Todo mundo está de olho no Pacífico neste momento, à espera de um “Super El Niño” ganhar força. Só que, do outro lado do mapa, uma história bem mais discreta está acontecendo.
Um novo estudo indica que, quando o Oceano Índico esquenta ou esfria, os efeitos em cadeia aparecem a milhares de quilómetros de distância, no Mediterrâneo Oriental.
Essa ligação pode, inclusive, permitir que cientistas identifiquem a chegada de um período severo de estiagem com meses de antecedência.
A pesquisa foi conduzida pelo doutorando Victor Murphy e pelo Dr. Assaf Hochman, do Instituto de Ciências da Terra da Universidade Hebraica de Jerusalém.
O foco foi o Dipolo do Oceano Índico, um padrão alternado de aquecimento e resfriamento ao longo do Oceano Índico tropical.
A equipa investigou como esse fenómeno se relaciona com longos intervalos secos no inverno do Levante, uma região onde a disponibilidade de água já é limitada.
Quando a chuva de inverno some
Esses períodos secos não são algo pequeno. Estamos a falar de semanas consecutivas - semanas que pressionam o abastecimento de água, castigam a agricultura e colocam ecossistemas inteiros sob tensão em Israel e nos países vizinhos.
Os reservatórios baixam, as lavouras perdem produtividade e, quando o padrão fica claro, muitas vezes já resta pouco a fazer além de esperar passar.
Historicamente, prever esses eventos com antecedência tem sido frustrante, porque a maioria dos modelos existentes depende quase exclusivamente das condições atmosféricas locais, sem considerar influências mais distantes.
Por isso, os pesquisadores foram procurar uma explicação em um lugar pouco óbvio: o Oceano Índico, uma bacia em que muita gente nem pensaria ao tentar entender uma seca no Médio Oriente.
Sete décadas de dados
Ao analisar mais de sete décadas de registos climáticos, a equipa observou que, quando o Dipolo do Oceano Índico entra em fase positiva, ele desencadeia mudanças de grande escala na circulação atmosférica.
Essas alterações avançam do Oceano Índico, atravessam a Eurásia e chegam diretamente ao Mediterrâneo Oriental.
Além disso, elas tendem a favorecer sistemas persistentes de alta pressão - exatamente o tipo de configuração que mantém as nuvens afastadas e prolonga as estiagens muito além do normal.
O ponto mais prático, porém, é o seguinte: as condições de dezembro no Oceano Índico, em particular, pareciam indicar se haveria, mais adiante naquele inverno, um período seco excepcionalmente longo.
Isso não é apenas uma curiosidade estatística. Trata-se de uma vantagem real de tempo - do tipo que pode ajudar alguém a se preparar, em vez de apenas reagir quando as torneiras já começam a secar.
Um oceano que ninguém esperava
“Quando pensamos em seca no Mediterrâneo Oriental, raramente pensamos no Oceano Índico”, disse a Dra. Sigalit Berkovic, do Instituto Israelense de Pesquisa Biológica.
“Mesmo assim, nossa pesquisa mostra que o que acontece a milhares de quilômetros (a milhares de milhas) de distância pode remodelar a circulação atmosférica que determina se nossa região passará semanas sem chuva.”
“Isso destaca o quanto o sistema climático da Terra é realmente interligado.”
O clima no Mediterrâneo não é comandado apenas por fatores locais.
Os pesquisadores observaram que mudanças no Oceano Índico tropical podem acionar processos atmosféricos que, no fim das contas, moldam a chuva de inverno no Levante.
Compreender essas conexões climáticas de longo alcance pode oferecer pistas valiosas para antecipar extremos meteorológicos com meses de antecedência.
El Niño não é a história toda
O El Niño recebe toda a atenção por ser dramático e por estar ligado ao Pacífico, mas este trabalho aponta noutra direção: os oceanos tropicais não funcionam isoladamente.
O Oceano Índico também exerce influência, conectando-se ao clima distante por meio do que os cientistas chamam de teleconexões.
Essas teleconexões são cadeias de causa e efeito de longa distância, que atravessam continentes inteiros e podem levar semanas para se completar.
Os autores não dizem que o El Niño não importa. O argumento é que ele não é a única peça do quebra-cabeça.
Incorporar dados do Oceano Índico aos modelos de previsão já existentes pode refinar as projeções de seca e de outros eventos extremos no Mediterrâneo Oriental.
Com essa abordagem, seria possível captar sinais que modelos concentrados no Pacífico, sozinhos, poderiam deixar passar completamente.
Mais tempo antes de a seca chegar
Se os centros de previsão conseguirem usar esses sinais, governos, autoridades hídricas e agricultores ganham algo raro nessa parte do mundo: tempo.
Tempo para ajustar a irrigação, gerir reservatórios com mais cautela e preparar-se para uma estação difícil antes que ela se instale.
Mesmo mudanças pequenas feitas com meses de antecedência - decisões de plantio, calendários de racionamento e libertação de água dos reservatórios - podem virar economias significativas quando, finalmente, um longo período seco acontece.
Em uma região onde a água sempre foi um tema sensível, alguns meses extras de aviso fazem diferença.
E esse aviso pode já estar ali, discretamente registado na temperatura de um oceano em que muita gente do Mediterrâneo nunca pensou duas vezes - à espera de que as previsões passem a lê-lo do jeito certo.
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