Pular para o conteúdo

Fóssil brasileiro de Tametara mirim revela como as primeiras cobras evoluíram

Pesquisador escava fóssil de réptil com lupa e pincel em laboratório de paleontologia.

Um fóssil do Brasil, preservado de forma excepcional, está oferecendo aos cientistas uma das visões mais nítidas até agora sobre como as primeiras cobras surgiram.

O esqueleto em 3D indica que algumas cobras ancestrais se adaptaram à vida subterrânea muito antes de aparecerem as espécies modernas.

Ao mesmo tempo, o achado sugere que as cobras mais antigas exploraram uma variedade de habitats maior do que se imaginava.

Em vez de um único evento explicando a origem do grupo, o cenário aponta para múltiplos hábitos independentes moldando essa transição.

“É impressionante como as cobras têm transformado o seu plano corporal”, disse Nicolas Di-Poï, professor da Universidade de Helsínquia, ao Earth.com.

“As cobras não estavam a seguir apenas um caminho; elas já estavam a experimentar e a tentar diferentes frentes.”

O debate evolutivo

As cobras formam um dos grupos de vertebrados mais bem-sucedidos e diversos, com mais de 4.000 espécies.

Paleontólogos defendem que a origem das cobras ocorreu no Jurássico Médio, por volta de 160 milhões de anos atrás, e que a diversificação se intensificou durante o período Cretáceo.

Ainda assim, como os corpos das cobras modernas são extremamente modificados e há poucos fósseis bem preservados, a discussão sobre as suas origens permanece aberta.

Até agora, foram encontrados apenas 10 fósseis de cobras datados do Mesozóico, e somente três deles estão preservados em três dimensões.

Esses registros sustentam grande parte do que se sabe sobre a evolução das cobras, incluindo o alongamento do corpo e a redução dos membros.

Porém, a falta de material de alta qualidade mantém sem resposta uma questão central: as cobras teriam surgido em ambientes marinhos, escavadores (subterrâneos) ou de superfície?

A descoberta da cobra mais antiga

O professor Di-Poï e os seus colegas identificaram uma nova espécie de cobra do Cretáceo Superior, a Tametara mirim. O nome significa “ornamentada” e “pequena”.

Di-Poï contou ao Earth.com que o exemplar foi descoberto em 2020, mas só ficou disponível para estudo há um ano.

“Porque a equipa principal que descobriu o fóssil queria um grupo com experiência em morfologia cerebral, especialmente em como quantificar características do cérebro”, explicou.

“Não houve tantos fósseis até aqui, e a maioria tem sido apenas fragmentos de ossos, como partes do crânio. Três cobras principais foram descobertas como fósseis até agora, mas esta é a mais bem preservada, incluindo tanto o crânio como o tórax.”

Uma cobra escavadora precoce

Para inferir como a Tametara mirim poderia ter vivido há cerca de 85 milhões de anos, a equipa examinou a forma de uma região do cérebro chamada telencéfalo.

Em geral, cobras ou lagartos que passam a vida no subsolo apresentam um formato cerebral característico.

Neles, a porção anterior - associada à visão e ao olfato - não se projeta de forma tão acentuada a partir da porção média, responsável por processar informação visual, como ocorre em cobras que vivem acima do solo.

Quando os investigadores reconstruíram a forma da cavidade craniana do fóssil, tomografias computadorizadas (TC) mostraram que a Tametara tinha uma morfologia cerebral claramente diferente tanto das cobras modernas quanto de outras cobras basais (stem snakes) já conhecidas.

“Há diferentes características que são realmente específicas das cobras”, afirma Di-Poï.

As análises também indicaram que as áreas do cérebro ligadas à visão (o teto óptico) estavam visivelmente reduzidas.

Um padrão semelhante aparece em animais subterrâneos que dependem menos da visão - nessas espécies, essas estruturas tendem a ser menos desenvolvidas.

Pistas nos ossos do crânio

Para escavar o solo e manter um modo de vida fossorial, os animais precisam de crânios com ossos mais espessos e densos, capazes de suportar o stress mecânico de empurrar a terra.

As imagens mostraram que os ossos do crânio de Tametara eram altamente compactos, espessos e alongados. Esse traço já foi observado em diversos lagartos de linhagens escavadoras.

Outro indício de vida subterrânea vem de ouvidos simplificados.

A Tametara mirim apresentava um sistema de canais do ouvido interno muito simplificado. Animais que vivem na superfície ou sobem em árvores necessitam de ouvidos internos bastante complexos, mas espécies escavadoras não.

Por que um estilo de vida subterrâneo?

Ao Earth.com, o professor Di-Poï disse que as condições iniciais eram complexas e que “as cobras eram simplesmente diferentes”.

Não é possível ter certeza sobre quais pressões evolutivas permitiram que a Tametara mirim se adaptasse à escavação. Di-Poï suspeita que viver no subsolo possa ter funcionado como estratégia para afastar predadores.

Ele também apontou o tamanho do corpo como um fator potencial. Enquanto algumas cobras antigas atingiram grandes dimensões e ocuparam ambientes aquáticos ou terrestres, apenas espécies menores conseguiriam abrir caminho pelo solo.

“Para fazer túneis no subsolo, acho que pode ser mais fácil se você tiver um tamanho pequeno”, concluiu o professor Di-Poï.

O estudo foi publicado na revista Nature.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário