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Estudo da Noruega mostra que o resíduo têxtil começa na produção da camiseta de algodão

Mulher com fita métrica ajustando camiseta branca em estúdio com tecidos e algodão ao fundo.

Existe um enredo já conhecido quando o assunto é moda e meio ambiente: compramos demais e descartamos rápido demais.

O resultado são montanhas de roupas jogadas fora, que acabam em aterros sanitários ou são enviadas para lixões na África Ocidental. É um problema real - e merecia bem mais atenção do que costuma receber.

Ainda assim, um novo estudo da Noruega sugere que, ao concentrarmos o debate apenas no que acontece depois que terminamos de usar uma peça, deixamos passar algo ainda maior, que ocorre bem antes - lá no começo do processo.

O resíduo de roupas começa durante a produção

Cerca de 44% do material usado para fabricar uma camiseta de algodão se perde antes mesmo de a peça chegar a uma loja.

Essas perdas acontecem ao longo da produção: nas fiações, nas tecelagens, nas salas de corte e nas confecções.

Rakib Ahmed realizou a pesquisa quando era estudante de mestrado na Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU) e hoje atua como pesquisador na SINTEF Industry.

“Quando falamos de resíduo têxtil, o debate muitas vezes se concentra nas roupas que jogamos fora. Mas o problema começa muito antes”, afirmou Ahmed.

“Muito do material usado para fazer as roupas se perde antes mesmo de as peças chegarem ao consumidor. Esse aspecto recebe bem menos atenção.”

Acompanhando uma camiseta do campo à lixeira

Para entender com precisão para onde o material vai, a equipe de Ahmed rastreou as fibras de uma camiseta de algodão ao longo de dois ciclos de vida consecutivos - do algodão bruto passando pela produção e pelo uso, até a destinação final (descarte ou reciclagem).

O cenário adotado foi considerado típico para consumidores europeus: produção em Bangladesh, e uso e gestão de resíduos na Noruega.

No percurso, o grupo avaliou cinco tipos de impacto ambiental: aquecimento global, eutrofização de água doce, ecotoxicidade, consumo de água e uso da terra.

Os resultados foram desconfortáveis.

Mesmo levando em conta tudo o que hoje pode ser recuperado - doações de roupas, programas de reciclagem e coleta têxtil municipal - apenas cerca de 17% das fibras originais acabam incorporadas em uma nova peça.

E camisetas de algodão estão entre os itens mais fáceis de reciclar. Em tecidos mistos ou roupas mais complexas, esse percentual seria ainda menor.

Antes de o produto existir

O motivo de esse teto de 17% ser tão baixo não está, principalmente, no facto de os consumidores reciclarem mal. O ponto central é que o processo produtivo desperdiça uma quantidade enorme de material muito antes de o produto final existir.

Em cada etapa - transformar algodão bruto em fio, tecer o fio em tecido, cortar o tecido em partes da peça - há perdas.

Quando uma camiseta chega ao cabide da loja, ela já representa apenas uma parte do algodão que entrou na cadeia para produzi-la. Os outros 44% já estão num contentor de descarte em alguma fábrica.

Isso traz uma implicação evidente para políticas públicas - e a Europa tem sido, em grande medida, lenta em tirar essa conclusão.

“Aqui conseguimos ver claramente que, para as medidas serem eficazes, elas também precisam levar o processo de produção em conta”, disse Johan Berg Pettersen, professor associado da NTNU que orientou a pesquisa.

“Há benefícios ambientais significativos a serem obtidos ao tornar a produção mais eficiente.”

O que pode ser feito

O estudo não se limitou a descrever o problema: também simulou o que sistemas produtivos melhores poderiam entregar.

Se os processos de fiação, tecelagem e confeção se tornarem mais eficientes - com menos acumulação de resíduos e mais reciclagem de aparas e perdas de processo em cada etapa - a parcela de fibras originais recuperadas e reutilizadas poderia subir de 17% para 44%.

As emissões de gases de efeito estufa poderiam cair cerca de 10%. Outros impactos ambientais - uso de água, uso da terra e ecotoxicidade - poderiam recuar de 20 a 25%.

Esses números não são pequenos para um setor frequentemente estimado como responsável por cerca de 10% das emissões globais de gases de efeito estufa.

A pegada da indústria da moda é gigantesca - e não começa no seu guarda-roupa. Ela começa nos campos e nas fábricas.

“Se a UE quiser ter sucesso em reciclar uma proporção maior de têxteis, os países terão de deslocar o esforço para etapas mais acima na cadeia de valor”, disse Christina Meskers, pesquisadora sénior da SINTEF e coautora do estudo.

“Isso levaria a menos resíduos e a um uso melhor dos recursos na produção.”

Quem precisa agir

Fazer isso acontecer não é algo que os consumidores resolvem apenas doando com mais cuidado para lojas beneficentes.

As mudanças necessárias são industriais: passam por como as marcas especificam as suas cadeias de fornecimento, por como os fabricantes desenham os seus processos de produção e por como os governos regulam os resíduos nas fábricas.

Isso exige que governos, marcas e fabricantes atuem em conjunto ao longo de toda a cadeia, da matéria-prima à peça pronta.

É uma conversa mais complexa do que “comprar menos, reciclar mais”. Mas os dados indicam que é justamente essa a conversa que importa.

As roupas que você joga fora são um problema. As roupas que você nunca soube que existiram talvez sejam um problema ainda maior.

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