Muitas ideias para poucos clientes
Antes de entrarmos em guerra cultural por causa de baterias, deixo isto claro: não tenho nada contra elétricos, não vejo um Ferrari elétrico como uma heresia e, não, também não compro a ideia de que “o Enzo Ferrari está se revirando no túmulo”. Faço esse aviso porque, em 2026, muita gente ainda comenta antes de ler. Agora sim, vamos ao que interessa.
O nome e o interior do primeiro Ferrari 100% elétrico foram revelados bem longe de Maranello. Ele se chama Luce e a apresentação aconteceu em São Francisco, no coração da Califórnia - um cenário que conversa diretamente com o berço da cultura tech moderna. Não foi coincidência: foi estratégia.
Às vésperas de entrar na sua primeira fase 100% elétrica, a Ferrari quer colocar na rua algo que continue despertando desejo, mesmo sem um V12. E isso tem se mostrado um desafio real para quem vende “carros de sonho”. Não é opinião: é fato.
Muitas ideias para poucos clientes
Já são vários os fabricantes de esportivos e supercarros que tentaram seguir esse caminho. De Porsche a Rimac, há projetos de elétricos adiados ou encerrados, vendas abaixo do esperado e contas de muitos milhões para fechar, com pouco dinheiro entrando.
Mais recentemente, a Lamborghini anunciou que o seu SUV 100% elétrico foi cancelado. A justificativa foi direta: um interesse que a marca classifica como “quase zero” por parte dos clientes.
A Alfa Romeo também abandonou a ideia de oferecer uma versão elétrica do 33 Stradale, porque apenas um cliente havia demonstrado interesse. Enquanto isso, a versão a combustão do modelo de 1,7 milhões de euros, limitada a 33 unidades, esgotou - e ainda ficaram 20 clientes de fora, sem conseguir uma alocação.
A própria Ferrari, no dia em que apresentou seus planos de eletrificação, decidiu seguir em frente com apenas um modelo e não dois, como estava previsto inicialmente. E esse dia não terminou bem: os acionistas mostraram cartão vermelho a um anúncio feito “com o pé atrás”.
Talvez tenha sido um momento mal lido e a reação tenha sido exagerada. Até porque o primeiro resultado dessa empreitada deixou muita gente de queixo caído, inclusive os mais céticos. Mas, para gerar o indispensável “efeito wow”, a Ferrari precisou buscar apoio fora da Itália - e ainda bem.
Os melhores dos melhores
Para pensar e desenhar tanto o interior quanto a interface, a Ferrari escolheu a LoveFrom, o estúdio criativo fundado por Sir Jony Ive e Marc Newson.
Ive não é um nome qualquer nessa história: foi Diretor de Design da Apple por mais de duas décadas, até 2019, e liderou o desenvolvimento de alguns dos objetos mais influentes do nosso tempo - do iMac ao Macbook Air (o portátil mais vendido do mundo), o Apple Watch e, claro, o iPhone (atualmente, o smarphone mais vendido do mundo).
Num momento em que a maioria das marcas transformou o interior do carro numa extensão do smartphone, o primeiro Ferrari elétrico escolhe um caminho deliberadamente diferente.
Sim, há telas, mas elas não comandam a experiência. Aliás, em entrevista à Autocar, durante o evento, Sir Jony Ive foi ainda mais duro: disse que as telas têm estragado a experiência de condução. Por isso, há controles físicos com função evidente, botões realmente mecânicos que prometem resistência natural, ponteiros analógicos e até o luxo do toque frio do alumínio.
Foi isso que a equipe de design da Ferrari, liderada por Flavio Manzoni, desenvolveu em parceria com esse estúdio externo ao longo dos últimos cinco anos, sem levantar suspeitas.
Dar com uma mão o que se tira com a outra
Sai o V12 e, em troca, prometem uma experiência que continua sendo mecânica e sensorial, agora acompanhada por quatro motores elétricos. Parece contraditório? Talvez. Impossível? Não me parece - afinal estamos falando da Ferrari. Quem acha que esse nome não pesa, mesmo gravado num elétrico, já não está discutindo automóveis; está só sendo fundamentalista.
O painel de instrumentos do Ferrari Luce usa telas OLED em camadas, com profundidade visual, mas também traz ponteiros físicos de verdade. A ideia é dar outro tipo de brilho ao interior, que não seja apenas o brilho de OLED - porque disso já basta o que a gente tem no bolso, nos smartphones.
É exatamente o que a Porsche deveria ter feito no 911 (992.2), mas não fez. A Ferrari abre aqui um precedente que espero que ecoe em Estugarda: dizer não à digitalização total e entregar a quem quer algo especial (e paga por isso) o que os carros comuns perderam.
Com o que está acontecendo na Volkswagen, trazendo botões de volta, espero que a Porsche olhe com atenção para isso.
No Ferrari Luce, a console central foi concebida como um elemento ativo: uma tela que pode ser orientada e compartilhada com o passageiro. Há ainda um relógio com ponteiros analógicos capaz de assumir funções diferentes e uma chave com tecnologia e-ink. Ou seja, uma chave que, depois de encaixar magneticamente na console, muda de cor.
Assim, a marca espera que o ato de ligar um Ferrari continue sendo assunto, só que agora também para quem aprecia essas tecnologias. Eu não discordo da escolha: num mundo em que motores a combustão não cantam - e em que não existem mais melodias de V12 - a Ferrari precisa encontrar outros argumentos para convencer.
Algumas especificações técnicas
Do ponto de vista técnico, podemos esperar uma arquitetura de 800 V e carregamento rápido de até 350 kW. Fala-se numa bateria de “grande capacidade” e numa configuração com quatro motores elétricos e potência combinada acima dos 1000 cv.
A marca também cita um centro de gravidade significativamente mais baixo em comparação com um modelo equivalente a combustão (pela posição e distribuição das baterias, como acontece na maioria dos elétricos), além de soluções de suspensão ativa e direção nas quatro rodas.
O que ainda não se sabe é justamente o que eu mais espero desse modelo. Porque, em especificação técnica, vai ser difícil surpreender: potência e motores 100% elétricos são, como todos sabemos, algo bem democrático (ao contrário dos V12).
Minha esperança é que seja um elétrico realmente interessante de guiar, que derrube preconceitos, que entregue mais emoção do que os outros. Eu até não esperava um interior desses, mas espero, sem dúvida, que ao volante ele seja um Ferrari - com todo o peso que isso tem. E, nesse capítulo, há bons sinais.
Som do motor? Sim e sem colunas
Outro ponto delicado que a Ferrari decidiu encarar de um jeito diferente é o som do motor. Em vez de simular artificialmente motores térmicos, a marca diz estar trabalhando numa assinatura sonora baseada em vibrações reais do sistema de tração, amplificadas e tratadas como parte da experiência. Mantendo a aposta, arrisco antecipar: este Ferrari terá “o motor elétrico com o melhor som de sempre”.
Por enquanto, a marca de Maranello preferiu começar pelo interior - e dá para entender o motivo. Num Ferrari elétrico, o habitáculo precisa oferecer uma experiência inédita na marca, capaz de surpreender o motorista tanto quanto o exterior, já que ele não será “entretenido” por um motor a combustão.
O cuidado que a Ferrari está colocando no interior do Luce, na minha opinião, com um resultado excelente, é a força que a marca precisava para lançar o supercarro elétrico mais importante de sempre. Porque, mais importante do que ser elétrico, é ser um Ferrari.
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