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Depois de mais de um século desde que passou a influenciar a guerra no mar, a capacidade submarina segue como um dos alicerces da dissuasão naval e da projeção estratégica. Na Ibero-América, o quadro é marcado por contrastes claros: enquanto a Espanha - pioneira no submarino elétrico militar com o projeto de Isaac Peral - iniciou a incorporação dos modernos S-80, e o Brasil avança na consolidação da classe Riachuelo dentro do programa PROSUB, uma parcela relevante das marinhas sul-americanas continua apoiada nos veteranos, embora ainda plenamente atuais, Tipo 209 de origem alemã.
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Projetados para exportação e com dimensões relativamente compactas para a categoria, esses submarinos - e suas diversas variantes - acabaram se tornando, pela quantidade de operadores e por décadas de emprego, o verdadeiro padrão da guerra submarina convencional na América do Sul. No polo oposto está a Argentina, que segue sem submarinos operacionais desde a perda do ARA San Juan, evidenciando as grandes diferenças atuais nas capacidades submarinas regionais.
Hoje, apenas um grupo restrito de países ibero-americanos mantém forças submarinas ativas. Espanha, Brasil, Chile, Peru, Equador e Colômbia operam submarinos com diferentes níveis de modernização e disponibilidade, enquanto a Venezuela mantém oficialmente dois Tipo 209 fora de serviço há anos.
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Espanha: o desafio de desenvolver uma nova geração de submarinos
A Armada Espanhola está à frente da renovação tecnológica das forças submarinas ibero-americanas ao colocar em operação a classe S-80. Desenvolvido integralmente pela Navantia, o programa se consolidou como um dos empreendimentos industriais e de defesa mais complexos realizados pela Espanha nas últimas décadas. Após enfrentar obstáculos técnicos relevantes ao longo do desenvolvimento, o projeto começou a se concretizar com a entrada em serviço do S-81 Isaac Peral, primeira unidade de uma série planejada para substituir, de forma gradual, os submarinos da classe Galerna (S-70), derivados do desenho francês Agosta.
Mais do que simplesmente entregar um novo submarino, o S-80 representa um avanço tecnológico para a indústria naval espanhola. As novas embarcações reúnem alto nível de automação, sistemas de combate modernos, sensores de última geração e uma arquitetura preparada para receber, progressivamente, a Propulsão Independente do Ar (AIP). Essa tecnologia deve ampliar de maneira significativa a autonomia submersa, reduzindo a necessidade de emergir para recarregar baterias.
A evolução da série segue em ritmo constante. O S-82 Narciso Monturiol, segundo submarino da classe, realizou recentemente sua primeira imersão estática em águas próximas a Cartagena - uma das verificações de segurança mais relevantes antes do início dos testes de navegação submersa. Na atividade, foram avaliados o comportamento estrutural do casco resistente, o funcionamento adequado dos tanques de lastro e a estabilidade do navio, confirmando mais um marco dentro do calendário de certificação.
Ao mesmo tempo, as demais unidades avançam conforme o cronograma estabelecido. O S-83 Cosme García continua em construção com a instalação de seus motores a diesel, enquanto o S-84 Mateo García de los Reyes progride em diferentes etapas de montagem no estaleiro de Cartagena. Com a conclusão da série, a Armada Espanhola contará com uma das frotas de submarinos convencionais mais modernas da Europa, ao mesmo tempo em que reforça a autonomia tecnológica e industrial obtida no campo da construção naval militar.
Brasil: o PROSUB e uma modernização sem precedentes na região
Se a Espanha simboliza a vanguarda europeia, o Brasil conduz o movimento de modernização submarina na América Latina. A Marinha do Brasil possui atualmente a maior força submarina da América do Sul e está comprometida com o Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB), uma iniciativa estratégica voltada não apenas à atualização da frota convencional, mas também à criação do primeiro submarino de propulsão nuclear da região.
O eixo central dessa transformação é a classe Riachuelo, uma evolução do desenho francês Scorpène, construída no Complexo Naval de Itaguaí por meio de transferência de tecnologia do Naval Group. Estão em serviço o Riachuelo (S40), o Humaitá (S41) e o Tonelero (S42). Já o Almirante Karam (S43) permanece em construção, com previsão de incorporação em 2027, completando o conjunto de quatro submarinos convencionais do programa.
A chegada dessas unidades vem acompanhada da retirada gradual da classe Tupi, baseada no Tipo 209/1400, que por mais de três décadas permitiu à Marinha brasileira acumular ampla experiência e formar sucessivas gerações de submarinistas. Paralelamente, segue em operação o Tikuna (S34), uma versão profundamente aprimorada do Tipo 209 desenvolvida no país, considerada o ápice da evolução brasileira sobre o consagrado projeto alemão.
O componente mais ambicioso do PROSUB continua sendo o submarino nuclear Álvaro Alberto. No entanto, limitações orçamentárias e a alta complexidade tecnológica levaram a Marinha do Brasil a reprogramar seu lançamento para 2038, deixando para trás cronogramas anteriores que previam a incorporação primeiro para 2025 e depois para 2034.
