Adolescentes que passam a ter dificuldade para controlar o uso de redes sociais tendem a apresentar mais sintomas de ADHD no ano seguinte, segundo um novo estudo. A associação apareceu quando o uso se torna problemático - isto é, compulsivo e difícil de interromper - e foi mais nítida entre meninos.
O achado deixa um recado prático para pais e profissionais de saúde. O ponto central não parece ser quantas horas o adolescente passa a rolar a tela, e sim se esse uso virou algo que ele já não consegue conter.
O impacto não foi igual para todos: ele pesou mais sobre os meninos do que sobre as meninas e surgiu num intervalo específico do meio da adolescência.
Milhares de adolescentes
O estudo foi conduzido por uma equipa liderada pelo Dr. Jason M. Nagata, médico de medicina do adolescente na Universidade da Califórnia, San Francisco (UCSF).
O grupo utilizou dados do Estudo de Desenvolvimento Cognitivo do Cérebro Adolescente, um projeto federal de longa duração que acompanha mais de 11.000 crianças dos EUA à medida que crescem.
Os resultados saem num momento tenso para muitas famílias. Cerca de uma em cada nove crianças e adolescentes nos EUA já recebeu diagnóstico de ADHD.
Dados federais atuais indicam que esse total aumentou em aproximadamente um milhão entre 2016 e 2022, nos mesmos anos em que a mídia digital se tornou cada vez mais comum entre crianças mais novas.
O método foi direto. A partir de cerca de 12 anos de idade, os investigadores fizeram uma avaliação anual durante cinco anos.
Cinco anos de dados
Em cada ano, os jovens classificaram até que ponto o seu uso de redes sociais tinha saído do seu controlo.
Em paralelo, os pais pontuaram sintomas de ADHD, como dificuldade de concentração, inquietação e comportamento impulsivo, que caracterizam o transtorno de défice de atenção/hiperatividade.
O que diferenciou o estudo foi a forma de comparação. Em vez de colocar adolescentes uns contra os outros, a equipa comparou cada adolescente com ele mesmo ao longo do tempo.
Depois, verificaram se anos em que o uso estava mais compulsivo do que o habitual eram seguidos por mais problemas de atenção. Num período do meio da adolescência, aproximadamente dos 14 aos 16 anos, isso aconteceu.
É fácil exagerar o tamanho do fenómeno. Ao longo dos cinco anos, as pontuações da maioria dos adolescentes mantiveram-se baixas; portanto, a história aqui é de oscilações relativas, e não de uma geração inteira a cair, em massa, em dependência.
Recompensa e autocontrolo
ADHD e uso compulsivo de redes sociais acionam circuitos semelhantes. Ambos envolvem impulsividade e uma forte atração por recompensas imediatas.
Isso se combina com sistemas de autocontrolo que ainda estão em maturação na adolescência. Esse terreno comum ajuda a explicar por que os investigadores suspeitavam que as duas coisas poderiam evoluir juntas.
As plataformas são desenhadas para estimular exatamente esses mecanismos. Curtidas, notificações e fluxos de publicações que não acabam oferecem recompensas sociais rápidas e imprevisíveis.
O resultado é um tipo de atração que tende a ser mais difícil de resistir enquanto a capacidade do adolescente de se conter ainda está em desenvolvimento.
Para além do tempo de tela
Um estudo anterior com estudantes do ensino médio em Los Angeles já tinha associado uso intenso de mídia digital a sintomas posteriores de ADHD.
A diferença é que aquele trabalho olhou para a frequência de uso de várias plataformas, e não para a possibilidade de esse uso ter adquirido caráter compulsivo. Esse contraste está no centro do novo estudo.
O tempo online, por si só, diz pouco sobre o adolescente sentir-se tomado pelo assunto, tentar reduzir e não conseguir, ou ficar angustiado quando é impedido de aceder.
Essas vivências - e não o relógio - foram o que o questionário mediu, e foi isso que acompanhou o aumento posterior de sintomas.
Efeitos mais marcados em meninos
Quando os investigadores separaram o grupo por sexo, o cenário mudou. A ligação “para a frente” - uso compulsivo num ano e mais problemas de atenção no ano seguinte - apareceu em meninos, mas não em meninas.
Entre meninos, uma maior sensibilidade a recompensas e uma tendência mais forte a assumir riscos podem reforçar esse ciclo. As meninas não estavam simplesmente protegidas.
NelAS, quem já apresentava problemas de atenção mais persistentes também tendia a ter um uso de redes sociais mais problemático.
Nesse caso, o padrão pareceu refletir uma associação de fundo mais estável, e não um efeito que variava de ano para ano.
Sistemas de recompensa em ação
Uma revisão de mais de duas dúzias de estudos identificou o mesmo padrão geral: o uso problemático se relaciona com sintomas de ADHD de maneira mais consistente do que o tempo de tela.
O próprio momento do efeito combina com o que se sabe sobre o cérebro adolescente. Na metade da adolescência, a busca por recompensas costuma ultrapassar a “maquinaria” mental que a mantém sob controlo.
Nessa fase, a maioria já tem contas e usa com frequência. Antes, menos adolescentes estão online de forma tão intensa; depois, eles passam a ter mais autonomia para decidir sobre os próprios hábitos.
As implicações daqui para a frente
Antes deste trabalho, grande parte das evidências que ligavam redes sociais a problemas de atenção vinha de fotografias pontuais no tempo ou de contagens de tempo de tela. Este estudo avançou além disso.
Ao acompanhar os mesmos adolescentes por anos, separar as oscilações individuais das características fixas de cada um e ainda assim observar que o uso compulsivo antecedeu um aumento de sintomas de ADHD - sobretudo em meninos -, o estudo reforçou a necessidade de olhar para a qualidade do uso.
Para pais, isso muda o foco do que observar. Em vez de apenas vigiar o relógio, pode ser mais útil prestar atenção aos sinais de que o uso descarrilou.
Entre esses alertas estão: não conseguir reduzir, ficar irritado ou ansioso sem acesso às redes, ou deixar escola e sono deteriorarem.
Efeitos pequenos, pistas úteis
Os efeitos foram pequenos, e o estudo não permite afirmar que redes sociais causem sintomas de ADHD.
O padrão também variou conforme quem relatou os dados. Os pais perceberam mudanças que os adolescentes não identificaram na própria atenção.
Ainda assim, os resultados dão aos clínicos uma pergunta prática e concreta a considerar: não apenas quanto tempo o adolescente fica online, mas quanta sensação de controlo ele tem sobre isso.
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