Uma ampla nova revisão sobre doenças transmitidas pela água conclui que, num mundo mais quente, nem todos esses patógenos serão empurrados na mesma direção.
A elevação da temperatura da água favorece a proliferação das bactérias por trás de algumas das infecções intestinais mais letais.
Em contrapartida, vários vírus estomacais comuns se saem melhor em condições de tempo fresco e seco e podem perder força à medida que o planeta aquece.
Essa divisão muda as projeções para enfermidades que ainda matam quase 1,2 milhão de pessoas por ano por diarreia infecciosa, em sua maioria crianças pequenas.
Em vez de um aumento uniforme do perigo, as mudanças climáticas tendem a reorganizar quais patógenos ameaçam quais comunidades - e em que épocas.
Bactérias e vírus respondem de forma diferente
A revisão foi liderada por Karen Levy, professora de saúde ambiental e ocupacional na Universidade de Washington, que passou grande parte da carreira investigando como o clima influencia a disseminação de infecções intestinais.
Sua equipa reuniu décadas de estudos sobre microrganismos que passam de pessoa para pessoa quando alguém ingere água contaminada por dejetos humanos ou animais.
Esses micróbios não reagem de maneira igual a um clima em transformação. O calor acelera o crescimento de muitas bactérias, incluindo a responsável pela cólera, que se multiplica mais rapidamente em água morna e levemente salobra.
Muitos vírus, por sua vez, não lidam bem com temperaturas mais altas. Norovírus, rotavírus e adenovírus - causas conhecidas de vómitos e diarreia - circulam mais nas fases frescas e secas do ano, e vários deles podem diminuir à medida que esses períodos encurtarem.
Os dados também apontam nessa direção. Uma análise observou que, em geral, as infecções intestinais bacterianas se tornaram mais frequentes com o aumento da temperatura, enquanto as infecções virais ficaram menos comuns.
O risco de infeção por Salmonella aumentou cerca de 5% a cada 1 °C de aquecimento.
Quando a chuva sobrecarrega a infraestrutura
Chuvas intensas e cheias formam o caminho mais conhecido.
Quando tempestades excedem a capacidade de drenagem e arrastam dejetos humanos e animais para rios e poços, os micróbios que causam diarreia seguem junto, alcançando torneiras e bombas das quais as pessoas dependem.
O impacto pode ser rápido e massivo. Em 1993, o parasita cryptosporidium atravessou uma estação de tratamento em Milwaukee depois que o escoamento da primavera contaminou a água de origem.
O parasita adoeceu cerca de 400.000 pessoas, no maior surto de doença transmitida pela água já registado na história dos EUA.
A relação, porém, não se resume a “mais chuva, mais doença”.
Uma meta-análise constatou que chuva forte após um período seco tende a descarregar no sistema hídrico uma carga acumulada de resíduos e elevar as infeções; já a chuva durante uma fase que já está húmida pode diluir esses patógenos e reduzir o efeito.
Riscos de água em falta
A escassez de água também traz riscos próprios - e é fácil subestimá-los. Quando a seca reduz poços e cursos d’água, famílias recorrem às fontes que restam, guardam água por mais tempo em casa e ficam com menos disponibilidade para lavar as mãos e os alimentos.
O efeito é quantificável. Um estudo que acompanhou crianças em dezenas de países de baixa e média renda associou seis meses de seca a um risco aproximadamente cinco a oito por cento maior de diarreia.
Os aumentos mais acentuados ocorreram onde as famílias precisavam caminhar longas distâncias para obter água ou não tinham sabão.
A subida do nível do mar acrescenta outro perigo nas áreas costeiras. À medida que a água do oceano infiltra-se em aquíferos e lagoas, as fontes de consumo tornam-se salobras.
Isso favorece a bactéria da cólera, que cresce bem em água ligeiramente salgada, e, em partes costeiras e baixas do Bangladesh, marés de tempestade e a salinização gradual já foram associadas a piora na saúde.
Preparação para ameaças em mudança
A mensagem da revisão não é apenas sombria. Os autores defendem que as ferramentas para conter o problema já existem e que os investimentos mais sensatos são os que geram benefícios independentemente de como o clima evolua.
Em primeiro lugar vêm sistemas de água e saneamento mais robustos, concebidos para continuar a funcionar quando enchentes e tempestades castigarem tubulações e estações de tratamento.
Saneamento confiável impede que resíduos cheguem ao abastecimento mesmo quando o tempo fica extremo.
Logo depois aparece a vigilância epidemiológica mais precisa - do tipo que distingue um patógeno de outro.
Quando as autoridades sabem qual micróbio está a circular, podem responder de forma adequada, em vez de tratar todo surto como se exigisse a mesma estratégia.
Adaptação a novas ameaças de doenças
O uso mais amplo de vacinas também ajuda, e já existem imunizantes para várias ameaças transmitidas pela água, incluindo cólera, rotavírus, tifoide e hepatite A.
O problema é que os mesmos desastres que ampliam a transmissão podem derrubar a refrigeração de que essas vacinas dependem.
Elizabeth Carlton, professora na Colorado School of Public Health da University of Colorado Anschutz Medical Campus e coautora da revisão, foi direta.
“As mudanças climáticas estão a mudar as regras de como essas doenças se espalham”, disse Carlton.
Segundo ela, a maior parte das ferramentas de resposta já está disponível. O trabalho mais difícil é desenhá-las e implementá-las para o clima que o mundo enfrenta agora e para as condições que ainda virão.
À medida que o clima muda, também mudam os riscos de doenças transmitidas pela água. A proteção mais forte é alinhar sistemas hídricos, vigilância e vacinas às ameaças que cada região tem maior probabilidade de enfrentar.
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