista atualmente nenhum conhecido com grande probabilidade de atingir a Terra num futuro próximo, a humanidade quer estar preparada caso essa hipótese se torne real.
A proposta da DART era simples. O alvo era um par de asteroides gravitacionalmente ligados: o maior, chamado Didymos, com cerca de 780 metros de diâmetro, e o menor, Dimorphos, com aproximadamente 160 metros de diâmetro. Por ser menor, Dimorphos seria o mais fácil de deslocar.
O sistema também foi escolhido porque o seu período orbital já era muito bem caracterizado, o que tornava qualquer alteração relativamente fácil de medir. Para que a DART cumprisse o objetivo, o impacto precisava desviar Dimorphos o suficiente para mudar o seu período orbital ao redor do asteroide parceiro.
A equipa científica esperava uma variação de cerca de 7 minutos, então a mudança de 33 minutos observada na prática foi motivo de grande entusiasmo.
O impacto da DART e a órbita heliocêntrica de Didymos e Dimorphos
Ainda assim, o par de asteroides é apenas uma parte de um contexto maior - o próprio Sistema Solar. Makadia e os seus colegas queriam determinar se a missão tinha alterado não só o período orbital de Dimorphos em torno de Didymos, mas também a trajetória macroscópica dos dois corpos na órbita ao redor do Sol.
Como Didymos e Dimorphos estão ligados pela gravidade, eles orbitam um centro de massa partilhado, conhecido como baricentro. Quando a DART atingiu Dimorphos, o choque não se limitou a empurrar o asteroide menor; ele também lançou detritos para o espaço.
Esse material que escapou levou consigo momento (quantidade de movimento). Os cientistas previam que isso produziria um recuo minúsculo, capaz de alterar ligeiramente o movimento do par Didymos–Dimorphos ao redor do Sol.
O que as medições revelaram após setembro de 2022
Nos anos desde a colisão de setembro de 2022, instrumentos vêm acompanhando o sistema de asteroides com atenção. A equipa de Makadia analisou dados de 22 ocultações estelares, 5.955 medições terrestres da posição do sistema, três medições de navegação da própria espaçonave DART e nove medições terrestres de distância.
Em conjunto, os dados mostraram que o impacto realmente aplicou um empurrão diminuto no sistema Didymos–Dimorphos, reduzindo a sua velocidade orbital em cerca de 11,7 micrômetros por segundo - algo em torno de 42 milímetros por hora (aproximadamente a largura de um Apple Watch).
No espaço, porém, até um impulso muito pequeno pode, com o tempo, resultar numa diferença considerável de posição. Ao longo de uma década, uma mudança de 11,7 micrômetros por segundo acumularia cerca de 3,69 quilômetros.
Isso significa que, nas escalas de tempo relevantes para defesa planetária - anos ou décadas de aviso prévio, se houver sorte -, mesmo um ligeiro "toque" pode ser suficiente para deslocar um asteroide perigoso para longe da Terra.
Missões futuras deverão esclarecer ainda mais o que ocorreu durante o impacto. A sonda Hera, da Agência Espacial Europeia, com chegada prevista ao sistema Didymos ainda nesta década, vai examinar a cratera deixada pela DART e medir em detalhe as massas e a estrutura dos asteroides.
Ainda assim, o que já foi alcançado é fora do comum: pela primeira vez, a humanidade modificou o caminho de um objeto natural em movimento dentro do Sistema Solar.
"Ao demonstrar que missões de desvio de asteroides como a DART podem provocar alterações na órbita heliocêntrica de um corpo celeste", escrevem os investigadores, "este estudo representa um avanço notável na nossa capacidade de evitar futuros impactos de asteroides na Terra".
A pesquisa foi publicada na Science Advances.
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