Ir a museus, ver filmes no cinema ou prestigiar peças de teatro, concertos e óperas pode render ganhos que extrapolam o lazer. Uma pesquisa recente sugere que esse tipo de vivência cultural pode estar associada a um envelhecimento biológico mais lento, fazendo com que o corpo funcione como o de alguém alguns anos mais jovem.
Publicado no Jornal de Epidemiologia e Saúde Comunitária, o trabalho reforça o valor de manter uma rotina social e cultural ativa ao longo do envelhecimento. De modo geral, os pesquisadores constataram que adultos mais velhos com participação cultural regular exibiam uma idade fisiológica cerca de três anos inferior à de pessoas que quase não cultivavam esse hábito.
O que é idade fisiológica?
A idade cronológica é simplesmente a contagem de anos desde o nascimento. Já a idade fisiológica busca medir como o organismo está operando na prática. Para isso, reúne indicadores ligados ao funcionamento cardiovascular, metabólico, muscular e respiratório, entregando uma estimativa mais fiel de como o corpo está a envelhecer.
Assim, alguém pode ter 70 anos de idade cronológica, por exemplo, e ainda assim apresentar um organismo comparável ao de uma pessoa mais nova quando mantém hábitos favoráveis à saúde.
Como a pesquisa foi realizada
A investigação foi feita por cientistas do Instituto de Ciências de Tóquio, no Japão, a partir de dados de 1.899 participantes do Estudo Longitudinal Inglês do Envelhecimento, um amplo acompanhamento de adultos com 50 anos ou mais que vivem na Inglaterra.
Os participantes foram acompanhados em diferentes momentos, e a idade fisiológica foi estimada com base em dez marcadores de saúde, incluindo:
- pressão arterial;
- pressão de pulso;
- função pulmonar;
- níveis de hemoglobina;
- hemoglobina glicada;
- colesterol LDL;
- fibrinogénio;
- índice de massa corporal (IMC);
- força de preensão das mãos;
- velocidade da caminhada.
Além dessas medições, os voluntários informaram com que regularidade iam a cinemas, museus, galerias de arte, teatros, concertos e apresentações de ópera.
Participação cultural foi associada a um corpo mais jovem
Ao comparar os grupos, os autores observaram uma diferença clara.
Quem frequentava atividades culturais pelo menos a cada poucos meses apresentou idade fisiológica média de 66,9 anos. Em contrapartida, entre os que raramente compareciam a esses eventos, a idade fisiológica média chegou a 69,9 anos.
A relação manteve-se relevante mesmo depois de considerar fatores como renda, situação profissional e existência de doenças crónicas. Os cálculos do estudo indicaram ainda que, a cada aumento na frequência de participação cultural, surgia uma pequena queda na idade fisiológica - um sinal compatível com um possível efeito cumulativo ao longo do tempo.
Por que atividades culturais podem beneficiar a saúde?
O estudo não permite afirmar causa e efeito de forma direta. Ainda assim, os pesquisadores levantam caminhos que podem ajudar a entender a associação observada.
Entre os mecanismos apontados estão:
- reforço dos vínculos sociais;
- redução da solidão e do isolamento;
- melhoria da saúde mental;
- diminuição do stress;
- estímulo cognitivo contínuo;
- incentivo a um estilo de vida mais ativo.
Esses elementos já são amplamente reconhecidos por contribuírem para um envelhecimento mais saudável e podem atuar em conjunto na preservação das funções do organismo.
Benefícios podem ser comparáveis aos da atividade física
Segundo os autores, o efeito identificado foi relevante e pode aproximar-se do benefício associado à prática frequente de exercícios físicos. Eles frisam, porém, que isso não implica trocar atividade física por programas culturais - a ideia é que ambas as dimensões possam coexistir dentro de um estilo de vida saudável.
O trabalho também considera uma explicação alternativa: pessoas com melhor saúde podem ter mais facilidade para sair de casa e participar desses eventos, o que ajudaria a explicar parte da associação encontrada.
Tornar a cultura mais acessível pode beneficiar a saúde pública
Para os pesquisadores, ampliar o acesso da população a museus, cinemas, teatros e outras experiências culturais pode ser uma estratégia promissora para apoiar um envelhecimento saudável.
Medidas que reduzam barreiras financeiras e geográficas podem incentivar mais gente - sobretudo idosos - a manter uma rotina social ativa, o que tende a favorecer tanto o bem-estar emocional quanto a saúde física.
Apesar de ainda serem necessários novos estudos para confirmar se a participação cultural desacelera diretamente o envelhecimento biológico, os resultados sustentam a ideia de que investir em experiências culturais pode ser mais um caminho para cuidar do corpo, da mente e da qualidade de vida ao longo dos anos.
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