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PSP em Lisboa: vida dupla e 20 anos de espera - "Fronteira do Medo"

Policial em uniforme azul escuro lendo documentos ao ar livre com reflexo em vidro ao lado.

Agentes da PSP lotados na capital relatam que se sentem mal remunerados, pouco valorizados e obrigados a levar uma espécie de vida dupla entre Lisboa e a cidade de origem, onde estão suas famílias - e dados da própria PSP indicam que, para alguns, a autorização para voltar pode demorar 20 anos. Mais de uma dezena de policiais descreve uma perda de poder de compra que considera incompatível com a responsabilidade e o risco da profissão, a ponto de alguns cogitarem sair de vez. A maioria fala sob anonimato - por não ter autorização das chefias para se pronunciar - à Fronteira do Medo, uma investigação jornalística do podcast Fumaça e da revista digital Divergente.

Em meados dos anos 2000, quando Carlos (nome fictício) foi colocado nos arredores de Lisboa, a 200 quilômetros de casa, ele calculava que precisaria de cerca de dez anos para se aproximar da região Centro, onde vive a família. Não fazia parte dos planos que o prazo dobrasse: "Estás 20 anos longe da família. Perdes o crescimento dos filhos, fins-de-ano, natais, aniversários." Nesse período, dividiu moradia com colegas de forma permanente. Durante anos, viveu com mais de 40 policiais perto da esquadra, em Chelas, numa camarata da PSP: sem condições de pagar 300 ou 400 euros por mês por um quarto, desembolsava pouco mais de 20. Em contrapartida, como ele próprio diz, a "privacidade não existe": eram de sete a dez homens por quarto, dormindo em beliches, tentando conciliar turnos rotativos e desencontrados.

Para muitos agentes, Lisboa acaba sendo a única opção ao sair da Escola Prática de Polícia e, para a maioria, um "lugar de passagem", explica Pedro Carmo, do Sindicato Nacional da Polícia. As vagas oscilam conforme colegas se aposentam, mudam de posto, são promovidos ou são transferidos por "motivos disciplinares"; os poucos lugares disponíveis são distribuídos por antiguidade. O estatuto da polícia define que a transferência deve compatibilizar, "na medida do possível, os interesses pessoais com os do serviço". Os números, porém, mostram que as necessidades frequentemente não batem com onde os policiais querem morar: no fim de maio, um quinto do efetivo da PSP (5139 em 23 091) aguardava transferência. Na última década, mais da metade dos policiais transferidos saiu do comando de Lisboa.

O tempo de espera, por sua vez, varia de acordo com o destino desejado. Pela primeira vez, a PSP divulgou quanto havia demorado a autorizar as últimas transferências em cada comando. No cenário mais extremo, em 2025, um policial esperou 24 anos para sair de Lisboa e ir para Viseu. Para Coimbra, foram 19. Para o Porto, sete. Em metade dos comandos, a transferência levava mais de dez anos.

"Temos colegas a 300 e 400 quilômetros de casa, "de mochila às costas", que só vêem os filhos e a mulher quatro dias a cada seis. Vivem a família em part-time", relata Marisa Dolores, policial, psicóloga e dirigente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia. Na avaliação dela, ser policial é "ruim para a gestão financeira, familiar" e afetiva - envolve perder amizades ou lidar com uma logística emocional exaustiva para preservá-las - e também é "ruim para a saúde": pelo estresse, pelo impacto dos turnos rotativos nas rotinas de sono e alimentação, por se sentirem "desrespeitados, ofendidos, maltratados" e por como isso corrói o humor, a paciência e a disponibilidade para os outros. "Ser polícia é um bocadinho doentio em termos familiares, económicos e sociais."

A direção nacional da PSP afirma que oferece alojamento a todos os policiais que o solicitam - em camaratas, apartamentos compartilhados ou casas de acolhimento temporário -, mas diz não ter dados atuais sobre quantos vivem nessas condições. O que se sabe é que chega um "número crescente de pedidos de apoio urgente" e, por isso, desde 2022 a PSP comprou três prédios, está construindo e reabilitando outros e recebeu de prefeituras da Grande Lisboa e do Porto, pelo menos, 180 apartamentos para jovens policiais. Também reporta investimentos para melhorar as instalações já existentes.

Dois terços dos policiais fazem horas extras

Com 15 anos de serviço, João (nome fictício) recebia pouco mais de 1300 euros líquidos por uma jornada semanal de 40 horas. Carlos, com mais de 20 anos, ficava por volta de 1440. Esses valores estão próximos do que se apura, em média, na PSP: pouco acima de 1600 euros por mês, num cálculo que considera a distribuição dos policiais por nível remuneratório e os respectivos salários-base, em 2026.

