Nos subúrbios americanos, aves de rapina já viraram parte da paisagem há bastante tempo.
Em algumas regiões de Ohio, elas aparecem com tanta regularidade - em telhados de bibliotecas e nas árvores do quintal - que muita gente mal repara. Essa convivência diária faz com que passem despercebidas.
Só que essa familiaridade esconde um detalhe inesperado. Nos melhores pontos de caça, os casais de gaviões estão, discretamente, produzindo mais filhas do que filhos.
Para entender em que condições isso acontece, pesquisadores acompanharam esses gaviões em Ohio por 30 anos.
Inclinando o balanço para filhas
A espécie é o gavião-de-ombros-vermelhos, uma ave de rapina de porte médio que vive em florestas, áreas suburbanas e, cada vez mais, em cidades.
Como muitos rapinantes, o gavião-de-ombros-vermelhos consegue influenciar a proporção de sexos da prole antes mesmo de os ovos eclodirem.
Quando há comida em abundância, os pais tendem a favorecer o sexo mais “caro”.
Não está claro como a fêmea define esse viés antes da postura, mas ele fica evidente quando os filhotes nascem.
As filhas são as mais custosas. Uma fêmea cresce cerca de um quarto mais pesada do que um macho, e esse volume extra exige mais alimento para se formar.
Com três semanas de vida, o sexo já aparece no corpo - algo que biólogos identificam pelas pernas e pelos pés.
Três décadas acompanhando ninhos de gaviões
A Dra. Cheryl Dykstra passou 30 anos acompanhando gaviões-de-ombros-vermelhos por todo o estado de Ohio por meio da sua empresa de pesquisa, a Raptor Environmental.
A equipe anilhou filhotes e monitorou ninhos em matas rurais, subúrbios tranquilos e até no meio de cidades movimentadas.
A Dra. Dykstra e seus coautores, incluindo biólogos da Ohio University, testaram uma ideia direta.
O grupo buscou verificar se territórios mais ricos - aqueles com mais presas - abrigam mais filhas do que territórios mais pobres.
As proporções de sexos variam de ninho para ninho e de um ano para outro, então só uma série de dados que se estende por mais de uma década consegue separar um padrão real do acaso.
Por que filhas custam mais para criar
Para o gavião-de-ombros-vermelhos, ter filhas pode ser um investimento vantajoso quando as condições são boas.
Fêmeas frequentemente começam a se reproduzir mais cedo do que machos, o que permite transmitir os genes dos pais mais rapidamente.
Machos, por outro lado, podem passar anos esperando um território próprio antes de conseguir se reproduzir.
Mas filhas também têm um custo maior. Como as fêmeas crescem mais do que os machos, precisam de mais alimento durante o desenvolvimento.
Por isso, os pais têm maior probabilidade de produzir filhas quando as presas são abundantes e os recursos, fartos.
Essa troca combina com uma teoria clássica da biologia. Pais em boa condição ganham mais ao investir no sexo mais exigente, enquanto os que estão “no limite” ficam mais seguros com o sexo menos custoso.
Os territórios mais ricos produzem mais fêmeas
Quando a equipe comparou a qualidade do território com o sexo dos filhotes, o padrão se manteve.
Gaviões nas melhores áreas, cheias de presas, criaram mais filhas do que gaviões em terras mais pobres. Ninguém havia demonstrado isso antes no gavião-de-ombros-vermelhos.
O resultado conversa com o que já se viu em outras aves. Um estudo com outra ave de rapina encontrou a mesma tendência: os territórios mais ricos geravam mais filhotes fêmeas.
Padrões parecidos também foram observados em alguns falcões e peneireiros no exterior.
O que a longa série de dados de Ohio acrescenta é uma ligação clara em um gavião que hoje está avançando para dentro das cidades.
Como os pais melhor alimentados têm mais filhas, a proporção de fêmeas começa a funcionar como um “termômetro” de quão bom é um habitat.
Tamanho da ninhada e época também importam
A qualidade do território não foi o único fator a influenciar o sexo dos filhotes.
Ninhos com apenas um filhote tinham mais chance de conter uma fêmea, sugerindo que, quando os pais criam só um descendente, muitas vezes é o sexo maior e mais exigente.
O momento da postura também entrou na conta. Ovos colocados mais tarde na temporada reprodutiva tinham maior probabilidade de gerar machos, independentemente de quanta presa havia por perto.
O achado sugere que, conforme a estação avança, os pais podem favorecer filhos porque eles exigem menos energia para serem criados, tornando-se um investimento mais seguro mesmo em habitats de alta qualidade.
Disponibilidade de alimento e tamanho da ninhada continuam aparecendo como alavancas que afetam o sexo de jovens rapinantes.
Gaviões na cidade
Gaviões urbanos vivem sob regras diferentes das dos parentes da floresta e encaram riscos distintos. Um ninho numa rua movimentada fica cercado de perigos.
Uma preocupação é o raticida. Às vezes, gaviões na cidade caçam ratos - justamente os animais que as pessoas envenenam - e podem ingerir essas toxinas de forma indireta.
A equipe da Dra. Dykstra quer entender o quanto os gaviões urbanos estão expostos.
As aves das cidades provavelmente se chocam com veículos com mais frequência do que as rurais. O grupo suspeita que essas perdas aumentem a mortalidade e reduzam o tempo em que um indivíduo consegue manter seu território.
Esclarecer essas ameaças faz parte de proteger uma espécie que está se instalando em bairros humanos.
Um sinal oculto da qualidade do habitat
O padrão revelado por décadas de monitoramento de ninhos foi surpreendentemente nítido. Gaviões-de-ombros-vermelhos em territórios ricos em presas produziram mais filhas do que aqueles em habitats mais pobres.
Como filhotes fêmeas exigem mais recursos para serem criados, sua presença parece refletir a qualidade do ambiente ao redor.
À medida que o gavião-de-ombros-vermelhos se espalha pelas cidades, o equilíbrio entre machos e fêmeas pode ajudar a indicar a qualidade do habitat.
Esse mesmo sinal pode ajudar equipes de conservação a distinguir quais áreas verdes urbanas realmente sustentam gaviões e quais apenas parecem promissoras.
“Poucas pessoas conseguem resistir ao apelo de um filhote de ave de rapina desajeitado, ainda meio emplumado”, disse a Dra. Dykstra.
A boa vontade do público pode proteger essas aves tanto quanto qualquer dado.
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