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Universidade de Cambridge testa em humanos vacina de DNA projetada por IA contra coronavírus

Cientista em laboratório segurando frasco pequeno, com imagem de vírus e DNA na tela do notebook.

Pesquisadores da Universidade de Cambridge desenvolveram o que descrevem como um tipo fundamentalmente novo de vacina, criada com a ajuda de inteligência artificial (IA).

O elemento central dessa vacina foi concebido integralmente por IA e, agora, foi testado em pessoas pela primeira vez.

A ambição é alta: criar uma única vacina capaz de agir não apenas contra todas as variantes conhecidas de coronavírus humanos, mas também contra vírus relacionados presentes em morcegos - patógenos que poderiam saltar de animais para humanos e desencadear futuras pandemias.

Em geral, vacinas tradicionais “ensinam” o sistema imunitário a identificar um vírus específico. O problema é que vírus mudam com o tempo.

Quando as alterações acumuladas são suficientes, a proteção pode deixar de funcionar - por isso precisamos de uma nova vacina contra a gripe todos os anos e por isso as vacinas contra a COVID foram atualizadas repetidas vezes desde 2021.

A IA oferece uma rota para contornar essa limitação.

Ao analisar dados genéticos de milhares de vírus aparentados, a IA consegue apontar as partes que permanecem iguais entre diferentes estirpes e que têm menor probabilidade de mudar ao longo do tempo. Se a vacina mirar justamente essas características estáveis, ela tende a funcionar contra toda a família viral, e não apenas contra a estirpe que serviu de ponto de partida.

Foi exatamente isso que a equipa de Cambridge fez. Os investigadores usaram IA para examinar vírus da família dos sarbecovírus - que inclui os vírus responsáveis tanto pela SARS como pela COVID - e também uma série de coronavírus de animais, à procura de traços comuns que a evolução deixou praticamente intactos.

Esses traços partilhados tornaram-se a base do novo imunizante.

Vacinas de DNA

Embora muitas pessoas estejam familiarizadas com as vacinas de mRNA usadas durante a pandemia, esta nova proposta utiliza DNA. Em termos gerais, vacinas de DNA tendem a ser mais estáveis do que as de mRNA, o que facilita armazenamento e transporte - uma vantagem importante em países de menor rendimento, onde a infraestrutura da "cadeia de frio" é limitada.

Outra característica é a possibilidade de administração sem agulhas. Um jato de líquido de alta pressão aplica a vacina através da pele, o que torna a aplicação menos dolorosa e pode facilitar a ampliação rápida da vacinação durante um surto.

Poderia proteger contra futuras pandemias?

Essas vantagens práticas fazem ainda mais sentido se a vacina conseguir entregar algo que as atuais não conseguem: proteção contra vírus que ainda não encontrámos.

Vacinas de amplo espectro podem mudar a forma como o mundo reage a doenças infecciosas emergentes. Por proporcionarem uma proteção muito mais ampla do que vacinas tradicionais, poderiam oferecer imunidade rápida contra ameaças virais novas e em ascensão.

Isso daria às autoridades de saúde pública instrumentos para travar surtos logo no início, antes que tenham oportunidade de se transformar em pandemias globais.

A mesma lógica também pode alterar a estratégia para doenças mais conhecidas. A influenza é um alvo óbvio porque existe em muitas estirpes e evolui muito depressa. Cientistas precisam de prever quais estirpes irão dominar em cada temporada; quando erram, a eficácia da vacina pode cair.

Uma vacina universal contra a gripe, desenhada para atacar características partilhadas por várias estirpes, poderia acabar por pôr fim à corrida anual para acompanhar a evolução do vírus.

E o vírus do Ébola mostra por que isso é relevante agora.

O surto recente na República Democrática do Congo e no Uganda é impulsionado pela estirpe Bundibugyo, que contorna as vacinas existentes. Enquanto pesquisadores correm para criar um imunizante específico para essa estirpe, comunidades locais continuam expostas a um risco elevado.

Uma vacina de amplo espectro, planeada para cobrir toda uma família viral, poderia mudar completamente esse cenário.

O que o ensaio clínico encontrou

Este é o primeiro ensaio em humanos de uma vacina desenhada por IA. Os resultados indicaram que essa vacina de DNA conseguiu estimular o sistema imunitário a produzir anticorpos capazes de reconhecer diferentes tipos de sarbecovírus. A tecnologia foi considerada segura e bem tolerada.

O avanço é animador porque mostra como a IA tem potencial para conceber vacinas resistentes a variantes, voltadas para ameaças pandémicas futuras. Além disso, o sistema de aplicação sem agulhas pode tornar o imunizante mais simples de administrar e distribuir em escala global.

Ainda assim, há etapas importantes pela frente. Embora os achados sejam encorajadores, as respostas imunitárias após a vacinação foram modestas. Também não ficou claro por quanto tempo a proteção dura e se serão necessárias doses de reforço.

Serão necessários ensaios maiores para verificar se a vacina consegue prevenir ou reduzir infeções virais no mundo real.

Uma vacina universal ainda está a alguns anos de distância. E qualquer novo imunizante precisa passar por estudos mais amplos para comprovar que é seguro, eficaz e que oferece proteção duradoura.

Mesmo assim, este estudo sugere que o objetivo está mais próximo - e que a IA pode ajudar a chegar lá mais depressa.

Neil Mabbott, Personal Chair of Immunopathology, University of Edinburgh

Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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