Ainda assim, a média não reflete o que a maior parte efetivamente ganha. No topo das três carreiras da PSP (em que a progressão depende da aprovação em um curso), os oficiais recebem, em média, cerca de 2500 euros por mês de salário-base bruto. Os chefes, quase 2000. Já os agentes - o último degrau da hierarquia, onde está cerca de 85% da corporação - ficam em 1530. Dentro de cada carreira, a subida de escalão ocorre por antiguidade e avaliação: entre os agentes, um em cada cinco está no primeiro escalão, com remuneração média pouco acima de 1100 euros.

Mesmo tendo avançado na carreira, Carlos diz que viu seu poder de compra encolher. O salário-base de entrada (cerca de 600 euros, 80% acima do salário mínimo, em meados dos anos 2000) assegurava à família um padrão de vida que ele afirma já não conseguir manter. Desde então, a remuneração média dos agentes não apenas ficou atrás do aumento dos aluguéis nos grandes centros urbanos, como também não acompanhou a valorização do salário mínimo. Hoje, o que um policial no começo da carreira recebe está 17% acima.

Por isso, mês após mês, João e Carlos acumulam turnos extra: mais dez, de 12 horas, em serviços contratados à PSP por entidades públicas ou privadas - fazendo a segurança de eventos ou supermercados - para fechar as contas da casa. Em 2024, cerca de dois terços dos policiais fizeram esses serviços "remunerados" ou "gratificados", cujo pagamento foi aumentado recentemente.

Apoio psicológico é "praticamente nulo"

Ao longo de dezenas de entrevistas, outro assunto apareceu como inevitável para esses policiais: a falta de cuidados em saúde mental. Na PSP e na GNR, morrem muito mais operacionais por suicídio do que em serviço: nos últimos 25 anos, 33 morreram em intervenções policiais, e 193 puseram termo à vida, a maioria com recurso à própria arma - o que coloca as forças de segurança como prioritárias nas orientações de políticas de prevenção do suicídio. Por isso, em 2025, o Governo anunciou a intenção de criar um grupo de análise retrospectiva dos suicídios na classe, mas, nesse meio-tempo, o Executivo caiu, a pasta mudou de mãos e o plano nunca saiu do papel. "Está, atualmente, em estudo a implementação de novas medidas", declarou o Ministério da Administração Interna, destacando o trabalho já realizado pelas equipes de psicologia de ambas as polícias.

Dentro da PSP, falar disso não é simples. Apenas um colega sabe que Leonel (nome fictício) faz psicoterapia semanal. É um tipo de conversa que ele e outros dizem que não dá para ter na esquadra: "Diriam: "O gajo é maluquinho, é fraco de cabeça". Um foi desarmado e o pessoal goza mais do que procura saber se ele está bem." Já quando João (nome fictício) esteve "deprimido até à quinta casa", ele diz que nem lhe ocorreu pedir ajuda dentro da polícia. Ele aponta o cansaço, o estresse e a desvalorização permanente como a fórmula do burnout recorrente na categoria. A percepção é a de que "qualquer dia, um gajo passa-se": "Deixas de ter discernimento, paciência, e rebentas."

Marisa Dolores: polícia, psicóloga e dirigente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia: "Ser polícia é um bocadinho doentio em termos familiares, económicos e sociais."

O suporte psicológico, segundo eles, "é praticamente nulo", e acompanhamento contínuo simplesmente não existe. "Vi colegas atravessarem situações muito complicadas e serem completamente negligenciados", conta Vasco (nome fictício). Ele descreve situações em que é chamado para um homicídio violento, vai embora e no dia seguinte retorna ao trabalho "como se nada fosse".

O que existe na PSP, de tempos em tempos desde 2007, é uma avaliação psicológica obrigatória pela qual todos os policiais precisam passar. Elas são feitas pelo departamento de psicologia, que, em 2025, contava com 47 psicólogos - e, em sete anos, realizou mais de 22 mil reavaliações, mais do que todo o efetivo. Segundo a PSP, essas consultas de triagem não têm como objetivo afastar policiais do serviço, mas sim encaminhar quem precisa para atendimento regular. A direção nacional afirma ainda que o cuidado com a saúde mental é tema central e diz não reconhecer falhas de acesso. Reforçar as respostas de "apoio psicológico, da gestão do stress e da prevenção do suicídio" é uma de suas "linhas estratégicas" até 2027.

"Fronteira do Medo" é uma investigação do podcast Fumaça e da revista digital Divergente


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