Um estudo recente constatou que camundongos jovens expostos à água contendo N-nitrosodimetilamina (NDMA), uma substância tóxica que pode surgir durante processos industriais, desenvolveram câncer de fígado - enquanto animais adultos submetidos à mesma exposição permaneceram, em grande parte, sem tumores.
O resultado reforça a preocupação com um contaminante que já foi identificado em água poluída, em alguns medicamentos e em alimentos processados.
NDMA, água e o fígado
No fígado, o perigo só se manifestou porque a mesma exposição ao NDMA percorreu o organismo de camundongos jovens e adultos por caminhos biológicos diferentes.
Ao mapear essa lesão em tecido hepático de camundongos, Lindsay B. Volk, Ph.D., pesquisadora de pós-doutorado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), demonstrou que a idade influenciou se o dano terminava ou não em câncer.
Camundongos juvenis e adultos produziram adutos iniciais de DNA em níveis semelhantes, indicando que ser jovem não significou absorver mais a substância.
O que mudou com a idade foi o quanto a mesma lesão de partida se tornava perigosa - o que levou a questão seguinte a focar no que um tecido em crescimento acelerado faz quando sofre dano.
Por que a juventude mudou o risco
O ritmo de crescimento mais rápido deu ao fígado jovem menos tempo para corrigir os estragos antes que as células os copiassem ao formar tecido novo.
Como as células hepáticas jovens geravam novas células rapidamente, material genético danificado podia se transformar em mutação, uma alteração duradoura nas instruções genéticas.
Já no fígado adulto, as células se dividiam com muito menos frequência, permitindo que os sistemas de reparo atuassem antes que a maioria das lesões se fixasse como mudança permanente.
Esse efeito de tempo explica por que uma exposição equivalente não se traduziu em perigo equivalente e recoloca crianças como um grupo de risco separado.
Dano virou mutações
Dentro do organismo, o NDMA é transformado quando enzimas do fígado o processam. Essa reação gera pequenos fragmentos químicos que se prendem ao material genético e deixam marcas que os sistemas de reparo precisam remover.
Nos camundongos jovens, as tentativas de reparo resultaram em quebras de dupla fita, um tipo grave de dano ao DNA em que as duas fitas se rompem ao mesmo tempo - algo que pode provocar erros importantes quando a célula tenta copiar o material genético.
Nos camundongos adultos, quase não se observaram essas quebras, reduzindo bastante as oportunidades de se acumularem falhas capazes de iniciar câncer.
Wilmington trouxe contexto
A preocupação fora do laboratório já havia se concentrado em Wilmington, Massachusetts, uma cidade ao norte de Boston com um histórico doloroso de câncer.
Entre 1990 e 2000, 22 crianças receberam diagnósticos de câncer depois que poços públicos transportaram contaminantes ligados ao sítio da Olin Chemical, uma antiga área de fabricação.
Uma investigação estadual, o Wilmington Childhood Cancer Study, identificou maior chance de câncer infantil após exposição pré-natal ao NDMA.
Esse padrão não comprovou causa em nenhuma criança em particular, mas deu ao estudo com camundongos uma pergunta de saúde pública mais direta.
Além da água poluída
Fora de Wilmington, a substância pode aparecer em alimentos, fumaça de cigarro, água contaminada e alguns produtos farmacêuticos.
Registros federais de toxicologia a classificam como um provável carcinógeno humano, ou seja, uma substância capaz de causar câncer, com base principalmente em evidências em animais.
Em geral, as exposições por alimentos e fumaça tendem a ser baixas, mas água subterrânea contaminada pode concentrar o risco em uma mesma comunidade por muitos anos.
Essa combinação de fontes torna os testes sensíveis à idade mais do que um detalhe de laboratório, porque a exposição raramente ocorre por uma única via “limpa”.
Medicamentos acenderam alertas
Recall de medicamentos trouxe mais um motivo para estudar o NDMA na água e ao longo das diferentes fases da vida, e não apenas em locais poluídos.
A Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA) afirma que nitrosaminas - substâncias relacionadas, que podem se formar durante o processamento ou o armazenamento - já apareceram em alguns medicamentos.
Autoridades alertam que níveis acima do aceitável por longos períodos podem elevar o risco de câncer, ao mesmo tempo em que níveis baixos não são esperados causar dano aos pacientes.
Esse aviso não orienta as pessoas a interromperem tratamentos, mas sustenta a necessidade de testes mais rigorosos antes que a exposição aconteça.
O risco em adultos ainda variou
Os adultos no estudo com camundongos não eram invulneráveis; o risco menor dependia de um crescimento mais lento das células do fígado.
Quando os pesquisadores administraram aos adultos um hormônio da tireoide - um sinal do corpo que pode acelerar o crescimento do fígado - as taxas de mutação aumentaram em direção ao padrão observado nos juvenis.
“Nós certamente não queremos dizer que adultos são completamente resistentes ao NDMA”, disse Volk.
Doença, dieta, consumo de álcool ou inflamação podem empurrar as células hepáticas adultas para um crescimento mais rápido e alterar a suscetibilidade.
Testes podem deixar crianças de fora
Testes de segurança padrão frequentemente usam animais totalmente crescidos, o que pode ocultar o risco que aparece durante fases de crescimento acelerado.
Essa escolha torna a biologia adulta o ponto de referência, mas pode falhar em captar como tecidos jovens lidam com a mesma lesão.
“Em estudos toxicológicos, muitas vezes o padrão é usar camundongos totalmente crescidos”, disse Volk. Testes voltados à infância não fariam toda substância parecer perigosa, mas identificariam riscos ligados ao desenvolvimento.
NDMA, água e saúde futura
Diversos experimentos usaram camundongos sem dois sistemas de reparo de DNA, permitindo que alterações nocivas surgissem com menos animais.
Esse desenho facilitou acompanhar o dano, mas também significa que os resultados tumorais mais intensos vieram de camundongos com vulnerabilidade incomum.
Ainda assim, camundongos normais desenvolveram quebras iniciais de dupla fita e padrões amplos de mutação após a exposição, apenas com efeitos mais fracos.
O risco em humanos dependerá do nível e do momento da exposição, além de genética e saúde, então o estudo aponta para cautela - não para pânico.
O mesmo contaminante gerou desfechos diferentes porque células jovens copiaram material genético danificado antes que o reparo pudesse ser concluído.
Uma política mais segura testaria diretamente fases iniciais da vida, protegeria rapidamente fontes de água poluídas e avaliaria o risco em adultos considerando tanto a saúde do fígado quanto a dose.
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