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Nova análise nos Estados Unidos mostra que o clima frio causa mais mortes cardiovasculares do que o calor

Médico mostra eletrocardiograma em tablet para paciente idoso que segura o peito, em consulta clínica.

Quando saem alertas meteorológicos, o calor quase sempre rouba a cena. O que se ouve são avisos sobre ondas de calor, desidratação e sobre como temperaturas elevadas podem sobrecarregar o coração.

Mas uma enorme nova análise feita nos Estados Unidos indica que podemos estar ignorando um perigo mais discreto e constante: o frio.

Os pesquisadores observaram que temperaturas abaixo do ideal estão associadas a muito mais mortes cardiovasculares nos Estados Unidos do que temperaturas acima do ideal.

E não se trata apenas de nevascas raras ou de episódios de vórtice polar - o estudo sugere que até a exposição ao frio “rotineiro” contribui de forma importante para infartos, AVCs e doença arterial coronariana.

O que os pesquisadores analisaram

O trabalho é descrito como a análise mais abrangente, em escala nacional nos EUA, sobre tendências de mortes cardiovasculares relacionadas à temperatura até hoje.

Estudos anteriores já ligaram temperaturas extremas a maior risco cardíaco, mas muitos focaram outros países ou recortes menores do território norte-americano.

Neste caso, os autores avaliaram mais de 14 milhões de mortes cardiovasculares em pessoas com mais de 25 anos, em 819 condados dos EUA, cobrindo aproximadamente 80 por cento da população do país entre 2000 e 2020.

Eles conectaram registros de mortalidade a dados locais de temperatura. Em seguida, recorreram a modelos estatísticos para estimar o quanto as temperaturas diárias se afastavam de um ponto “ótimo” e como esse desvio elevava o risco de morte.

O passo central foi medir quantas mortes cardiovasculares poderiam ser atribuídas ao frio em comparação ao calor.

O frio responde por mais mortes cardíacas

A análise apontou 74°F (cerca de 23°C) como a temperatura “ótima” - o ponto em que a mortalidade cardiovascular foi mais baixa. A partir daí, o risco aumentou quando as temperaturas se distanciaram desse valor, mas de maneira desigual.

Temperaturas abaixo de 74°F foram associadas a cerca de 40,000 mortes cardiovasculares por ano durante o período do estudo (aproximadamente 6.3 percent das mortes cardiovasculares). Já temperaturas acima de 74°F foram associadas a cerca de 2,000 mortes por ano (aproximadamente 0.33 percent).

Ao longo de duas décadas, isso soma aproximadamente 800,000 mortes ligadas a temperaturas mais frias. Em contraste, cerca de 40,000 mortes foram relacionadas a temperaturas mais quentes.

O estudo também apresenta a diferença de um jeito direto e fácil de lembrar: aproximadamente uma em cada 16 mortes cardiovasculares esteve ligada ao frio, contra cerca de uma em cada 300 associada ao calor.

Isso não quer dizer que o calor seja inofensivo. Mas sugere que, nos EUA, o frio representa um risco cardiovascular maior e mais constante quando se olha o quadro populacional.

Não é só porque existem mais dias frios?

Uma objeção óbvia é que muitas regiões dos EUA passam mais tempo abaixo de 74°F do que acima. Os pesquisadores destacam que cerca de 80 percent das observações na base de dados ocorreram em temperaturas abaixo de 74°F.

Eles aplicaram técnicas estatísticas para ajustar esse desequilíbrio e, mesmo após esses ajustes, a mortalidade ligada ao coração continuou sendo mais frequente em dias mais frios.

Ou seja, não se trata apenas de um efeito matemático de “mais dias frios”. O frio, por si só, parece estar associado a um risco cardiovascular relevante.

Por que o frio pesa para o coração

O artigo não se aprofunda nos mecanismos, mas, do ponto de vista clínico, a associação é coerente. A exposição ao frio pode elevar a pressão arterial e a carga de trabalho do coração, além de provocar constrição dos vasos sanguíneos.

As pessoas também tendem a realizar esforços intensos e repentinos em clima frio (o exemplo clássico é retirar neve com pá), o que pode ser a combinação perfeita para quem já tem doença cardíaca.

E, ao contrário das ondas de calor, o risco do frio pode ser traiçoeiro porque parece “normal”. Muita gente não enxerga um dia frio como um perigo para a saúde.

“Isso pode surpreender muitas pessoas, mas a maioria das mortes cardiovasculares relacionadas à temperatura está associada ao frio, não ao calor”, disse o autor principal, Dr. Pedro Rafael Vieira de Olivera Salerno, residente em clínica médica da Icahn School of Medicine of Mount Sinai.

“Embora as ondas de calor sejam um grande foco quando se fala em problemas de saúde, temperaturas mais frias estão associadas a muito mais mortes relacionadas ao coração ao longo do tempo.”

Profissionais de saúde observam há muito tempo padrões sazonais em eventos cardiovasculares. As novas evidências agora quantificam o quanto a exposição ao frio contribui em nível populacional. Mesmo condições comuns de frio - especialmente para pacientes vulneráveis - podem elevar o risco cardiovascular.

O que isso significa para clínicos

A mensagem do estudo para clínicos é direta: encarar a exposição ao frio como um fator real de risco cardiovascular, e não como algo secundário.

O risco aumenta nos meses mais frios, sobretudo em idosos e em pessoas com doença cardiovascular pré-existente.

Os autores defendem que o risco da estação fria seja incluído no aconselhamento rotineiro e nas estratégias de prevenção - e não reservado apenas a alertas de clima extremo.

O que isso significa para pacientes cardíacos

Se você tem doença cardíaca - ou é mais velho, ou já teve infarto ou AVC - o inverno não é apenas desconfortável. Ele pode trazer risco.

A orientação prática mencionada no artigo é a que se espera, mas é importante porque muitas pessoas acabam ignorando esse tipo de cuidado.

Mantenha-se aquecido e evite ficar com frio por longos períodos. Tenha cautela com esforço súbito no frio (retirar neve com pá pode ser um gatilho real para alguns). Tome os medicamentos de forma consistente. Em alguns casos, médicos podem precisar ajustar medicamentos durante frio extremo.

De novo, a ideia principal é que o risco não se limita a episódios raros de congelamento intenso. Dias frios “normais” também podem impor maior esforço ao organismo.

A lacuna maior que este estudo revela

As mensagens de saúde pública fizeram um trabalho razoável ao aumentar a conscientização sobre o calor. Mas esta análise indica que deixamos passar uma grande oportunidade de prevenção ao não tratar a exposição ao frio com o mesmo grau de seriedade.

O frio não parece uma crise dramática como uma onda de calor. Porém, quando se olha para um país inteiro e para duas décadas de dados, ele se mostra como a maior ameaça cardiovascular.


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