Uma mulher na casa dos 80 anos, com doença de Alzheimer em estágio avançado, havia passado cinco anos falando quase sempre em monossílabos.
Um dia depois de tomar psilocibina - o composto psicadélico presente em certos cogumelos - ela voltou a conversar. Em poucos dias, estava andando sozinha e conseguia se vestir sem ajuda.
Em geral, médicos encaram o Alzheimer avançado como uma perda progressiva sem retorno, com pouca expectativa de recuperar fala, mobilidade ou autonomia.
Este relato isolado aponta que parte do que parece perdido talvez não tenha desaparecido por completo, e sim permanecido “travado”, podendo ser acessado por um curto período sob condições específicas.
Uma década de declínio
A paciente convivia com Alzheimer havia cerca de uma década, com supervisão constante da família e apoio de cuidadores. Nos cinco anos anteriores, sua fala havia se reduzido, na maior parte do tempo, a sons de uma sílaba.
Ela tinha perdido o controle da bexiga, a capacidade de andar sem auxílio e grande parte da ligação emocional com as pessoas ao redor. Engolir se tornara difícil, e seu rosto estava sem expressão, com pouca reatividade.
O caso foi registrado por Marcos Lago e colegas da Associação Cruz de Ankh (Associação Cruz de Ankh), uma clínica privada em São Paulo, Brasil.
Ali, a mulher recebeu uma única dose oral de psilocibina - o princípio ativo dos chamados “cogumelos mágicos” - na forma de 5 gramas (0.18 ounces) de cogumelos secos.
Os cogumelos eram de uma variedade conhecida como linhagem Enigma. Em 5 gramas (0.18 ounces), a quantidade foi alta em comparação com os padrões dos ensaios clínicos atuais, que costumam empregar quantidades purificadas bem menores.
A equipe de Lago optou por essa dose de maneira intencional, apoiando-se em observações anteriores de que doses mais elevadas estariam associadas a efeitos mais profundos e mais duradouros.
A fala retorna de um dia para o outro
As primeiras horas foram difíceis do ponto de vista físico. A mulher apresentou o que os cuidadores interpretaram como febre, suou intensamente e entrou em um estado profundo, semelhante ao sono, prolongado, que se estendeu por grande parte do dia.
Cerca de 19 horas após a dose, por volta de 3:30 da madrugada, ela despertou por conta própria e começou a falar - e não parou.
Por quase quatro horas, falou sobre a própria vida, resgatando memórias pessoais que estavam inacessíveis havia anos. As mudanças continuaram. No dia seguinte, ela estava mais desperta e voltou a reconhecer a família.
Outras melhorias aparecem em seguida
No segundo dia, ela andou sem ajuda e, em dois a três dias, já se vestia sozinha e tomava iniciativas por conta própria.
Por volta do mesmo período, a continência urinária retornou após mais de cinco anos de incontinência crónica. As fraldas permaneciam secas, inclusive durante a noite - uma recuperação que a equipe destacou como particularmente reveladora.
Ao fim da primeira semana, sua memória para acontecimentos recentes começou a reaparecer. Ela perguntou para onde alguém tinha ido, identificou corretamente um veículo, sustentou contato visual e sorriu de volta para as pessoas ao redor.
Um mês depois, com os ganhos ainda presentes, o grupo realizou uma segunda sessão supervisionada com uma dose menor, de 3 gramas (0.11-ounce).
Desta vez, ela falou mais durante toda a experiência, fez piadas sem estímulo, se moveu com mais agilidade e descreveu uma cena feliz de surfar com o filho em uma ilha tranquila.
No acompanhamento, ela deu seu próprio parecer sobre o que viveu. “É agradável vir aqui”, disse a mulher.
Como a psilocibina atua
O motivo exato do que ocorreu não está definido. A equipe deixa claro que suas explicações são hipóteses informadas, não certezas.
O que se sabe é que a psilocibina age sobre um recetor específico de serotonina no cérebro. Com isso, por um período, ela desorganiza os padrões habituais de comunicação cerebral.
Trabalhos com neuroimagem já mostraram como esse efeito pode ser abrangente. Um estudo acompanhou voluntários saudáveis antes, durante e após uma dose alta.
Os autores observaram que a psilocibina desorganizou de forma intensa a coordenação entre redes cerebrais, afrouxando ligações que normalmente permanecem firmes. A interpretação dos pesquisadores é que esse afrouxamento temporário poderia permitir que um cérebro lesado encontre novas rotas por um breve intervalo.
A hipótese é que circuitos ainda funcionais possam voltar a ser recrutados, inclusive em áreas marcadas pela doença. Trata-se de uma hipótese, não de um mecanismo comprovado - e a equipe afirma isso de modo explícito.
Em animais, a substância parece produzir ainda outro efeito. Ela aparenta estimular a neuroplasticidade - o desenvolvimento de novas conexões entre neurónios. Um estudo identificou que psicadélicos induzem células nervosas a formar novos ramos e criar novas ligações com células vizinhas.
Adormecido, não destruído
Este caso não resolve a questão; ele apenas abre uma pequena fresta. Trata-se de uma única paciente, sem exames de imagem cerebral, testes laboratoriais ou pontuações padronizadas de memória que mostrem o que se alterou dentro do cérebro.
A equipe também não consegue excluir que parte dos ganhos tenha refletido flutuações naturais do próprio curso da doença. As melhorias foram temporárias, e os autores enfatizam que não houve reversão do Alzheimer.
O dano provocado pelo Alzheimer permaneceu. O que o relato sugere, em vez disso, é que algumas funções podem persistir em fase avançada num estado latente, acessível por algum tempo quando as condições são favoráveis.
A ideia de que psicadélicos poderiam ter utilidade no Alzheimer não é recente. Anos antes deste relato, uma revisão argumentou que a capacidade da psilocibina de favorecer plasticidade poderia, em teoria, ajudar a proteger regiões cerebrais afetadas pela doença.
O que faltava era um sinal no mundo real em alguém já num estágio avançado.
Perguntas que merecem ser testadas
O que este caso único demonstra é limitado, mas concreto. Uma mulher que os médicos consideravam sem possibilidade de recuperação significativa retomou, por um período, a fala, a mobilidade, o controlo da bexiga e uma sensação de vínculo com os outros após usar psilocibina.
Isso basta para levantar uma questão importante: o que o cérebro com Alzheimer em fase tardia ainda mantém e se uma intervenção adequada poderia alcançar esse potencial.
Se isso pode ser repetido com segurança - e se representa um efeito real do fármaco, em vez de um evento isolado - só poderá ser respondido por ensaios controlados.
O valor desses estudos seria testar algo que famílias de pessoas com demência quase nunca se permitem esperar: que momentos de conexão, antes considerados perdidos, possam retornar por um breve tempo.
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