O maior desafio permanece no desenvolvimento de um reator nuclear totalmente brasileiro, atualmente em fase de validação no Laboratório de Geração de Energia Nucleoelétrica (LABGENE). Enquanto isso, progridem a infraestrutura de apoio, os centros de treinamento e as instalações do Complexo Naval de Itaguaí, demonstrando que o PROSUB vai além da simples entrega de submarinos e se configura como um projeto de transformação industrial, tecnológica e estratégica voltado a consolidar a autonomia naval brasileira no Atlântico Sul.
Chile: pioneiro regional em incorporar o Scorpène
A Armada do Chile dispõe de uma das forças submarinas convencionais mais equilibradas e modernas da Ibero-América. O núcleo é formado pelos submarinos SS-22 O’Higgins e SS-23 General Carrera, ambos da classe Scorpène, incorporados nos anos 2000 e equipados com sistemas de combate avançados, sensores modernos e elevado desempenho em discrição acústica.
Essas capacidades são complementadas pelos SS-20 Thomson e SS-21 Simpson, da classe Tipo 209/1400L, que passaram por sucessivos ciclos de modernização para sustentar alto nível de disponibilidade operacional. A combinação das duas classes garante ao Chile uma força submarina apta a atuar em toda a costa do Pacífico Sul e a participar com frequência de exercícios multinacionais de alta complexidade.
Peru: o principal operador do Tipo 209 na América do Sul
A Marinha de Guerra do Peru segue como o maior operador regional do Tipo 209, com uma força composta por seis submarinos das variantes 209/1100 e 209/1200. Ao longo do tempo, essas unidades passaram por diferentes programas de modernização voltados à atualização de sistemas de combate, sensores, equipamentos eletrônicos e capacidades operacionais.
Com essas melhorias, o Peru preserva uma das forças submarinas convencionais mais numerosas e experientes da América Latina, apoiada em um projeto de notável longevidade e que continua sendo peça central da estratégia naval peruana.
O predomínio do Tipo 209 na América do Sul
Apesar das diferenças profundas entre as marinhas da região, há um traço comum que atravessa praticamente toda a história recente da guerra submarina sul-americana: o domínio do Tipo 209. Desenvolvido pelo estaleiro alemão Howaldtswerke-Deutsche Werft (HDW) para o mercado externo, esse submarino reuniu porte relativamente compacto, excelentes características oceânicas, custos de operação reduzidos e grande margem para modernizações - fatores que ajudam a explicar seu êxito internacional extraordinário.
Argentina, Brasil, Chile, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela adotaram variantes do Tipo 209, tornando-o o submarino convencional mais disseminado da América do Sul e a plataforma sobre a qual se formaram gerações inteiras de submarinistas.
A Armada do Equador mantém em serviço o Shyri (SS-101) e o Huancavilca (SS-102), ambos Tipo 209/1300, atualizados para estender a vida útil e seguir executando missões de vigilância marítima e controle do espaço oceânico.
Na Colômbia, a força submarina combina dois Tipo 209/1200, da classe Pijao, com dois submarinos da classe Intrépido, derivados do projeto alemão Tipo 206A adquiridos de segunda mão da Alemanha. Esse arranjo entrega uma capacidade equilibrada voltada a patrulha, treinamento e defesa do litoral.
Já a Venezuela mantém oficialmente os submarinos Sábalo (S-31) e Caribe (S-32), ambos Tipo 209/1300. Contudo, restrições financeiras, dificuldades de manutenção e a falta de programas contínuos de recuperação mantêm as duas unidades fora do serviço operacional há vários anos, reduzindo de forma significativa a capacidade submarina da Armada Bolivariana.
Argentina: a crise ainda não resolvida de sua frota de submarinos
A Argentina é, hoje, a principal exceção no panorama submarino ibero-americano. Desde a perda do ARA San Juan, em novembro de 2017, a Armada Argentina não dispõe de submarinos operacionais - uma condição que a deixa sem uma das capacidades estratégicas mais importantes para vigilância e controle dos espaços marítimos.
Atualmente, o veterano ARA Salta (S-31) permanece à tona na Base Naval de Mar del Plata, onde é utilizado para instrução e adestramento. Já o ARA Santa Cruz, da classe TR-1700, continua fora de serviço após a interrupção de sua reparação de meia-vida. Soma-se a isso o cancelamento do programa que pretendia concluir as unidades restantes do TR-1700, mantendo sem avanços concretos a recuperação da Força de Submarinos.
Enquanto a Espanha investe em uma nova geração de submarinos convencionais e o Brasil progride rumo à construção do primeiro submarino de propulsão nuclear da América Latina, o cenário sul-americano continua evidenciando a notável atualidade do Tipo 209. Mais de cinco décadas após seu surgimento, o projeto alemão ainda sustenta a maioria das forças submarinas da região, convivendo com plataformas de última geração como os S-80 e os Scorpène e se afirmando como um dos submarinos convencionais mais bem-sucedidos e duradouros da história.
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