Cientistas identificaram os esqueletos de dois fósseis de baleias que ficaram soterrados por cerca de 10 milhões de anos sob uma praia perto de Grândola, ao sul de Lisboa, em Portugal.
A descoberta oferece uma janela incomumente direta para uma antiga linha de costa do Atlântico e para a vida marinha que existia ali.
Tempestades expuseram os fósseis de baleias
Ao norte da praia de Galé-Fontainhas, uma laje de rocha à mostra guardava crânios, mandíbulas, vértebras e costelas de duas baleias diferentes.
Trabalhando contra o ritmo das marés, Carla Tomás, do Museu da Lourinhã, ajudou a registar e a resgatar os ossos antes que as ondas e a areia em movimento os destruíssem.
O que se preservou não foi um conjunto disperso de restos isolados, mas porções substanciais de dois animais de um mar do Mioceno tardio.
Esse grau de completude dá ao local um valor pouco comum e abre a questão maior: afinal, que tipo de baleias eram essas.
Uma família de baleias desaparecida
Os investigadores enquadram os fósseis de baleias no grupo Mysticeti, a linhagem que mais tarde evoluiu para apresentar barbas (baleia de barbatanas) em vez de dentes na fase adulta.
Nos representantes actuais, as lâminas de barbas - placas de queratina que filtram presas da água do mar - permitem que bocas enormes capturem alimento minúsculo com eficiência.
Os animais de Galé podem pertencer aos Cetotheriidae, uma família extinta de baleias de barbas menores que foi comum ao largo de Portugal.
Essa atribuição, porém, ainda é provisória, porque a preparação em laboratório precisa revelar mais detalhes antes que seja possível ligar os esqueletos a uma espécie.
Um mar antigo cheio de vida
As tempestades não trouxeram à luz apenas fósseis de baleias: também expuseram mais de 100 metros de rocha rica em fósseis ao longo da costa (aproximadamente 330 pés).
Essa laje preservou golfinhos, tartarugas, tubarões, peixes ósseos e uma concentração densa de animais com conchas provenientes do mesmo mar.
Ela também continha icnofósseis - vestígios de actividade antiga, e não partes do corpo - que podem indicar como os animais escavavam e se deslocavam no fundo marinho.
Esses “companheiros” são importantes porque colocam as baleias dentro de um ecossistema em funcionamento, em vez de deixá-las como ossos isolados.
As rochas ajudam a datar os fósseis de baleias
Geólogos associam o local à Formação de Alcácer do Sal, uma unidade rochosa nomeada que se formou num mar raso.
Trabalhos de datação dessa formação situam o depósito no Mioceno tardio, um intervalo que terminou há cerca de cinco milhões de anos.
Um estudo estimou parte dessa unidade rochosa em aproximadamente 11,5 milhões de anos, o que é compatível com a idade do Mioceno tardio indicada para Galé.
Essa data é relevante porque coloca as baleias num período em que a costa portuguesa e a vida marinha tinham um aspecto muito diferente do actual.
O arquivo português de fósseis de baleias
Portugal revela fósseis de baleias há gerações, sobretudo nas regiões de Lisboa e Setúbal, onde rochas marinhas do Mioceno afloram à superfície.
Um artigo de 2024 sobre crânios mais antigos de cetáceos portugueses mostrou por que esses depósitos continuam essenciais para compreender relações entre baleias de barbas extintas.
Galé acrescenta algo distinto: um grande exemplar da Bacia de Alvalade, em vez das faixas fossilíferas mais conhecidas mais ao norte.
Esse mapa mais amplo pode ajudar a esclarecer se essas baleias eram especialistas locais ou integrantes de uma comunidade atlântica mais extensa.
Por que o resgate foi uma corrida
As condições de praia tornaram a recuperação particularmente delicada, porque os ossos estavam na zona entremarés - a faixa ora coberta, ora descoberta pela água do mar.
Cada maré alta levava água sobre o ponto de escavação, e cada período mais calmo podia voltar a esconder os esqueletos sob a areia em deslocamento.
O acesso dependia das marés, o que obrigou a equipa a planear uma operação com tempo contado para escavar, estabilizar, embalar e transportar os fósseis de baleias.
Sem uma resposta rápida, o vaivém do mar e a areia poderiam ter danificado justamente os elementos que tornam esses esqueletos valiosos do ponto de vista científico.
Ossos que guardam pistas
Crânios e mandíbulas costumam reunir as evidências mais fortes sobre baleias extintas, porque o estilo de alimentação e as inserções musculares deixam marcas duráveis.
Várias vértebras e costelas também acrescentam informação corporal, mostrando como a coluna se flexionava e como o tórax ajudava a sustentar a natação.
Possíveis ossos do ombro e dos membros anteriores são uma notícia ainda melhor, já que esses elementos raramente se preservam junto com a cabeça de uma baleia.
Segundo os investigadores, os dois esqueletos estão entre os fósseis de baleias do Mioceno mais completos já descobertos em Portugal e também entre os exemplos mais bem preservados encontrados em qualquer parte da Europa.
O que ainda é incerto
A preparação em laboratório vai determinar quanto de cada esqueleto realmente está presente e quais partes pertencem a cada animal.
A rocha ainda aderida aos ossos pode ocultar suturas, fraturas e padrões de desgaste capazes de alterar a atribuição familiar.
As comparações com exemplares portugueses já conhecidos serão mais decisivas quando os técnicos expuserem cada borda do teto do crânio e da mandíbula.
Por enquanto, as evidências apontam para cetoterídeos, mas os fósseis ainda não receberam um nome definitivo de espécie.
Da praia para a cidade
Neste momento, Grândola mantém os fósseis sob custódia enquanto avançam os planos para enviá-los ao laboratório da Lourinhã para conservação.
Ali, os técnicos vão limpar, estabilizar e estudar cada bloco, permitindo que ossos ocultos apareçam sem provocar novos danos.
Também está a ser preparado um acordo de cooperação local, conectando a investigação à partilha pública, em vez de manter a descoberta restrita.
Esse componente cívico importa, porque uma descoberta na praia torna-se mais duradoura quando a cidade a assume como património partilhado.
O que vem a seguir
Galé reuniu anatomia, geologia e cronologia numa única faixa costeira exposta, dando aos cientistas a oportunidade de ligar as baleias ao seu ambiente.
Meses de preparação dirão quanto essa praia ainda pode revelar, mas ela já reabriu um capítulo da história do antigo mar de Portugal.
Informações a partir de um comunicado de imprensa da Câmara Municipal de Grândola.
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