Do correio de pombos à comunicação de longa distância
Muito antes de existirem mensageiros na internet, os pombos eram valorizados e criados por uma habilidade rara: voltar para casa atravessando enormes distâncias, levando uma mensagem amarrada na perna.
A relevância do correio de pombos para a cultura humana aparece já por volta de 1350 a.C., quando essas aves foram retratadas na arte do Egito Antigo.
Por séculos, elas foram o nosso meio mais confiável de comunicação a longa distância.
Até a invenção do telégrafo, os pombos-correio (Columba livia domestica) transportaram incontáveis acordos comerciais importantes, cartas de amor e relatórios de guerra que ajudaram a mudar o rumo da história.
Mesmo depois de tanto tempo dependendo dessas aves brilhantes, ainda faltava entender por que a orientação de retorno é tão precisa - e em que parte do corpo estaria essa “bússola” interna.
Campo magnético, ferro e a possível bússola interna no fígado
Há décadas, cientistas suspeitavam que pombos, como outros animais, pudessem usar o campo magnético da Terra para se orientar.
Agora, uma equipa da Universidade de Bonn e do Instituto Max Planck de Comportamento Animal (MPIAB), na Alemanha, apresenta evidências disso.
"O que parece um 'pressentimento' na navegação das aves pode, na verdade, ter uma base física", afirma o biólogo Martin Wikelski, diretor do MPIAB e autor sénior do estudo.
Ao que tudo indica, a bússola interna do pombo-correio pode estar no fígado, um órgão com alta concentração de ferro.
"Tínhamos alguns indícios de que o fígado e o baço têm propriedades magnéticas, porque eles decompõem glóbulos vermelhos e, por isso, armazenam muito ferro no corpo", diz a imunologista Clivia Lisowski, da Universidade de Bonn.
Em particular, a equipa apostou que os macrófagos carregados de ferro - glóbulos brancos especializados - no fígado participariam do processo de navegação.
O detalhe ainda mais estranho é que esses macrófagos exibem uma propriedade quântica chamada superparamagnetismo, que pode funcionar como uma “agulha” de bússola em um sentido surpreendentemente literal.
E os pombos parecem ter os componentes necessários para “ler” esse sinal: ao analisar tecido do fígado de pombos com microscópio, os pesquisadores identificaram fibras nervosas capazes de conduzir informações dos macrófagos até o cérebro.
Segundo a equipa, o Sol costuma oferecer um ponto de referência claro para a orientação, mas essas bússolas internas e quânticas no fígado poderiam ser especialmente relevantes em dias de céu encoberto.
O experimento com clodronato em céu encoberto
Para testar a ideia, os pesquisadores levaram 34 pombos-correio para um percurso experimental a 19 quilômetros (12 milhas) de distância da sua base no MPIAB, avaliando a capacidade de retorno sob condições de céu encoberto.
No dia anterior ao voo, 18 pombos receberam uma injeção de clodronato, um medicamento que elimina macrófagos - e, com isso, rompe a ligação entre essas células imunológicas no fígado e os neurónios que transmitem sinais ao cérebro.
Os pombos que não receberam clodronato chegaram em casa em até 70 minutos após serem soltos.
E os que ficaram “desconectados” da sua bússola quântica do fígado?
Eles ficaram completamente desorientados.
"Nenhuma das aves tratadas com clodronato retornou no mesmo dia sob condições persistentes de céu encoberto, exibindo, em vez disso, orientação espacial aleatória", relatam os autores.
No entanto, quando o tempo abriu e o Sol voltou a brilhar, os pombos tratados com clodronato passaram a regressar normalmente; a capacidade de voo, a motivação e a saúde geral permaneceram preservadas.
Ao repetir o experimento num dia ensolarado, as aves que receberam clodronato também não tiveram dificuldade para encontrar o caminho de volta - o que reforça a interpretação de que a “bússola interna” no fígado pode ser mais crucial quando não há Sol para indicar a direção.
Muitos animais conseguem orientar-se por distâncias imensas sem um mapa: tubarões no oceano profundo e escuro; aves migratórias que atravessam continentes; morcegos noturnos; e ratos-toupeira cegos.
Pesquisas futuras podem mostrar se eles também se guiam por células imunes quânticas ligadas diretamente ao cérebro.
"A navegação animal é um dos fenómenos mais fascinantes da natureza", diz Wikelski.
"Se as células imunes fazem parte de como as aves percebem a direção, isso mudaria fundamentalmente a forma como entendemos a navegação."
A pesquisa foi publicada na revista Science.
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