Você sabia que o seu corpo tem um tipo de “sistema de esgoto” interno?
Esse papel é desempenhado pelo sistema linfático, uma peça essencial da forma como o organismo se defende de infeções e doenças.
Nos últimos tempos, o sistema linfático virou assunto nas redes sociais, com alguns influenciadores a divulgarem a “drenagem linfática” como promessa para beleza e saúde da pele.
Mas, afinal, o que é drenagem linfática? E isso tem respaldo científico?
O que é o sistema linfático e como a linfa circula
O sistema linfático é uma malha de vasos muito finos que, assim como os vasos sanguíneos, se ramificam por grande parte dos tecidos do corpo humano.
Por dentro desses vasos circula a linfa, um líquido transparente que contém glóbulos brancos especializados chamados linfócitos. Esses linfócitos ajudam o corpo a combater infeções.
A diferença em relação ao sangue é que o sangue circula em circuito fechado; já a linfa segue num único sentido. Ela começa como excesso de líquido presente entre os tecidos e, em seguida, é recolhida pelos capilares linfáticos.
Depois, a linfa passa para vasos linfáticos maiores e por gânglios linfáticos (linfonodos), até finalmente retornar para a corrente sanguínea.
De forma geral, o sistema linfático cumpre três funções principais:
- drenar o excesso de líquido, sobretudo para evitar inchaço
- apoiar a imunidade, ajudando o sistema imunitário a identificar e reagir a substâncias indesejadas, como bactérias, vírus, parasitas e células cancerígenas
- absorver gorduras, principalmente provenientes dos alimentos, para transportá-las de volta para o corpo
Quando a linfa não drena como deveria: linfedema
Quando o sistema linfático falha, a região afetada pode começar a inchar. Esse inchaço é chamado de linfedema e ocorre com mais frequência nos braços ou nas pernas.
Há dois tipos principais de linfedema.
O linfedema primário aparece quando o sistema linfático não se desenvolve adequadamente. Isso pode acontecer por uma condição genética que afeta a quantidade de vasos linfáticos, ou a capacidade deles de “bombear” o líquido.
O linfedema primário pode estar presente desde o nascimento, ou surgir na puberdade ou já na vida adulta.
O linfedema secundário, por sua vez, ocorre quando o sistema linfático sofre algum tipo de dano.
Uma causa frequente de linfedema secundário é o cancro.
Isso porque o tratamento do cancro pode incluir a remoção cirúrgica de gânglios linfáticos ou causar lesões nesses gânglios de forma não intencional durante a radioterapia.
O linfedema indica que a linfa não está a drenar de modo adequado. Para tentar manter o fluxo, o corpo força a linfa a entrar nos capilares linfáticos pequenos, que ficam próximos da pele.
É como num engarrafamento: para o trânsito avançar, os carros precisam sair da autoestrada e procurar caminhos alternativos.
O problema é que esses caminhos “secundários” rapidamente também travam, porque não foram feitos para suportar tanto movimento.
Um exame de imagem específico, chamado linfografia com verde de indocianina, pode avaliar se existe congestão no sistema linfático.
Se houver inchaço persistente num membro, o primeiro passo é procurar um médico clínico geral, que vai avaliar o edema para excluir outras causas comuns.
Caso haja suspeita de linfedema, o clínico geral pode encaminhar a pessoa a um especialista em linfedema. Esse profissional pode solicitar a linfografia com verde de indocianina para auxiliar no diagnóstico e/ou no tratamento.
Além disso, quem tem linfedema pode ficar mais vulnerável a infeções, já que o sistema linfático não funciona como deveria.
Uma infeção frequente e potencialmente grave é a celulite bacteriana (infeção da pele), que pode causar vermelhidão e inchaço.
Tratamento do linfedema: compressão, exercício e cuidados com a pele
O tratamento principal do linfedema é a compressão. Ela pode ser feita com meias de compressão medicinais ou com enfaixamento, de modo a aplicar pressão na área inchada.
A compressão ajuda a deslocar o excesso de líquido para fora da região afetada e também contribui para amolecer tecidos endurecidos e edemaciados.
O exercício e os cuidados com a pele também podem fazer parte do tratamento do linfedema.
Durante a atividade física, as contrações musculares funcionam como uma espécie de bomba, ajudando a movimentar líquidos - incluindo a linfa - pelo organismo.
Já a rotina diária de higiene e hidratação, que pode incluir lavar a pele com sabão de pH neutro e aplicar hidratante, é importante para manter a pele limpa e bem hidratada. Isso também reduz o risco de fissuras e infeções, que podem agravar o linfedema.
Drenagem linfática manual: o que a ciência sustenta
Algumas pessoas com linfedema podem beneficiar-se da drenagem linfática manual.
Em geral, isso envolve um profissional treinado em linfedema a aplicar técnicas específicas de massagem para ajudar a deslocar o líquido de áreas congestionadas. A ideia é permitir que o corpo drene a linfa quando, por algum motivo, ele não consegue fazê-lo adequadamente sozinho.
Apesar disso, há pouca evidência de que a drenagem linfática manual, por si só, trate o linfedema de forma relevante e duradoura.
O mesmo vale para as alegações - divulgadas sobretudo nas redes sociais - de que a drenagem linfática manual poderia deixar a pele mais saudável e mais bonita.
Nesse tema, a base científica é ainda mais limitada, e eventuais benefícios tendem a ser pequenos ou de curta duração.
Se o seu sistema linfático está saudável e não há inchaço, provavelmente você não precisa de “drenagem linfática”.
Para apoiar o bom funcionamento do sistema linfático, a melhor estratégia é manter uma alimentação equilibrada, hidratar-se e praticar exercícios com regularidade.
Se você perceber qualquer inchaço ou tiver preocupações sobre o sistema linfático, procure um médico clínico geral. Se estiver em tratamento para cancro, consulte um profissional de linfedema devidamente credenciado.
Caso seja recomendada a drenagem linfática manual, ela deve ser feita por um terapeuta de linfedema com formação.
E o ideal é recebê-la em conjunto com outros cuidados baseados em evidências, como compressão, exercício e cuidados com a pele.
Belinda Thompson, professora sênior no Centro Australiano de Educação, Pesquisa e Tratamento do Linfedema, Universidade Macquarie, e Louise Koelmeyer, diretora do Centro Australiano de Educação, Pesquisa e Tratamento do Linfedema (ALERT), Universidade Macquarie
Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença CC. Leia o artigo original.
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