A Renault fechou 2025 com uma perda líquida recorde de 10,9 bilhões de euros, puxada principalmente por uma forte baixa contábil relacionada à sua participação na Nissan. Por trás do número chamativo, porém, a operação do grupo segue relativamente firme, com destaque para o avanço dos carros elétricos.
Na quinta-feira, 19 de fevereiro, o Grupo Renault divulgou seus resultados anuais - e o dado que mais chamou atenção foi a perda líquida de 10,9 bilhões de euros. Trata-se da primeira vez em cinco anos que a montadora fica no vermelho, além do maior prejuízo já registrado pela empresa do losango.
O que explica a perda recorde de 10,9 bilhões de euros
A maior parte do prejuízo (9,3 bilhões de euros) não veio da atividade industrial em si, mas de um ajuste contábil. Em julho de 2025, a Renault optou por reavaliar sua fatia de 35,7% na Nissan pelo valor real de mercado (bolsa), em vez de manter o método anterior de contabilização (equivalência patrimonial). O problema é que as ações da Nissan despencaram nos últimos anos, e a diferença entre o valor registrado no balanço da Renault e a cotação efetiva no mercado resultou nessa depreciação expressiva.
Além disso, entrou na conta uma contribuição negativa de 2,3 bilhões de euros ligada às perdas operacionais da Nissan. A montadora japonesa está em plena reestruturação, com o corte de 20 000 postos de trabalho no mundo e o fechamento de sete fábricas.
Ajuste contábil não mexe no caixa (nem no dividendo)
Um ponto essencial: esse lançamento não consumiu caixa da Renault. É um efeito contábil, não um impacto de tesouraria. Por essa razão, o prejuízo também não altera o cálculo do dividendo a ser pago aos acionistas.
Aliança Renault-Nissan entra em fase final
A mudança de metodologia contábil também simboliza a saída gradual da aliança Renault-Nissan, formada em 1999 e abalada desde a prisão de Carlos Ghosn no Japão, no fim de 2018. Ao alterar o tratamento contábil, a Renault faz com que as próximas oscilações do papel da Nissan deixem de afetar o resultado líquido: elas passam a ser absorvidas diretamente no patrimônio líquido do grupo.
No fim das contas, é um “mal necessário”, porque a montadora francesa corta, de forma definitiva, o vínculo financeiro com um parceiro japonês em dificuldades. Vale lembrar que a Renault recebeu oito bilhões de euros em dividendos da Nissan desde o início da aliança, em 1999. Ou seja, o saldo total do relacionamento ainda é positivo - mas já era hora de virar a página.
A atividade resiste bem, graças aos elétricos
Sem o efeito Nissan, o retrato da Renault fica bem menos dramático - e até favorável. A receita cresce 3%, chegando a 57,9 bilhões de euros (e +4,5% a taxas de câmbio constantes), impulsionada por novos lançamentos e pela tração crescente da linha elétrica. Um efeito positivo de “mix de produtos” de 3,2 pontos compensou a leve pressão sobre preços (-0,2 ponto), atribuída ao aumento da concorrência na Europa.
Com isso, a Renault registra um lucro líquido de 715 milhões de euros fora Nissan. Ainda que represente uma queda de 74% ante 2024, o contexto europeu está especialmente desafiador, com pressão comercial vinda, em particular, de fabricantes chineses.
Já a margem operacional recua para 6,3% (contra 7,6% em 2024), afetada pela aceleração dos veículos elétricos, que tendem a ser menos rentáveis do que modelos a combustão e híbridos. O diretor financeiro, Duncan Minto, reconheceu a questão:
"Atualmente, a rentabilidade dos carros elétricos é inferior à dos térmicos: o desafio é melhorar essa rentabilidade."
No caixa, o cenário continua positivo. O fluxo de caixa livre automotivo chega a 1,5 bilhão de euros, no topo do intervalo de meta definido pelo grupo. A posição financeira líquida automotiva atinge o nível recorde de 7,4 bilhões de euros, e a agência S&P elevou a nota de crédito da Renault para BBB- (investment grade) em dezembro passado.
2026 deve ser complicado
Para o ano em curso, a Renault prefere adotar um tom cauteloso. O grupo projeta margem operacional em torno de 5,5% (abaixo de 2025), em um ambiente que ele próprio descreve como “complexo”. A rentabilidade deve sentir o efeito de vários fatores: maior participação de veículos elétricos no mix de vendas, avanço internacional (inclusive pela consolidação da entidade Renault-Nissan na Índia) e intensificação da pressão competitiva chinesa no mercado europeu.
As projeções, inclusive, ficam abaixo do consenso: segundo o Citi, analistas estimavam 5,8% de margem e 1,2 bilhão de euros de fluxo de caixa livre.
No horizonte de médio prazo, a Renault mira margem entre 5 e 7%, ressaltando que mesmo a base desse intervalo permanece bem acima da média histórica de 3,9% no período 2005-2025. A expectativa é de um fluxo de caixa livre automotivo de pelo menos 1,5 bilhão de euros por ano, em média, incluindo cerca de 500 milhões de euros anuais em dividendos da Mobilize Financial Services, o braço de financiamento do grupo.
Outro tema a acompanhar: a Renault confirma estar em negociação para comprar 100% da Flexis, sua joint venture de vans elétricas criada em 2024 com Volvo e CMA CGM, da qual hoje possui 45%.
O dividendo, por sua vez, permanece estável em 2,20 euros por ação. Ele será submetido ao voto da assembleia geral marcada para 30 de abril. É uma forma de acalmar o mercado: o prejuízo impressiona, mas a empresa segue no controle.
O grande teste para o novo diretor-geral François Provost será mostrar que a Renault consegue sustentar a rentabilidade ao mesmo tempo em que acelera na eletrificação. Sem a Nissan atrapalhando.
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