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Obesidade: como controlar a glicose, perder peso e reduzir gordura visceral

Mulher grávida sorrindo enquanto prepara salada na cozinha, com fita métrica e monitor de glicose à frente.

No Brasil e no mundo, o excesso de peso deixou de ser exceção e virou parte do cotidiano - mas isso não torna o problema menos grave. Estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que mais de 2,5 bilhões de adultos atualmente estão acima do peso ou com obesidade, um número que escancara uma crise global de saúde.

E obesidade não é só “um número na balança”: ela aumenta de forma importante o risco de várias doenças sérias, como diabetes tipo 2, doença renal, infarto e AVC. Por isso, à medida que a informação chega a mais gente, cresce também a dúvida central: como perder peso e manter a saúde no longo prazo?

A obesidade é uma condição complexa, com muitos fatores envolvidos. Não se trata apenas de comer demais ou se exercitar de menos.

Para muitas pessoas, o estresse emocional e psicológico tem um papel decisivo. Pressão no trabalho, preocupações financeiras, conflitos familiares ou ansiedade social podem levar à alimentação emocional.

Outras podem desenvolver obesidade como consequência da depressão, que frequentemente bagunça os padrões de alimentação e reduz a motivação para praticar atividade física.

Além disso, o estilo de vida moderno facilita o ganho de peso como nunca. Muita gente passa horas sentada - no escritório, no carro, no transporte e em casa - e alimentos ultraprocessados, muito calóricos, estão por toda parte, com forte marketing.

Esse conjunto de fatores comportamentais, psicológicos, sociais e ambientais cria um cenário em que engordar fica cada vez mais fácil de acontecer e, depois, mais difícil de reverter.

Como a obesidade tem várias causas, ela também pede uma solução em várias frentes. Os tratamentos mais eficazes seguem uma abordagem multimodal, em que profissionais de saúde - psicólogos, nutricionistas e médicos - atuam juntos para apoiar as pessoas na jornada de perda de peso.

Esse trabalho em equipe não se limita a dieta e exercício: ele também enfrenta desafios emocionais e de saúde mental que costumam estar por trás do ganho de peso.

Essa estratégia é especialmente eficaz para pessoas com pré-diabetes, condição em que a glicose no sangue está elevada, mas ainda não no patamar de diabetes. Pesquisas mostram que mudanças de estilo de vida orientadas por uma equipe multidisciplinar podem reduzir de forma significativa o risco de evoluir para diabetes.

Embora perder 5%–7% do peso corporal seja uma boa meta para reduzir riscos à saúde, pesquisas recentes do nosso grupo em Tübingen, na Alemanha, indicam que combinar a perda de peso com o controle da glicose é ainda mais efetivo. Dados de outro estudo sugerem que focar nesses dois pontos está associado a menos complicações do diabetes, como dano renal e problemas que afetam pequenos vasos sanguíneos.

Gordura visceral

Por que essa combinação funciona tão bem? Ao que tudo indica, pessoas que conseguem ao mesmo tempo emagrecer e baixar a glicose tendem a reduzir a gordura visceral - o tipo de gordura acumulada ao redor dos órgãos internos, no abdômen.

A gordura visceral é particularmente perigosa porque estimula inflamação no corpo, o que pode diminuir a eficácia da insulina, o hormônio que regula a glicose no sangue.

Felizmente, algumas mudanças no estilo de vida ajudam de forma específica a reduzir a gordura visceral. Por exemplo, atividade física regular - especialmente exercício aeróbico - e dietas ricas em ácidos graxos poli-insaturados (presentes em nozes, sementes, peixes e óleos vegetais) se mostram especialmente eficazes. Entre diferentes padrões alimentares, a dieta mediterrânea, que enfatiza grãos integrais, gorduras saudáveis, vegetais e proteínas magras, é particularmente efetiva.

Combinar exercícios regulares com uma alimentação no estilo mediterrâneo não é bom apenas para emagrecer, mas também para a saúde cardiovascular e metabólica no longo prazo. Ainda assim, manter esses hábitos ao longo do tempo continua sendo um desafio para muita gente.

Estudos mostram que uma parcela significativa de quem perde peso volta a ganhá-lo em poucos anos. Quando o peso retorna, os riscos associados também voltam - como diabetes, pressão alta e colesterol elevado.

Esse ciclo de perder e recuperar peso pode ser frustrante e desgastante do ponto de vista emocional, levando muitas pessoas a buscar alternativas que tragam resultados mais sustentáveis.

Medicação e cirurgia

Nos últimos anos, agonistas do receptor de GLP-1 - uma classe de medicamentos criada originalmente para tratar diabetes - têm mostrado potencial para promover perda de peso.

Esses remédios imitam o hormônio GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon-1), liberado pelo intestino após as refeições. Ele ajuda a regular o apetite ao aumentar a sensação de saciedade e também estimula a liberação de insulina, reduzindo a glicose no sangue.

No entanto, medicamentos baseados em GLP-1 vêm sendo cada vez mais usados para emagrecimento “estético”, o que levanta preocupações éticas e de segurança. Embora possam ser eficazes, o impacto de longo prazo em pessoas sem obesidade ainda é pouco compreendido.

Os efeitos colaterais podem incluir náuseas, vômitos e problemas mais sérios, por isso o uso deve ser sempre orientado por um profissional de saúde.

Uma limitação importante dos medicamentos de GLP-1 é que os benefícios geralmente diminuem após a interrupção, com recuperação rápida do peso. Assim, para manter ganhos de saúde, pode ser necessário uso prolongado - ou até permanente.

Para pessoas com obesidade grave, especialmente quando existem complicações importantes como diabetes tipo 2 ou doença cardíaca, a cirurgia bariátrica pode mudar a vida. Procedimentos como bypass gástrico ou gastrectomia vertical (sleeve) reduzem o tamanho do estômago e, em alguns casos, alteram a sinalização de hormônios intestinais.

O resultado é uma perda de peso significativa e sustentada, com redução do risco de doenças associadas à obesidade, incluindo uma queda importante no risco de doença cardíaca e morte prematura. A bariátrica não é indicada para todos, mas, quando apropriada, segue sendo uma das intervenções mais eficazes disponíveis.

Pesquisadores agora estão desenvolvendo novos medicamentos que combinam os efeitos de múltiplos hormônios intestinais para potencializar a perda de peso. Alguns podem alcançar resultados comparáveis aos da cirurgia bariátrica, mas a maioria ainda está em testes em ensaios clínicos.

Combinação vencedora

Para quem está começando a jornada de emagrecimento, a combinação de atividade física com uma alimentação saudável - como a dieta mediterrânea - ainda é o melhor ponto de partida. Quando sustentadas, essas mudanças podem trazer melhorias duradouras no peso, na glicose e na saúde como um todo.

Para quem tem glicose elevada, mirar a redução da gordura visceral por meio de mudanças de estilo de vida combinadas ao controle da glicemia é especialmente importante. E, para pessoas que convivem com obesidade e problemas de saúde associados, terapias médicas e opções cirúrgicas são ferramentas poderosas para apoiar uma mudança que dure.

No fim, a chave para perder peso e melhorar a saúde de forma duradoura está em entender que não existe solução única para todo mundo. O caminho é encontrar a combinação certa de suporte, estratégia e ciência que funcione para cada pessoa.

Reiner Jumpertz-von Schwartzenberg, Professorship for Clinical Metabolism and Obesity Research, University Hospital and Medical Faculty, University of Tübingen

Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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