Uma expedição pelo acervo da Casa da Arquitetura
A exposição dedicada a Lucio Costa carrega, acima de tudo, um espírito de expedição. Há ali a promessa de desbravar um universo cultural e arquitetônico que, desde 2021, está sob a guarda da Casa da Arquitetura. O fascínio vem também do tamanho do desafio: a família do arquiteto entregou à instituição, sediada em Matosinhos, 11 mil peças. O que se vê na mostra corresponde a apenas 10% desse conjunto - um espólio cuja análise e pesquisa ainda podem abrir muitas portas.
Esse encontro com Lucio Costa traz ainda um aspecto pouco comum: talvez pela primeira vez na Casa da Arquitetura, apresenta-se uma exposição com uma dupla vocação muito evidente. De um lado, a relevância para arquitetos e estudantes é indiscutível, sustentada por um rigor científico implícito. De outro, há uma camada clara de divulgação, capaz de ser lida com facilidade por qualquer visitante.
Nessa lógica, a proposta se distancia do formato tradicional das mostras de arquitetura. Como afirma Ana Vaz Milheiro, “a história da arquitetura não se faz hoje apenas a partir do testemunho do construído”. Em vez de se limitar ao que foi erguido, a curadoria se empenha em revelar a pessoa por trás de cada projeto - seja a Torre de TV, as Superquadras Econômicas, o Eixo Rodoviário ou a Praça dos Três Poderes.
O retrato dessa visão de mundo aparece numa profusão de materiais: desenhos, plantas, filmes, fotografias, álbuns de família, cartas, passaportes, telegramas, recortes de jornais e de revistas.
Um rito em torno do Plano Piloto de Brasília
Há um instante quase litúrgico nessa exposição sobre Lucio Costa. No espaço central reservado ao Plano Piloto de Brasília, a atmosfera se aproxima de uma solenidade de culto: a iluminação baixa, tudo parece exigir silêncio e surge um convite ao recolhimento. O olhar é capturado por um desenho. Feito pelo arquiteto durante uma viagem de navio, ele foi apresentado a concurso.
Como se viesse de outro plano, escuta-se, do nível superior, a voz de Lucio Costa (1902-1998). É o único ponto da exposição em que isso acontece. Ele descreve o projeto vencedor sem entusiasmo, num tom monocórdio. A cidade concebida - transformada em capital do Brasil a partir de 1960 - acabaria por se tornar uma das maiores glórias desse urbanista e professor.
Os acasos na vida de um pai almirante fizeram com que ele nascesse em Toulon, na França. E esse dado biográfico acaba funcionando como prenúncio de uma trajetória cosmopolita.
Seis núcleos e o espaço “Povo Brasileiro”
A exposição se organiza em seis núcleos temáticos: ‘Família’, ‘Escritos’, ‘Portugal’, ‘Plano Piloto de Brasília’, ‘Brasília’ e ‘Desenho’, e desemboca no espaço “Povo Brasileiro”. Trata-se de uma área de descanso criada pela dupla de artistas visuais brasileiros Ângela Detanico e Rafael Lain.
A instalação parte da proposta de Lucio Costa para a Trienal de Milão de 1964. Ela reúne nove camas de rede; em cada uma há um tablet, onde é possível assistir às versões integrais dos filmes exibidos ao longo da mostra. Ali se impõe também o desafio de decifrar a frase registrada nas paredes, montada com um alfabeto enigmático. Inspirada em um livro do antropólogo e escritor Darcy Ribeiro, a sentença sintetiza um certo estado de espírito brasileiro: “Essa mesma gente que passa o tempo livre na rede, quando o tempo aperta constrói em três anos, no deserto, uma capital.”
Voltar ao começo: do Ministério à história oral de Brasília
Para sair, quem chega a esse ponto precisa retornar ao início - um convite implícito a rever o percurso e a lançar um segundo olhar sobre a obra de um arquiteto cujo legado está longe de se esgotar naquela “espécie de utopia social” chamada Brasília, como a define Ana Vaz Milheiro.
Não por acaso, logo na entrada, encontra-se uma maquete do edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde Pública (Rio de Janeiro, 1936). É um de seus primeiros trabalhos e contou com a participação de Le Corbusier, referência incontornável do Movimento Moderno.
Esse retorno ao começo pode mudar também o modo como se veem os filmes voltados à experiência dos moradores de Brasília, das Quadras Econômicas do Guará e da Vila Planalto. São espaços de história oral com trechos comoventes - como quando a presidente de uma associação de moradores desabafa, emocionada, para um lugar indefinido: “Deu certo, arquiteto.”
No segmento inicial, com variações em tons de azul e alternância de materiais, num jogo de cumplicidades entre o público e o privado, a exposição oferece uma visão mais íntima das relações familiares. A solução é bem equilibrada diante de um dilema difícil: conciliar a memória afetiva - por exemplo, com imagens do funeral de Lucio - e o rigor documental.
Contradições, Brasil real e a narrativa do visitante
Com relações internacionais sólidas, Lucio Costa “pensava desenhando”, como diz a neta, Júlia Sobral. Ainda assim, não era um personagem livre de contradições. Em torno de sua trajetória, reaparece com frequência a acusação de elitismo e até a ideia de que haveria uma raiz racista em seu discurso.
Provocada sobre esses temas, Ana Vaz Milheiro não evita o debate, embora ressalte que o arquiteto sempre esteve consciente da realidade brasileira. Ela cita o caso da Vila Planalto: ali, Lucio decidiu escutar a população, recuou e acolheu o processo de autoconstrução que se desencadeou naquela área de Brasília. Para a curadora, isso derruba “a ideia de alguém que estava muito longe do povo e das necessidades das pessoas mais carentes”. Na prática, prossegue, o arquiteto “era muito atento aos problemas do Brasil”. E, diante da imensidão de documentos expostos, ela espera que o visitante “poderá construir a sua própria narrativa”.
Portugal no pensamento de Lucio Costa
Com passagens por Portugal em 1926, 1948, 1952-1953 e 1961, Lucio Costa incorporou a experiência portuguesa ao seu modo de pensar. Para Nuno Sampaio, diretor-executivo da Casa da Arquitetura, ele era “uma pessoa muito à frente do seu próprio tempo”. A tal ponto que teria conseguido formular duas concepções para a arquitetura brasileira: uma patrimonial, fortemente marcada por suas idas a Portugal, e outra moderna.
Lucio Costa esteve em Brasília uma única vez durante as obras e não participou da inauguração da cidade. Ainda assim, deixou marcas duradouras e de alcance global. Em grande parte do século XX, torna-se impossível explicar a arquitetura internacional sem considerar sua contribuição - aí reside a grande arte desse arquiteto singular.
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