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Stellantis e governo italiano em choque nos 125 anos da Fiat em Turim

Homem em terno fala em púlpito ao ar livre, com carros antigos e modernos e bandeiras italianas ao fundo.

Os sinais que foram se acumulando ao longo do último ano indicavam que a comemoração mundial dos 125 anos da Fiat, em Turim, teria tudo para virar um embate animado entre a Stellantis e o governo italiano. E foi exatamente isso que eu vi: um show de agressividade fora do comum (entre políticos e executivos), em que só faltaram um ringue e luvas de boxe para a cena ficar completamente surreal.

Stellantis e governo italiano: o choque nos 125 anos da Fiat em Turim

A Adolfo Urso, ministro das Empresas e do Made in Italy (sim, é esse mesmo o nome do ministério…), não têm agradado os planos de transferência industrial envolvendo alguns projetos de carros italianos. O caso mais sensível é o do crossover compacto recém-revelado da Alfa Romeo - um dos raros na história da marca do trevo a nascer fora da Itália (Tychy, Polônia) desde 1910, ano de fundação.

A disputa já tinha estourado nos bastidores, mas ganhou a arena pública quando a Alfa foi impedida de usar o nome “Milano”, mesmo depois da apresentação mundial do carro. A decisão foi deliberadamente tardia, para aumentar a pressão sobre a Stellantis. A empresa apenas mudou o nome: Milano virou Junior. E o comunicado oficial da Alfa Romeo veio no mesmo tom beligerante: “Não pode ser Milano? Ok, Junior então”.

A partir daí, ficou evidente a guerra sem trincheiras entre a Itália e a Stellantis, entre Urso e Tavares, com outros capítulos (antes, durante ou depois) desse teste de colisão frontal.

Episódios que aumentaram a tensão: Milano/Junior, Topolino e as marcas italianas

Em maio, por exemplo, a polícia financeira reteve no porto de Livorno cerca de uma dúzia de Fiat Topolino recém-desembarcados, vindos do Marrocos, onde são montados. O motivo foi a bandeirinha da Itália (colada na porta), que as autoridades não aceitaram por “dar a entender” que seriam produtos feitos no país - algo vetado por uma lei de 2003 que, por exemplo, garantiu que só o queijo produzido em Parma pudesse se chamar Parmigiano Reggiano.

Já em julho, soubemos que o Sr. Urso está oferecendo a fabricantes chineses duas marcas italianas que pertencem à Stellantis (Innocenti e Autobianchi). O objetivo seria atrair a instalação de fábricas na Itália e trazer de volta nomes que tiveram destaque dos anos 60 aos 80. Uma lei recente - de dezembro passado (!) - autoriza que marcas inativas há mais de cinco anos na Itália sejam reativadas, desde que a produção aconteça no país.

No caso do Topolino, as bandeirinhas tricolores acabaram tendo que ser removidas. Mas, sobre a possível entrada de fábricas chinesas (ou de outros grupos que o governo italiano quer atrair para quebrar o monopólio da Stellantis), Tavares reagiu com uma ameaça direta: “se os chineses instalarem fábricas em Itália é bem provável que tenhamos que fechar alguma(s) das nossas”.

Era esse o pano de fundo que explicava as expressões fechadas de Urso, Tavares, François (CEO da Fiat/Abarth e diretor global de marketing da Stellantis) e Elkann (presidente do conselho da Stellantis e CEO da Exor, a holding da família Agnelli, fundadora da Fiat) num dia que deveria ser de celebração plena. Afinal, 125 anos não são pouca coisa - e a história da Itália e a da Fiat se misturam a ponto de quase se confundirem.

Discursos em tom de confronto: Urso, Tavares, Elkann e François

E o clima só piorou conforme os discursos avançavam. Urso abriu fogo com: “A República Italiana é fundada em trabalho, não em lucro”, amparado pelo fato de esse ser o parágrafo inicial da Constituição italiana. A réplica de Tavares veio na sequência: “Se as empresas tiverem prejuízos, fecham e as pessoas perdem os seus empregos”.

Logo depois, vieram reforços dos mais próximos. John Elkann lembrou que “até os anos 50, 2/3 do faturamento da empresa era feito fora da Itália”; e Olivier François insistiu que “sempre produzimos fora da Itália, como nos casos dos Fiat 124 e 127 que foram montados em muitos países, do Fiat 500L, na Sérvia, ou do Fiat Panda que em 2000 era feito em Tychy (Polônia) e em 2024 é produzido em Pomigliano d´Arco em Itália”.

