A pressão alta tem uma lista bem conhecida de vilões na alimentação: sal, alimentos ultraprocessados e consumo excessivo de álcool.
Já as orientações sobre o que incluir no prato para ajudar a reduzir a pressão arterial costumam ser muito menos específicas.
Na prática, muitos médicos dizem aos pacientes o que evitar e oferecem pouca orientação sobre como fazer os números baixarem.
Uma nova análise indicou que pessoas que consumiam mais feijões e soja tinham menor probabilidade de desenvolver pressão alta.
Quem comia mais desses alimentos apresentou risco mais baixo de desenvolver pressão alta, e essa proteção atingiu um pico em uma quantidade diária específica.
Novos insights revelados
Por trás do resultado está uma análise conjunta de cerca de 300.000 adultos, reunindo dados de uma dúzia de estudos anteriores. Em todos eles, os pesquisadores acompanharam padrões alimentares e observaram quem, ao longo do tempo, desenvolveu pressão alta, ou hipertensão.
Cinco desses estudos ocorreram nos Estados Unidos, e os demais foram conduzidos no Leste Asiático, no Oriente Médio e na Europa. A junção dos dados foi feita por uma equipa no Reino Unido e na Noruega.
Para o Dr. Dagfinn Aune, pesquisador do Imperial College London, os achados reforçam que uma mudança simples na dieta pode ajudar a manter a pressão arterial sob controle.
Em comparação com as pessoas que consumiam menos, os maiores consumidores de leguminosas - feijões, lentilhas e grão-de-bico - tiveram cerca de 16% menos probabilidade de desenvolver pressão alta.
No caso de alimentos de soja, como tofu e edamame, o número chegou a 19%. Essas diferenças podem parecer pequenas, mas ganham peso quando consideradas em escala populacional.
Encontrando o ponto ideal
Algumas quantidades de feijões já pareciam trazer benefício, mas a maior proteção apareceu em uma ingestão diária específica.
Quando a equipa comparou consumo e risco, a proteção aumentou a cada porção até atingir um pico claro - e, depois disso, estabilizou.
Para leguminosas, o pico ficou perto de uma xícara de feijões cozidos por dia (aprox. 170–180 g). Quem consumia esse volume tinha cerca de 30% menos probabilidade de desenvolver pressão alta do que quem não consumia nada.
A soja seguiu um padrão semelhante, com uma diferença. O benefício máximo surgiu com uma quantidade menor: cerca de 57 a 85 g por dia (equivalente a um bloco de tofu ou um copo alto de leite de soja).
Nesse nível, o risco diminuiu em quase 29%. Com ingestões maiores, a curva “achatou” e permaneceu estável.
O platô da soja
Por que esse achatamento ocorre? A resposta ainda não está clara. Entre os dois grupos de alimentos, a soja foi onde as evidências eram mais limitadas, e esta é a primeira análise a reunir, de forma específica, dados sobre alimentos de soja e pressão alta.
Esse tipo de platô não é incomum. O potássio, por exemplo, também apresenta um “teto” em ensaios controlados, nos quais o ganho em pressão arterial diminui depois que a ingestão ultrapassa uma determinada faixa.
Para esclarecer a questão, seriam necessários estudos desenhados para testar consumo mais alto de soja e acompanhar os resultados.
Os benefícios dos feijões
No organismo, os mecanismos possíveis dão pistas. Feijões e soja fornecem potássio e magnésio, minerais que pesquisadores há muito associam a níveis mais baixos de pressão arterial.
A fibra abre outra via. Bactérias intestinais a quebram e produzem compostos que parecem favorecer a dilatação dos vasos sanguíneos.
A soja também contém compostos naturais que, em estudos anteriores, foram ligados à redução da pressão arterial em pessoas que já apresentam níveis elevados. Ainda assim, nada disso comprova causa e efeito.
Mesmo assim, os nutrientes envolvidos estão alinhados com o que já se sabe sobre pressão arterial - e isso ajudou a equipa a considerar que a evidência tem consistência.
Ainda restam perguntas
Essas conclusões se baseiam em dados observacionais. Esse tipo de estudo consegue mostrar que quem come feijões e soja tende a apresentar menor risco, mas não consegue provar que o alimento, sozinho, é o motivo.
Em geral, quem consome muitas leguminosas costuma ter hábitos mais saudáveis no conjunto, como praticar mais atividade física e fumar menos.
A análise também não conseguiu captar como os alimentos eram preparados, nem tudo o que compunha a dieta das pessoas. Fatores não medidos podem estar contribuindo para parte do efeito observado.
Ainda assim, a relação se manteve estável entre países e diferentes desenhos de estudo, e os pesquisadores observaram uma associação consistente.
Pistas para o futuro
A pressão alta afeta cerca de 1,4 bilhão de adultos no mundo. Em grande parte da Europa e no Reino Unido, a ingestão diária média de leguminosas fica bem abaixo de 28 g.
Isso é apenas uma fração do que diretrizes já recomendam para a saúde do coração, e este estudo aponta um nível de consumo associado a menor risco.
A análise indicou cerca de uma xícara de feijões e 57 a 85 g de soja por dia como os níveis associados ao maior benefício.
“Esperamos que as pessoas se sintam inspiradas a tentar incorporar mais leguminosas e soja nas suas próprias dietas”, disse Aune.
Feijões não substituem medicamentos para pressão arterial, mas representam uma mudança alimentar de baixo custo e baixo risco, associada a benefícios mensuráveis.
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