Depressão resistente ao tratamento e a busca por alternativas
Todos os anos, mais de 2 milhões de pessoas nos Estados Unidos recebem o diagnóstico de depressão resistente ao tratamento.
Diante da falta de opções, alguns pacientes, em um movimento de grande coragem, estão se voluntariando para passar por uma cirurgia que implanta no cérebro um dispositivo experimental que funciona como um “marcapasso” neural.
Esses eletrodos implantados fazem parte de uma abordagem chamada estimulação cerebral profunda, já utilizada atualmente para tratar alguns casos de doença de Parkinson e epilepsia.
Agora, ensaios clínicos começam a investigar se a técnica também pode ajudar em quadros graves de transtorno depressivo maior.
Os achados iniciais animam, embora nem sempre sejam consistentes.
Em 2021, uma paciente que recebeu um desses “marcapassos” cerebrais relatou que, depois do procedimento cirúrgico, os sintomas depressivos desapareceram de forma repentina.
"Eu não tinha certeza se isso iria durar", contou na época. "Mas durou…"
Como funciona a estimulação cerebral profunda
Depois de implantado, o aparelho passa a enviar pulsos elétricos de alta frequência - em geral, sem que a pessoa sinta a estimulação.
Até recentemente, uma das poucas alternativas disponíveis para quem não respondia aos tratamentos padrão era a eletroconvulsoterapia.
Nesse método, o cérebro é estimulado eletricamente para provocar crises convulsivas controladas sob anestesia, o que parece ser bastante eficaz para tratar episódios de transtorno mental. Ainda assim, não necessariamente oferece uma solução duradoura.
Além disso, há riscos e efeitos adversos negativos, como náusea, dor de cabeça, fadiga, confusão e perda temporária de memória - e nem todo mundo se beneficia.
Por esse motivo, parte dos pesquisadores tem voltado a atenção para a estimulação cerebral profunda.
Um implante cerebral que opera de modo semelhante a um “marcapasso” neurológico pode representar uma alternativa mais precisa à eletroconvulsoterapia.
Nos casos de epilepsia ou de doença de Parkinson, a estimulação cerebral profunda costuma mirar a substância cinzenta - isto é, os corpos dos neurónios - em áreas ligadas ao controlo motor.
Já na depressão, os melhores resultados observados até agora nos ensaios clínicos tendem a aparecer quando os implantes têm como alvo a substância branca.
Um dos alvos potenciais são feixes de substância branca adjacentes ao córtex cingulado anterior subcaloso, uma região envolvida na regulação do humor.
O que os estudos com macacos revelam sobre substância branca
Neurocientistas da Escola de Medicina Icahn, no Mount Sinai, recorreram ao cérebro de três macacos para demonstrar de que forma essa terapia poderia produzir efeitos tão prolongados.
Segundo os resultados, a técnica parece reorganizar regiões cerebrais-chave associadas à depressão.
"O que é empolgante nas nossas descobertas é que elas mudam a forma como pensamos sobre a estimulação cerebral profunda", afirma o neurocientista Peter Rudebeck.
"Pela primeira vez, mostramos que a estimulação cerebral profunda não apenas altera a atividade elétrica do cérebro no curto prazo; ela pode, de facto, remodelar a estrutura da substância branca, essencialmente reconfigurando circuitos cerebrais associados à depressão."
Ainda não se sabe se a estimulação cerebral profunda é capaz de provocar alterações semelhantes na substância branca de cérebros humanos. Mesmo assim, os indícios num parente primata próximo são relevantes.
A substância branca contém fibras nervosas - os “braços” dos neurónios - protegidas por uma bainha gordurosa chamada mielina. Essa camada protetora ajuda a conduzir mensagens elétricas entre as células cerebrais de maneira mais rápida e eficiente.
Em geral, pessoas com depressão apresentam deterioração da substância branca no cérebro.
Embora não esteja claro se a relação entre depressão e substância branca tem ligação direta com os sintomas comportamentais, essa associação aparece repetidamente, estudo após estudo.
Nos macacos analisados, a equipa do Mount Sinai observou que a estimulação cerebral profunda aumenta a mielinização de células cerebrais em regiões relacionadas à regulação do humor.
Os investigadores também notaram mudanças na forma como os neurónios interagem em diferentes redes cerebrais, "com destaque para a rede de modo padrão, que tem sido implicada na depressão", escrevem os autores no artigo publicado.
Uma rede de modo padrão hiperativa está associada à depressão.
"No geral", conclui a equipa, "os nossos dados indicam que a remodelação da substância branca, bem como alterações seletivas em múltiplas redes cerebrais, podem contribuir para a eficácia terapêutica da estimulação cerebral profunda."
Por que isso muda a visão sobre a terapia
Até hoje, ninguém sabe ao certo por que a depressão surge nem por que os sintomas variam tanto de pessoa para pessoa, embora alguns fatores de risco sejam conhecidos.
Muitos tratamentos tradicionais para a depressão se apoiam em hipóteses sobre a origem do transtorno, como a ideia de falta de serotonina no cérebro.
No entanto, para até um terço das pessoas com transtorno depressivo maior, abordagens padrão - como antidepressivos ou psicoterapia - parecem não funcionar.
"Antes, não estava claro como a estimulação cerebral profunda afetava a estrutura e a função do cérebro", explica a neurologista Helen Mayberg.
Mas os dados obtidos com macacos estão a mudar esse panorama.
"Este estudo preenche uma grande lacuna no nosso entendimento e aponta para um mecanismo pouco valorizado que contribui para uma recuperação sustentada a longo prazo", acrescenta Mayberg, "algo que observamos na nossa investigação clínica sobre estimulação cerebral profunda para depressão ao longo de muitos anos".
Pesquisadores do Mount Sinai estiveram entre os primeiros, nos Estados Unidos, a testar como a estimulação cerebral profunda poderia ser usada no tratamento da depressão.
Agora, o trabalho de acompanhamento com macacos aprofunda a investigação para identificar o que pode estar por trás desses sintomas no cérebro.
"Agora que sabemos que a estimulação cerebral profunda pode impulsionar a plasticidade estrutural na substância branca, podemos começar a pensar em como otimizar as abordagens de estimulação e, potencialmente, desenvolver novas terapias que atinjam esses mecanismos por meios não cirúrgicos", diz Mayberg.
O estudo foi publicado na revista Nature Neuroscience.
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