Houve ainda outra fala importante, vinda de Tavares, como uma lista de dados para sustentar a narrativa de sucesso e continuidade de investimento no país: “na Stellantis temos marcas líderes em três continentes, um em cada quatro carros citadinos na Europa são Fiat (um em cada dois em Itália), somos a terceira marca que mais vende elétricos na Europa e temos oito novos projetos industriais a arrancar neste país”.

Elkann, herdeiro do império da Fabbrica Italiana Automobili Torino, foi além na dramaticidade: “cheguei a temer que a empresa que a minha família fundou não sobrevivesse, mas a Stellantis deu-nos um horizonte de futuro”.

Sr. Urso: sem querer me intrometer onde não fui chamado, se as marcas italianas da Stellantis não conseguirem vencer num cenário cada vez mais competitivo da indústria automotiva (algo que só se torna viável quando as empresas são geridas com racionalidade, entre muitos outros fatores…), elas simplesmente deixarão de existir - e o desemprego, assim como o bem-estar dos seus eleitores, sofrerão impactos diretos enormes. Aliás, algumas delas talvez nem estivessem mais por aqui se a fusão com o Groupe PSA e o toque de Midas de Carlos Tavares não as tivessem tirado da falência iminente.

Talvez isso seja mais relevante e vital para centenas de milhares de italianos - 40000 funcionários só da Fiat na Itália, além de suas famílias - do que a invocação retrógrada do primeiro artigo da Constituição da República Italiana.

E Tavares, junto com suas equipes, não merece ao menos o benefício da dúvida, depois de ter resgatado marcas históricas quando assumiu a responsabilidade por elas? Primeiro, Peugeot, Citroën e Opel (pós-2017) e, depois, Fiat e Alfa Romeo (2021), que estavam “presas por arames”. No fim, conseguiram levar o grupo a registrar, globalmente, as maiores margens de lucro sobre faturamento, sempre na casa dos dois dígitos percentuais. Isso é algo singular na indústria automotiva atual - e ainda mais difícil por estar sendo alcançado com uma maioria de marcas generalistas.

No caso da Alfa Romeo, o lucro em 2023 foi de 500 milhões de euros, mesmo com apenas 7000 carros vendidos no ano passado. A virada financeira chama ainda mais atenção quando se considera que a Alfa ficou mais de uma década sem lucrar e queimou investimentos pesados. O mais recente foi de cinco bilhões de euros, sob a administração Marchionne, que prometia vender meio milhão de carros no fim da década passada - e nunca passou de 12000 (nem conseguiu estancar a sangria financeira que quase levou à extinção da marca ou à sua venda).

Uma visão romântica do mundo é aquela em que todas as marcas produzem apenas no seu território de origem e alimentam exclusivamente a economia do próprio país. O problema é que o cemitério de marcas automotivas está cheio dessas visões românticas.

Só que, no mundo dos negócios do século XXI, a maioria das decisões precisa incluir racionalidade e equilíbrio, mesmo quando isso afasta as marcas de suas origens - sempre em nome de um objetivo maior. Não será por isso que o ministério tutelado pelo Sr. Urso carrega no nome “Made in Italy”, e não “Produzido na Itália”?

E, por outro lado, não seria mais produtivo direcionar essa energia - hoje usada para perseguir a Stellantis - para políticas que acelerem a criação de infraestrutura de recarga e incentivem a compra de carros elétricos? Na Itália, a 10ª maior economia do mundo e a quarta da Europa, a participação de elétricos é de 5%. Em Portugal, é o triplo.

Afinal, seus aliados políticos em Bruxelas dizem que, em nove anos, não serão mais produzidos carros com motor a combustão. Talvez já tenha passado da hora de acordar

Basta olhar para o que ocorreu em junho. O governo italiano lançou um programa de incentivos para compra de elétricos de 200 milhões de euros. O dinheiro acabou em nove horas(!), e as vendas de elétricos no país dobraram em relação a junho de 2023. Está mesmo na hora de acordar

Porque, no fim, como em tantas outras guerras, pode não haver vencedores. Só derrotados: os italianos e a economia italiana.

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